2014-04-14

Nogueira namora Annaick entre Vigo e Praga



O sol é como uma mulher que penteia languidamente os cabelos sobre Praga.
- Neste caso sobre Vigo. - observou Nogueira, polido, deixando incólume a mão delicada de Annaick, que se apoiava no seu braço enquanto subiam a Rua Uraíz.
- Sobre Praga, insisto, Fernando. Porque a formulação - o sol é como uma mulher que penteia os cabelos sobre Praga - não é minha, mas de um checo intrigante que dava por Bohumil Hrabal, e se a digo como ele a escreveu, posso dizê-la em qualquer lugar do mundo que os fios dos cabelos do sol iluminarão sempre Praga.
- Não foi o bom do Bohumil que ainda agora - para aí há uns quinze anos - morreu?
- Foi precisamente ele, morreu e morreu sem Espanha ou Portugal, que nenhuma alma - pelo menos nenhuma alma fora das universidades - fez caso de que existisse.
- O que é pena, porque aquela língua cálida, picante, pura, doce, que, como vê pela adjectivação, não se parece com nada.
- "Eu que servi o rei de inglaterra."
- "A terra onde o tempo parou."
- E veja - disse Nogueira apontando a sombra dividida em vésperas e blocos de sol no átrio de um hostal - como cai a tarde numa hospedaria checa.
Sorriram.
- Ainda temos de procurar o bosque de Karsk no Parque do Castro, Fernando, para que ele sossegue.
- Não me atreveria. Não é desfeita que se faça ao Bohumil. E muito menos aos vigueses.

Nogueira observou que há uma complexidade no viguês que transcende as fronteiras de Espanha e da própria Galiza.

Nogueira observou ainda que, pelo menos ao fim-de-semana, que era quando se deslocava de Lisboa a Vigo, e fazia-o periodicamente entre Abril e Outubro, os espanhóis, não necessariamente os vigueses, não necessariamente os galegos, picavam pinchos entre as rebaixas e os picos do sol. As horas das copas e dos pinchos coincidiam, mais ou menos, com as horas de almoçar e jantar de Nogueira, que antes delas e de Annaick, trilhava as ruas de Vigo sozinho, por causa da sesta dos mundos.
- Os mundos galego e castelão, que estão ambos implicados em toda a Galiza, não é, meu querido?
- E depois, dulce amiga?
- Depois - disse Annaick - nunca mais os galegos conseguem ser portugueses.
- E quem lhe disse que os galegos querem ser portugueses?
Permaneceram ambos em silêncio até entrarem na Crêperie bretã de Annaick.
- Quer o costume, Fernando, com chocolate belga?
- Negro, por obséquio. Com um café solo ao lado.
Annaick levantou um dos braços, desenhou no ar um círculo e uma empregada chamada Amparo, que de manhã fazia as estantes da Librouro, subvertendo-as, acenou afirmativamente.
Nogueira nunca beijara Annaick.
Nogueira nunca beijaria Annaick.
Annaick não era Marcenda. Annaick era uma mulher de negócios bem sucedida, tão bem sucedida que já se pensava que a biografia de Annaick Noblet, como selfmade-woman da Crêperie Bretonne, era pura invenção de franchisados e franchisantes.
Pura ou não, ficção ou não, Annaick, cuja fotografia vintage aparecia na face anterior das cartas de crepes, nunca seria beijada por Nogueira.
Para este português denso e estranho, o privilégio de a trazer pelo braço desde a rua Rosalia de Castro, onde lhe tinha arrendado um quarto com vista para o porto de mar, era o bastante. E Annaick, que falava de literatura de uma forma estranhamente qualificada, não sabia que o lado mais belo da literatura era a morte.
Disse-lho Amparo nessa noite,
sobre Bohumil.
- Afinal sabe de que morreu Bohumil? - perguntou Nogueira a Annaick, de modo que todos os circunstantes da Crêperie pudessem ouvir.
- Não faço ideia, meu querido.
Amparo, pousando à frente de Annaick uma clara com limão, esclareceu:
- Parece que caiu do quinto andar do Hospital de Praga.
- Mon dieu! - exclamou Annaick - Mas ele morava num quinto andar.
- E escreveu várias personagens que se suicidavam de um quinto andar.
Annaick apertou com força a mão de Nogueira.
- Ai a literatura. - disse.
Amparo, que já caminhava na direcção da copa com os restos da degustação,virou-se para trás:
- Mas há pior, minha senhora. Um pior que sabe melhor.
E, como ambos não fizessem menção de a interromper, contou que o escritor checo fora enterrado com a seguinte inscrição no caixão:
"Cervejaria Polná".
Annaick e Nogueira não precisaram de transformar a expectavida em interrogação, porque Amparo, que subvertia as estantes na Librouro, eslcareceu:
- Foi na cervejaria Polná que se conheceram a mãe e o padrasto de Bohumil.

Nogueira e Annaick asfastaram-se um do outro, aliviados, e Nogueira observou, por fim, que nem que fosse vivo pediria para o caixão a inscrição
"Crêperie Bretonne Annaick"

E depois riram-se pelas sestas do mundo até ficar frio e Nogueira ajustar um cachecol cor-de-café que um dia lhe voaria para o mar. E depois riram-se até Vigo anoitecer, ou, se a lua fosse uma mulher, arrumar numa touca branca os cabelos que penteara de dia.

PG-M 2014

1 comentário:

helena frontini disse...

Este texto fez-me viajar pelas leituras feitas durante o tempo da faculdade! Obrigada.