2014-05-13

Ágape

por Caroline Nunes 
(sobre a palestra do grupo de portugueses no Brasil, Flipoços 2014)

"Era noite e estava frio. Ela gostava de frio, mas não gostava de tremer. Até pensou em ir embora, mas sabia que seria um crime passível de morte.
Devia ter trazido um casaco, foi a última coisa que pensou antes de começarem as apresentações, e eles começarem a entrar, um a um. Exalavam inteligência e genialidade de uma forma que não podia ser certa. Homens assim, geralmente, não encontramos vivos.
Eram quatro. O que estava sentado na terceira cadeira iniciou falando, falando muito bem. Praticamente um showman, divertindo a platéia e encaixando assuntos profundamente interessantes, um imã de atenção, uma presença agradável.
Em seguida falou o quarto. Os tremores cessaram. Sua voz, grave e certa, enchia os corações de todos que o ouviam, e todos o ouviam. Naquele momento, o teatro era o mundo, e era a voz de um deus que preenchia o espaço, um deus que lia uma beleza suprema, a própria catarse. Apesar do sotaque, a união que havia entre todos ali dentro criava um entendimento universal.
Veio o primeiro, e foi como se coroasse. Leu ele também sua beleza, que vinha num sentido diferente. Assunto diferente. Estilo diferente, não obstante, fabuloso. Finalidade, a mesma, resultado também: um profundo espanto e aconchegamento das almas alunas ali.
E o segundo fechou. Homem de sabedoria ímpar e encantador, apenas nos falou, mas, a essa altura, com a sintonia que ali havia, era o necessário para que nos elevasse a outro nível, sobre o qual não há convenções ou conhecimento, mas que existe.
E quando acabou, o frio havia ido embora definitivamente, suplantado pelo amor. Ágape.

(Joel Neto estava na primeira cadeira, o Roza Dias na segunda, Luís Miguel Rocha na terceira e Pedro Guilherme-Moreira na quarta.)"

Carol diria mais tarde a Tabacaria, quase de um fôlego, para nós. Abençoada, digo eu. Obrigado.

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