2014-03-04

A última noite de óscares


Está bem, está bem, Academia. Não é preciso esfregar-nos na cara com requintes de malvadez. Eu, pelo menos, já percebi. A noite de 2013 já tinha sido, televisivamente, a pior de sempre - sendo que o meu "sempre" começa em 1985, quando as comecei a ver todas em directo, para só parar em 2015, quando "celebraria" 30 anos, e é razoável presumir que as anteriores a 1985 não terão batido em sofisticação e glamour as posteriores -, mas a de 2014 bateu todas os recordes de gosto duvidoso, quer no cenário, quer no alinhamento de bocejo, quer nas escolhas, com a honrosa excepção da inevitável consagração de "Gravity", aliás merecida, à face da fraca concorrência. Um dos pontos bons, óptimos, da noite foi Ejiofor ter perdido (como podem instir nesta consagração de actores medianos - já não basta a menina Jennifer Lawrence?) e "12 anos escravo" ter ridicularizado a própria Academia com o óscar de melhor filme, quando a Academia lhe negara tudo ou quase tudo (Lupita é um caso à parte, não se venha o filme gabar disso:) durante a noite.
E depois Frozen, e o lobby Disney, ao arrebatarem o óscar da melhor música com a pior música (não é possível!) e a melhor longa metragem de animação ("The Wind Rises", obra-prima absoluta e supostamente a última de Myazaki, não podia ter perdido para..."Frozen", porque vê assim boicotadas todas as hipóteses de estrear nas salas de cinema portuguesas). De resto, Ellen, nem superior nem inferior ao que faz no seu programa, colocou as coisas in situ quando nos mostrou que os óscares já não são bem sobre televisão, mas sobre tudo o resto, ao bater o record de tuitadas com uma boa ideia: a selfie da década. E é isto. Os óscares estão a apoucar-se a si próprios, a desprezar o directo peçonhento que hoje são, e o conteúdo que veiculam na célebre madrugada é tão escasso que o compacto do dia seguinte dura cada vez menos. Foi ainda doloroso ver Kim Novak congelada em todos os cantos menos na boquita. Bom, bom, foi ter sido um dos convidados "especiais" (boa, Ana Margarida) do Final Cut, o abnegado site de cinema da Visão e do JL, onde o Fernando Alvim passou a noite a dormir e a rematar todas as cenas com "estou a chorar" e o próprio intervalo da TVI ganhou autonomia e adeptos, nomeadamente repetindo até à exaustão imagens da, para mim, vencedora da noite, a Margot Robbie, que nem candidata era (mas já ganhou, e todos ganhamos com ela). A Cate Blanchett pode ser fria, cirúrgica, mas é finalmente o óscar de melhor actriz. O Matthew McConaughey tem a melhor música torácica do ano, mas noutro filme. Sempre foi um actor competente: está quase bem entregue. O Bruce Dern é que era. A própria passadeira vermelha tem estado aborrecida e formatada para as promoções e para os comentários sobre vestidos em todas as televisões do mundo. E até me podem dizer que isto era previsível, e era, e que óscares não são cinema, e não são, mas, pelo menos durante estes vinte e nove anos de directos, a Academia sempre soube disfarçar. A melhor destas vinte e nove noites nem aconteceu há tanto tempo assim, foi uma há quatro ou cinco anos, estilo retro, belíssima. Com as duas últimas, a terrível decisão ficou tomada: a partir de 2015 deixarei de ver em directo. Deito-me cedo, levanto-me pelas quatro e uso o milagroso timewarp para poder saltar toda a mediocridade. Os tempos mudaram. Esta foi a minha última noite má de óscares. Agora, como a própria Academia sugere, farei os meus próprios conteúdos.

PG-M 2014

3 comentários:

Belinha Fernandes disse...

Bem vindo ao clube!Já não sei quando é que vi isso em directo pela última vez. Não há pachorra. Tem vindo sempre a piorar. O que foi aquilo das pizzas?!! Só vi as fotos no FB! Mas não achei os filmes maus como os pinta.Também adorei o Nebraska! O Mathew entrou nuns filmes fraquinhos, onde não lhe era exigido muito mais do que tirar a camisa...Mas Paper boy, Mud, Lincoln lawer e até o Magic Mike, começaram a revelar um outro actor. Esta parelha no Dallas Club, ele e o Jared, foi das coisas que mais gostei de ver nesta fornada de cinema dos Oscars.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Eu não disse que eram maus :). Apenas que o Gravity é muito melhor :). Beijo!

pinoquia disse...

Pois, Pedro,em direto, não sei como aguenta. A caixa mágica agora dá-nos a hipótese de ver para trás e passar o que não interessa, mas que digo eu?
Fique bem e produza escrita.