2014-04-08

apenas oito de abril de dois mil e catorze

 não sei, não sei, espera lá, há uma sede de concisão, não podes escrever o que te vem à cabeça, tens de usar frases curtas, adjectivos seleccionados, expressões claras, palavras escritas com precisão de ourives, escolhe a posição de cada uma na frase, escolhe a posição de cada frase na página, escolhe a ordem de cada página no livro

o resultado não é necessariamente frio, cerebral
é preciso teres a certeza de que queres mesmo escrever o que acabas de escrever, 
de que cerebral é frio,
pálido,
de que febril é quente,
sanguíneo,

agora escreve.

E eu escrevo, apesar do professor e das regras do professor:

Não sei bem. De um certo modo, o que quero dizer é impreciso. E do mesmo modo que é impreciso, é preciso. É impreciso depois de chegar aos outros. É preciso em mim, na ponta da minha língua, na base do meu pescoço, na ponta dos meus dedos, no centro das minhas duas mãos, que agora estão suadas.

O que quero dizer é que hoje parou a chuva e está sol, hoje parou o frio e está calor, e depois o frio voltou ocasionalmente na forma de sol póstumo, que é o significado do vento norte: sol no dia seguinte.

Houve alguns corpos na praia da parte da manhã, corpos com cheiro a creme mas não a roupa, pés na espuma residente. Houve essencialmente a intenção do verão.

 Creio que a intenção do verão dá mais felicidade do que a areia efectiva nos pés.

Um café tomado com ironia também.
Não lhe chamaria ironia pura. É no fundo o engano humano, passe-se a rima.
Um sorriso subtil com o céu totalmente azul à frente da cara, excepto algumas nuvens, poucas, que não constituem qualquer hesitação para o sujeito que prende a chávena entre o polegar e o indicador e, sem o mindinho no espaço - antes na almofada suada da mão a percurtir a linha da vida - sorri ao universo antes do primeiro gole.

Ele está com pressa, mas teve a consciência plena de que devia parar quinze minutos para celebrar o dia oito de abril de dois mil e catorze, independentemente do que passou e do que virá, ou seja, do dia sete e do dia nove

Semicerrou os olhos
(não uses semicerrar, está a ficar batido)

Dizia, semicerrou os olhos, tomou para si uma pausa, inspirou com média profundidade, o suficiente para o diafragma mover o corpo, fazendo o queixo subir e o olhar alongar-se mar dentro, o céu, lembre-se, estava aberto e azul para ele, encostou a chávena aos lábios, afastou-a uns centímetros, exarou aquele sorriso subtil que expressa uma vitória sobre os elementos, o tal
engano
humano

bebeu o café, pagou, levantou-se, estava a maresia a atravessá-lo, fez a melhor pose, olhou obliquamente o mar, e começou a descer na direcção do carro. Não tinham passado dez minutos. Alguns colegas de esplanada, pensou ele, como todos nós quando abandonamos os lugares públicos onde estivemos parados em comunhão com estranhos, levantaram a cabeça de espanto, o espanto pela sua inscrição no dia.

Ele seguiu dentro do carro, derivou para a cidade densa, esteve toda a tarde na sombra do escritório a manejar papéis brancos, mas nunca perdeu de vista a vitória sobre os elementos que lhe tinham alongado o inverno e a curva das costas.

Bastaram, portanto, onze minutos para se erguer.

Foi o primeiro estridente, saboroso, assumido,

engano
humano
do ano

PG-M 2014


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