2014-03-03

Viagem por dois livros e por duas ruas (por Rosário Ferreira)

Professora Rosário Ferreira sobre "A manhã do mundo" e o "Livro sem ninguém", apresentando a sessão de 27-02-2014 à Escola Francisco de Holanda, em Gumarães:


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Nunca estive em NY mas já fui muitas vezes a NY, … não isto tem som de repetido e, para isso basta o “Sino da minha aldeia”.
Recomeçando: continuo sem nunca ter ido a NY a não ser nas viagens que lá fiz com os atores das minhas séries favoritas (pronto! Confesso que também já la fui com a Tyra Banks e o America’s Next Top Model – é verdade. AH! E com o masterchef Austrália na terceira edição!)) com a música de Sinatra e com o livro do Pedro Guilherme-Moreira (com hífen!). E esta semana regressei lá pela mão de PGM: e encontrei outro livro, outra história, outra magia. Não sei porquê, mas quando reli, logo nas páginas iniciais a descrição do The Falling Man, pareceu-me vislumbrar um vulto numa cabine telefónica que, apressadamente mudava de roupa para o apanhar na sua queda vertiginosa. Depois, quando Thea tentava escalar os corpos amontoados nas janelas, pensei que um gorila gigante apareceria no topo das torres gémeas para salvar a sua Ann Darrow…. E estes “loucos suicidas”, como tão facilmente Ayda lhes chamou, transformavam-se em seres frágeis a serem resgatados por heróis incompreendidos. (Saltei páginas, porque já conheço a história, sei que os bons não aparecem, não há finais felizes, e tenho medo que surja voando, qual “Mostrengo que está no fim do mar”, nesta imaginação traiçoeira, uma Alice em forma de Lex Luther ou que a Teresa se metamorfoseie em Jack Black).
Não resisti a reler o número dois: a ironia – ou não- do destino – ou da sorte – de um homem que não ousa contrariar a mulher, que se levanta quando o instinto – ou a preguiça, ou o sono – lhe segredavam que ficasse na cama – mas que ousa contrariar o destino - ou a preguiça, ou o sono – porque se demorou nuns olhos verdes. (Acho que foi aqui que me lembrei do Master Chef).
Foi então que reencontrei a minha personagem favorita – Millard, que, tal como eu prefere as alamedas às avenidas - e com ela regressei à casa de chá com papel de parede bordado com beija flores.
E Alice, a tímida – ou não – secretária que, não fosse o humor negro de Deus, não deveria estar ali, na torre norte do WTC, mas na sua pequena cidade natal.
Redescobri Solomon, não o rei mas o advogado, a alcançar a janela do seu escritório no 106º andar, que teimou em não fazer um check-up, em continuar a conduzir o seu Cadillac por Brooklin Bridge e completou o seu ciclo iniciático nesse dia em que fazia sete anos que se reformara. “Ao contrário de muitas das histórias do 11 de setembro (…) a [história] de Solomon era límpida e sem espaços para lamentos, descontando o sinal vermelho.”
Voltei a página, e lá estava Thea outra vez, aquela bela rapariga de “olhos verdes” (qual Joaninha de Garrett, também ela destinada à desgraça) que vai “partilhar com Millard os piores momentos desta fatídica manhã”, ambos se sentem sufocar – pelo fumo e pela vida – e ambos resistem a afundarem-se no desespero. Thea apercebe-se de que mesmo que as suas “conversas tenham sido mais pensamentos do que diálogos (…), apenas o símbolo da resistência, da vontade e até da coragem”, houve muito mais do que solilóquios entre esta repórter gastronómica e este conciérge obcecado por um beija-flor.
Depois, bem, depois, já o disse e redigo-o pois acho que não há outra maneira de o dizer, depois virei a página e já era “o dia que Ayda pensava ser 12 de setembro de 2001”. E das páginas do livro soltaram-se notas, compassos, pautas inteiras que teimavam em calar os gritos de dor e os espasmos de raiva: acordei com Lopes Graça; ouvi o coro dos escravos de Verdi, o Pedro e o Lobo de Prokoviev… e depois um interlúdio de Taikovsky quando Romeu e Julieta (entenda-se Darius e Teresa) celebram o seu amor, afinal tão tragicamente possível. Entretanto, soavam-me ao ouvido as palavras de Eugénio de Andrade: Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio.
A mão segura de Pedro ensinou-me que qualquer suicida vê “a morte desmaiada. O verdadeiro suicida conquista um destino que não lhe está naturalmente reservado”, e isso fez-me ver o suicídio como algo ainda mais cruel do que eu já o entendia.
E a morte estava ali: “no azul do céu, bela.” Sem “foices ou vestidos negros”, apenas “um horizonte que encurta”.
E foi aqui que precisei de voltar atrás no livro, regressar ao apartamento de Daruis e sentir, de novo, aquela força revitalizada por um sol que se espraia no apartamento da River Terrace e voltar a sentir a mão de Pedro Guilherme-Moreira a dar voz à força de Ourique, de Aljubarrota, do 1º de Dezembro, do 5 de Outubro ou do 25 de Abril, que resistiu ao opressor: na imagem de Darius que resiste ao cheque de 6 dígitos para vencer a batalha do filho; nos olhos de Teresa que resiste ao adultério em prol da amizade; na força de Ayda que resiste ao destino para salvar destinos.

