2014-04-26

A poetisa que deu nome ao próprio chão

 Eis os livros da Adélia sobre a minha mesa.

A abrir a subtil e bonita edição portuguesa ( Cotovia) de "Bagagem", Carlos Drummond de Andrade diz assim da poetisa Adélila Prado:

 "Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis."

E agora vem a gargalhada no lombo do ignorante. Vejam o que pensei muito para mim, naquele espasmo de garoto: "queres ver que o Drummond caiu numa espécie de paralaxe, não viu bem a Adélia do seu ponto de observação, confundiu os ângulos, não será um bocado forçado dizer que é fogo de Deus numa qualquer cidade inventada onde o próprio Deus mora, e dar-lhe o nome evidente de Divinópolis?"

Vai então, já descrente e antes mesmo de começar, abro outro livro da Adélia Prado, "Oráculos de Maio", e uma  bofetada - e de luva - me sapateia a cara logo na dedicatória à Biblioteca Almeida Garrett, aqui no Porto, Portugal:

"Para a Biblioteca Almeida Garrett estes oráculos. Meus cumprimentos aos leitores, Adélia Prado, 24.03.2012, Divinópolis"

Mau. Divinópolis?
E mais tareia é dada pelo próprio livro "Bagagem", ainda na primeiríssima página, antes mesmo da obra em si, na abertura da sinfonia, que quase fazia lembrar o "Génio", do Harold Bloom, que logo na página primeira do prólogo me questiona a convicção de uma vida, a impossibilidade do próprio génio na literatura:

mas não é que Divinópolis existe mesmo e que a Adélia é de lá?

Como sempre, Drummond emendou o génio na simplicidade, e o burro (que sou eu) olhou para o dedo.

Portanto, antes mesmo de começar, a poetsia já tinha dado nome ao seu próprio chão:

"Adélia nasce humilde em 1935, em Divinópolis", onde conclui o magistério. Mais tarde, para "escovar o pensamento", como ela disse, entrou com o seu amor na Universidade do seu chão, essa Divinópolis, para estudar Filosofia.

E eu, se fosse a escrever, e soubesse, seriamente sobre Adélia, não poderia ter fim, e poderia cair numa paralaxe como (não) caiu Drummond. Dizer banalidades não vale. A gente corre os poemas dela e tanto sobe ao céu como desce ao inferno, tanto joga cartas no olimpo como lava a louça no divino. Por isso, pela regra circular, volta Drummond e vinca:

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo",

 e eu, para não a tratar como a Camus (em verso) dos trópicos, abro os oráculos pouco ao acaso e explico-vos como a Adélia, versejando cruamente nos despojos do aparente, nos exibe e dá à empatia os nosso próprios amores maiores nesta passagem de "Viação São Cristóvão" (página 97 de "Oráculos de Maio", Editora Siciliano, Brasil):

"Meu marido gosta muito de sexo,
 mas é também um esposo
capaz de abstinêcias prolongadas."

Há-de o passante dizer, que raio, isto não é como aqueles quadros pretensiosos que não têm nada e pretendem dizer tudo?

Não é, não, passante, isto é a essência do amor, mas não é tentando muito ver que chegas lá, é fechando os olhos e conhecendo a cidade pelos cheiros e pelos sons e pelo declínio dos dias, conhecendo-a, como escreve precisamente Camus n'"O estrangeiro", como um cego.

E Adélia, para me dar alguma razão, escreve o poema "Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade".

"Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas
 e estivava os cabelos para trás, a mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja do Carlos Drumond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias semelhanças. (...)" 
("Bagagem", Cotovia, p61)

Agora vou sentando no meu joelho a parte crua do sublime da Adélia e voar ao encontro dela, poetisa que deu nome ao próprio chão.

PG-M 2014

2 comentários:

helena frontini disse...

Meu Deus, oxalá o céu tenha uma vasta biblioteca. Como faço a ler tudo o que me propõem?! O Camus e o Drummond já cá cantam, há decénios, mas há tantos, tantos mais a ler...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Não é preciso ler tudo :). Eu obrigo-me, porque vou conhecê-la. Mas da Adélia pode espreitar alguns poemas ou uns livros na biblioteca :).