2014-01-07

Talão de estacionamento

 
Isto é só um papel no meu bolso?
Aqui pode vir-se tratar de papelada, apenas. E vem. Mas quando olhei para este papel vi o que muitos vocês verão. Muitas vidas. As próprias, as dos outros. Muitas memórias de perda, de vitória, principalmente de medo. Quando olhei para o papel na minha mão, percebi que, subitamente, todos os que não estavam ali chamavam. Há um espaço que é preciso dar a quem tem o que dizer, e não sabe, não pode, não se atreveria a juntar um talão de estacionamento em público. Esta imagem convoca memórias, vidas, mortes. Uns sentem-se confortados e solidários, outros agredidos, devassados. Há preocupação legítima, às vezes até inveja do sofrimento, mas este papel, não sendo nada comigo, pode ser, está no meu bolso. E se chegou aqui é porque é um sintoma dos nossos tempos, em que a cura nos traz mais longe na vida e nos sujeita à lotaria do corpo. Sempre foi assim. Mas agora todos passamos por isto. E esta multidão em volta não me assusta, conforta-me. Aqui não há posts irrelevantes. Aqui está o essencial. E mais histórias de corpos que ganham. E a memória doce, intensa, total, dos que perdem. Se eu nada tivesse escrito, este papel era ainda mais duro. Cotinha mais vozes. Como o silêncio na arte. Assim somos nós, todos nós, fortes. Não um talão de estacionamento. E não, não passou. É preciso saber que volta sempre. A morte ao lado, a vida hora a hora a hora a hora. Com umas gargalhadas de permeio.

PG-M 2014

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