2014-01-02

Um

 Não estou a dizer que esteja mal.
 
Não está mal ligar o facebook e ver a representação plástica das passagens de ano de amigos, conhecidos e desconhecidos-amigos.
Porque não passamos disso: artistas plásticos da nossa própria vida.
Não é pelos "selfies" no ângulo certo.
Há "altries" mais redutores do que alguns "selfies" - tem até um certo encanto olharmo-nos uns aos outros de tão perto. Mesmo os que, entre nós, passaram o ano desligados, chegar a casa e ver passar galerias pessoais é uma ocupação melhor do que ver um filme vazio. Ou mesmo cheio. Há mais noites para se ser passivo em frente à televisão, o que também pode ser uma bênção. A hora estúpida, a derrama do cérebro (não disse derrame, não). É mais reconfortante ver as pessoas passar, umas exaltando-se, outras apoucando-se, umas exaltando-nos, outras apoucando-nos, umas tão vazias como a televisão, fotografando-se toda a noite, noite que passam a olhar para estes ecrãs ou mais pequenos, enquanto se fingem felizes ao som da própria playlist.

 
Normalmente também empatizaria com algumas dessas pessoas e a sua solidão barulhenta. Empatizo com quase todas, aliás, excepto algumas, poucas, cujos ecrãs apontam sempre para si próprias.


Não fazem o velho exercício do funeral: não adies o encontro com uma pessoa ao funeral da qual sabes que irás - aquele dia atarefado, as horas que não esticam, o café sempre adiado. Há grandes "amigos" que nos estão sempre a adiar, e talvez essa seja uma boa resolução de 2014, uma resolução de efeito nulo: deixar de ter a iniciativa de ir ao encontro dos que nos adiam. É de efeito nulo porque eles também não viriam, nunca vêm.
 
A segunda e última resolução de qualidade é não perder tempo com filhos da puta. Essa só pode ser executada por quem tenha dobrado o equador da vida ou esteja em posição de implementar essa navegação: há muitos cujas vidas continuarão a ser pautadas por filhos da puta todos os santos dias, todo o santo dia. Há, note-se, uma filhadaputice transgénero, ou seja, que coexiste em gente que é metade boa, amistosa, dedicada, e a outra metade vendida, fraca, cobarde. A esses silenciosos comparsas caberá, também, o prazer de não mais terem de se preocupar connosco. E até pode ser gizada a primeira resolução para 2015: perder algum tempo com gente de fibra que se afastou por equívoco. Animem-se: são tão poucos que o sucesso é garantido.

 
Mas também é hora de fazer o balanço de quinze anos de presença online dos que, como nós, os quarentões, viveram dois terços da sua vida desligados de redes universais. Não me parece relevante convocar a saudade de passagens de ano em que ninguém estava a olhar pelas pequenas janelas dos seus telemóveis e computadores para outros lados, e em que, ou se assumia o tédio, ou se voltava para o parceiro de mesa e se conversava, ou se ajudava com os tachos e com a louça. Não. O mundo mudou, agora temos mesmo de conviver com pessoas que têm uma sempiterna extensão do seu próprio egomundo. Não é uma extensão da sua vida, mas do mundo que construíram para si e neste século, cada vez mais, cada um constrói um mundo seu, com pessoas suas, à margem do quotidiano e da família. Não que esteja mal em si. O mal ou o bem, o mau ou bom, vai sempre da medida.

O que me parece relevante é o que eu retiro de quinze anos de presença online.
A sexualidade tornou-se mais fácil e a hipocrisia mais difícil.
Há uma realidade a que chamaram parcialmente de sexo virtual, e que não passa de masturbação regular, e cujo peso específico e relevância para o mundo ainda está por medir. Não falo das relações amorosas ou sexuais consistentes que se desenvolvem com o apoio do online, são reiteradas e muitas vezes extravasam os algoritmos.
Falo de um acesso consciente à sensualidade ou até, apenas, a uma empatia intensa, a meros jogos de palavras ou de posturas, muitas vezes uma mera conversa que segue caminhos só possíveis quando ambos os inerlocutores estão velados, e que não envolve relações: todos falam com todos a todas as horas do dia, e falam de coisas de que muitas vezes nunca falariam, com as mesmas pessoas, na rua ou no café.

Para quem acompanhou o nascimento desta nova forma de comunicação, se assombrou, experimentou, estranhou, sem nunca castrar ou se castrar e estando apenas atento e pronto a acolher o que lhe era trazido, as conclusões são, não perturbantes, mas relevantes e contundentes.

O acesso à hipocrisia, à perfídia, à mediocridade, é muito mais rápido, mas também o é o acesso à excelência, até porque a excelência, seja científica, seja apenas cultural, raramente é comunicada em encontros coloquiais ou à mesa de um café.

É verdade que o preço a pagar é alto. Mas, no fim de uma noite em que começa um novo ano, apetece-me saudar os novos amigos que me apareceram por esta via.
Não são muitos, é verdade, mas cada um é mais sólido do que qualquer um dos anteriores, os tais apenas da vida real, e que muitas vezes foram perdidos, e depois achados e novamente perdidos, também por esta via.
E também saúdo essa nova amplitude da sexualidade, parece que as pessoas ficaram maiores e, por incoerente e irónico que pareça, se "tocam" e "deixam tocar" com mais facilidade. Essa amplitude é decisiva na comunicação humana, ainda que também se pague com equívocos. Nenhum equívoco, porém, pode fazer esmorecer os homens e as mulheres de boa vontade. E é com eles que celebrarei este 2014.

É preciso mover, comover, esses corpos estão prontos.


PG-M 2014

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