2014-04-25

François & Marine


Não é só o filme inesperadamente mais belo do ano.
É o mais bem filmado.
É talvez a direcção mais perfeita de uma actriz de que me lembro em muitos anos.
Marine Vatch, a actriz, não foi escolhida por acaso, isto é uma evidência.
Mas a forma como François Ozon, o realizador, a dirige, como encena, como escolhe as luzes, as sombras, o olhar, como aponta a câmara para o corpo de Marine, como espera por ela, como a vê desfilar, como a vê morder, como a vê pintar, como a vê fechar e abrir a boca, como a vê esperar, como espera por ela, como a deixa esperar por si.

O trailer é, como já começa a ser normal, limitado e limitativo. Empurra os espectadores menos habituados a ver cinema europeu à ideia de que o filme é alternativo, obsessivo e sexual, quando é pura beleza, sujeita-se a ser procurado por voyeurs, quando a verdade é que vemos evoluir uma muher com corpo de menina com corpo de mulher, uma menina, normal.
Sim, normal, inteligente, boa aluna, apesar de tudo com bom ambiente em casa, com uma relação sólida com o irmão mais novo, que a protege e defende. Vemos um verão das nossas vidas, mas breve e cru, afinal mais breve e cru do que o resto do filme, que supúnhamos breve e cru e afinal é quente, bonito, cheio. Simples, como, afinal, a arte maior.

E somos despidos por ele, por François Ozon, que, com meia-dúzia de golpes certeiros, nos descontrói. Questiona preconceitos e nos faz pensar que, afinal, o anormal é normal, e o normal será anormal.
Que o que está aprarentemente doente é fluido e saudável e que o que parece fluido e saudável pode estar doente.

O que é transparente é a câmara de François e os olhos de Marine.
Mas, sendo-o, podia não ser uma virtude, porque os lábios de Marine são opacos e no entanto parecem trespassar-nos como luz, e François faz avançar a língua dela para nós e até tem sabor.

E é tão bom que sabe a pouco, mas, a bem dizer, a câmara de François e a presença de Marine estão nos limites do arrebatamento. Poema total que não se cinge às tílias e às cavatinas de Rimbaud.
Não se aguentava mais do que isto.

Jovem e bela.

"Não se pode ser sério aos dezessete anos
Quando as tílias perfumam as margens da estrada
"
(e a cidade está perto) *
 
PG-M 2014
* do poema "Romance", Arthur Rimbaud, cuja leitura do poema pelos estudantes de literatura valeria, por si só, o filme

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