E, urgentemente, precisei de conhecer um outro espaço, tão diferente e tão igual a Nova Iorque.
Já tinha ouvido falar do Sítio do Pica-Pau Amarelo, da Rua Sésamo e até mesmo do Parque da Mónica, mas juro que nunca ouvira tal coisa como a rua do arco celeste. Bem, parece que:
Na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata, um infantário e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas – que frequentam o café, trabalham na horta, lêem no jardim, compram flores para oferecer a quem amam, se desembaraçam dos seus podres ou jogam à bola no recreio –, (…) durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, consiga uma vida nova. Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos.
Antes mesmo de ler a obra, li esta sinopse e, quase de imediato – não sei se por andar às voltas com a Mensagem ou se é mesmo a minha paranoia pela simbologia – o número sete começou a elevar-se das entrelinhas: 7 casas, sete espaços comuns, sete atividades, sete acontecimentos (porque considerei o trauma como um acontecimento). E depois, apareceram cinco nomes que retratam esta rua do arco-íris.
Sete e cinco: círculo perfeito, sacrifício,… Isto promete!!!!
(esta parte foi escrita no dia 11 de fevereiro, quando ainda o livro não tinha sido publicado e já a minha curiosidade pulava freneticamente)
Dia 24 de fevereiro
Finalmente tenho comigo o livro. Abro- o, leio a dedicatória, oiço Caetano Veloso, atento no mapa (sempre gostei de mapas, fazem-me lembrar os livros da Enid Blyton), leio o prólogo. Novembro chegou.
Estou eu sossegada na minha leitura quando o narrador ma interrompe: “Um momento. Não era melhor apontar isto?(…) só assim, tomando notas, se poderá ter cá alguém, que o livro é de ninguém”. E subitamente, nos papeis que estão no meu pensamento, a rua do arco celeste transformou-se na rua vila flor. E o livro sem ninguém povoou-se das pessoas da minha infância que habitavam a rua da minha infância.
A rua chamava-se assim por causa de um palácio pertença da família Jordão que, à época, ainda não sabia que viria a ser centro cultural.
Na rua vila flor também havia um café: o Danúbio (quer dizer, não era bem lá, era em frente, a morada oficial era Av. D. Afonso Henriques, mas nós tínhamo-lo tomada de assalto e agora era nosso). Era lá que a muidagem e a “graúdagem” se juntavam para ver televisão, no tempo em que esta era muito mais rara do que um ipad, um iphone 5 ou até mesmo uma 4L cor-de-rosa.
Na rua vila flor não havia um jardim. Mas havia-o no palácio Vila flor, que comunicava com a rua por ruelas secretas que foram, nos tempos quentes de 75, a saída salvadora daqueles que por lá haviam brincado e que naquele dia tinham sido feitos prisioneiros num comício por terem cometido o crime de participarem num comício que não era das forças democráticas.
Na rua vila flor as casas não tinham as cores do arco-íris, mas as nossas brincadeiras, as nossas corridas de carrinhos de rolamentos, os nossos “esconde-esconde”, as nossas peças de teatro no sótão dos meus pais, davam-nos mais felicidade que um pote de ouro.
Na rua vila flor as casas era quase todas brancas, mas a mistura de gentes, de culturas, de partilha de bens e de sorrisos, fazia-nos mais diversos do que as cores do arco-íris.
Na rua vila flor não havia escola. Mas havia uma tipografia – a tipografia Maia – onde eu aprendi a mexer em letras, a formas palavras sem o saber, muito antes da D. Inês mo ter ensinado.
Na rua vila flor não havia uma horta, mas havia o quintal da D. Primavera, com laranjeiras perfumadas que nós teimávamos em transformar em alvos preferenciais das nossas fisgas, mesmo que, depois a boa senhora no-las oferecesse quando nos chamava da sua janela.
Na rua vila flor também havia quem amasse (e quem odiasse), quem se desembaraçasse dos seus podres e quem não conseguisse fazê-lo, quem jogasse à bola, não no recreio mas ao fundo, junto ao rio de Couros. Mas não. Chega! vou voltar ao livro que as memórias são infindas e o tempo está a esgotar-se
E depois disto, voltei ao livro. Ainda não o acabei. Vou em janeiro. Prometo que em outubro darei notícias.

AH! Espero que já tenha aprendido a fazer contas de dividir!
É que, para quem não esteve cá no ano passado, este senhor aqui sentado ao meu lado, teve um problema a resolver com as frações. Este senhor, que advoga, escreve e estaciona carros nos poveiros, também foi em tempos, uma criança dada mais às letras do que aos números. Vai daí, quando finalmente a professora D. Laura conseguiu ensiná-lo a dividir, o Pedrinho presenteou-a com uma bela redação! Foi o princípio de uma perfeita relação, nem sempre calma como convém em qualquer relação, com os papéis: hoje conta já com um palmarés digno de atenção, a saber:
Aos 11, entre rapazes de 16 e 17, empatou o primeiro lugar dos jogos florais da escola com um rapaz de 12, hoje um conhecido político. Aos 13, perdeu para o mesmo menino, mas levou o 2.º e o 3.º prémios. Aos 16, ganhou (finalmente sozinho), porque o menino político entrou na Universidade. No ano seguinte entrou ele, na de Coimbra, e andou com Torga no trólei 3, mas nunca se falaram. Profissionalmente, foi dos primeiros advogados a ganhar o Prémio Lopes Cardoso, com um artigo publicado, primeiro, na prestigiada Revista da Ordem dos Advogados e, depois, em livro. Decidiu publicar apenas aos 40, porque queria saber, e escrever, mais. Em 2012 foi agraciado com o prémio de poesia do Museu Nacional da Imprensa. A Manhã do Mundo aparece a meio do seu «dia», sendo o seu primeiro romance.
(isto fui copiar à net. Vantagens das novas tecnologias!
Pedro Guilherme Moreira podia não saber fazer contas de dividir, mas soube multiplicar o seu dom de contar a História com sabor a história, de somar os factos da História à brisa da ficção, de subtrair os olhares uniformes deste facto, fracionando-os em vários avos de diferentes olhares.

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