2014-05-17

Que nunca se cumpra um silêncio


 Não há um espaço nem um tempo para ti.
Vi-te dissimulada num fiorde, incrustrada numa gôndola a fluir silenciosa num canal menor, como estátua efémera nas puertas del sol, a dançar num coreto mineiro, enrolada num xaile num prostíbulo lisboeta, inclinada da janela de um táxi amarelo na quinta avenida, a fumar uma cigarrilha na Closerie des Lilas. O facto é que na plateia do La Fenice não há mais ninguém. Só tu de cabelo dourado e ombros descobertos e ainda não sorris nem usas máscara.

És, como eu supunha, perfeita e intemporal, e por isso a mais bela mulher do mundo. Também não há ninguém no palco. Ninguém, portanto, só tu e eu. Seis de março de mil oitocentos e cinquenta e três, mas, ainda assim, nunca serás a mulher caída*. Podes ser Violetta, não importa, podes ser tudo, eu serei Alfredo ou outro qualquer.

Escorre o sangue do espectáculo no fim de todas as cenas e não haverá acto, nunca haverá acto, só desejo, Violetta Valéry. Quando o pano cai tu estás no centro da plateia e eu estou no centro do palco. Ainda não chegou o momento. Por ora, insinuas-te por trás da multidão e chegas ao backstage como todas as mulheres, indistinta e colectiva, sem cheiro e sem cor, sem imagem nem brilho. Na mais bela mulher do mundo nem tudo é regular. Começa com o movimento do corpo, que não é óbvio, cujo desenho se instala como o quadro mais desejado da exposição e que esteve para não ser exposto e irrompe no vazio ou no ar, que começa agora a encher-se, rompe com todas as barreiras e não precisa de estar sob luzes dedicadas. A mais bela mulher do mundo brilha por si, mesmo que transporte a alma no corpo frágil, anjo pálido. E então reparo em ti. Reparo nela. Reparo em ti. Ela és tu. Talvez a tua universalidade não me permita este tratamento íntimo. E no entanto és única, és a visão de um noite e mais tarde, no estertor que me conduzirá ao templo da eternidade, a visão de uma vida. És a mulher mais bela que alguma vez pisou a terra. És a mulher mais bela de todas as que estão por existir. És um absoluto e és completamente relativa, específica, detalhada, bela.

Não é a beleza uma imprecisão do que está composto, uma imperfeição?

Violetta dos cabelos dourados, fica para o fim, deixa-os sair.
Deixa sair o teatro inteiro, a ópera toda e não caias.
Não fiques caída, Violetta Valéry.

Ainda antes do nosso momento, de seres a última de todas, portanto a primeira, foste a primeira e correste o risco da derradeira.
Vinhas com os braços alçados e um sorriso demasiado transparente. Causaste-me um certo espanto, mas trazias contigo o encanto e pelo menos mais duas mulheres que estavam junto dele. Depois apenas a vulgaridade, o barulho indistinto, gritos de maestro, maestro, ou mestre, mestre, não sei, nessas noites de celebração, êxtase e sucesso eu sabia que me esperava a solidão da minha Villa, o manto negro da noite que na minha sala de fumo é vermelho enquanto estão todos e azul depois, no nada, gelada madrugada em que fumo sucessivamente todos os sentimentos por ordem descrescente até amanhecer miserável.

Muitas horas depois de terminar a mulher caída, Verdi partira na carruagem sem sequer pernoitar em Veneza, e sem a multidão perceber porquê, eu Alfredo mantivera-me no espaço da ópera e tu Violetta estavas detida, como eu pedira. Assim o leras no meu olhar suplicante: quantos homens e mulheres deixaram de se amar pelos séculos por silêncio? A causa do silêncio não é uma causa nobre, ou talvez o seja apenas depois de instalado o amor.
Amem as pessoas em lados opostos das casas, sim, Violetta, é possível que sim, que o silêncio possa ser uma causa maior, uma causa de amor. Tu ficaste, intemporal, os ombros descobertos, a pele alva, os cabelos dourados a cair em flocos até metade das costas.
E Eis, Violetta, o que não fiz:

Não te cingi a mim para que o cheiro nos percutisse.
Não encostei a minha cara à tua nem te provei nenhum dos ombros.
Não te corri a cortina dos olhos para te beijar candidamente, primeiro, e, conforme a cadência dos beijos e a continuidade das bocas e a temperatura dos lábios e a implicação das salivas e o compasso das línguas, te quebrar a resistência sem nunca te deixar caída e te paramentar nos braços e nas pernas e no colo e no ventre e a fluir.
Em vez disso aproximei-me de ti e do teu olhar a interrogar-me se tinha sido mesmo por ti que esperara, e eu sim, claro que sim, esperaria uma vida inteira por este momento em que te vou dizer, Violetta, anjo pálido, corpo frágil, sem silêncio,
que te desejei profundamente como nenhuma outra nessa noite ou em todas as representações de "La Traviata" até ao fim dessa semana, ou que todas as mulheres em Veneza, ou, provavelmente, todas as mulheres do mundo até ti, e que em todas as noites cheguei ao Cipriani e imaginei o que terias sido em mim nos meus aposentos faustosos com tudo o que o dinheiro pudesse comprar, ou então num beco pobre, sem nada sobre o corpo, na linha mais simples de uma folha não pautada e no infinito que a define,
que te desejei profundamente mas que vou partir de Veneza e regressar à minha Villa sem te tocar e sem nada te dizer.

E deixo escrito este monólogo para que to profira o maior amor que tiveres na vida e se lembre, ao declamà-lo, do que terá de abdicar para ter simplesmente o teu respeito, que de nada vale na cotação dos sentimentos e das falhas humanas mais sofisticadas.
E que é mais relevante a minha imagem real no centro da plateia muitas horas depois do fim da ópera, fraco, pálido como tu mas de figura negra, sombria, alto e inclinando-me para ti, Violetta, a beijar-te as mãos e a pedir-te perdão pelo que não fiz nem farei, mas sem silêncio nenhum,
do que uma de milhões de noites de amor apaixonado em que o teu corpo ardente, como outros corpos ardentes, se dissolveria no meu, como se dissolveram tantos noutros que não eu.

Fica sabendo, anjo pálido, mulher intemporal, que me teria bastado um beijo teu, e que nesse beijo se condensaria, não o mais desesperado desejo que me trouxe até aqui, mas a tua beleza, que é o que o desejo, quando cumprido com urgência e egoísmo, confina em qualquer mulher e no homem que a cumpre.

E no final nem um beijo chegaria a ser preciso, bastaria a tua declaração não juramentada de que me desejaras tu e que, quando no cume da mais bela ária eu Alfredo te comovi ao ponto de fechares os olhos e seres feliz em meus braços pela eternidade, tu mulher te dissolverias para deixares apenas incólume a essência da beleza de todas as mulheres.

Que nunca se cumpra um silêncio.
Que sempre se cumpra um desejo.

(cumprir não é concretizar ou praticar; cumprir é dizer, aprofundar e conter)

PG-M 2014

* data de estreia de "La Traviata" ("mulher caída" em português) no La Fenice

2 comentários:

helena frontini disse...

Verdi (e Dumas) teriam gostado de ler esta "Traviata".

Pedro Guilherme-Moreira disse...

:)