2014-01-04

Olinda

Por causa do que aconteceu à Dona Olinda no dia seis de dezembro, eu já não consigo estar aqui sentado com as costas vazias.
Eu não sabia.
Concluí a revisão do "Livro sem ninguém" na antevéspera de natal, muito depois desse dia, sem saber.
Os ritmos mudam com as férias de natal dos miúdos, os treinos passam para outro horário, e ainda são os treinos do rapaz que permitem as melhores retiradas de escrita junto ao mar, faça chuva, faça sol, seja bonança ou temporal.
A bem dizer, e como faço com todos os bares de praia onde escrevo, estou a deixar o Bar Azul. Honro-os, agradeço-lhes e deixo-os. Acontece sempre naturalmente.

Foi assim com o primeiro, o bar-sol, aos catorze anos. Aí ia estudar e escrever projectos de poemas. Pedia um pingo clarinho - não consigo perceber como gostava disto - e uma queijada de Francelos. São as melhores queijadas que o mundo civilizado pode ter. O bar-sol era um bar de praia com uma arquitectura curiosa, linhas curvas, todo envidraçado. Eu ficava na esplanada, coisa que não faço hoje em dia. Depois demoliram o bar-sol e ficou só a areia e um muro baixinho que sempre lá esteve.

Foi assim com o Titanic, construído sobre as dunas e contemporâneo do bar-sol. Este ainda existe, mas vai mudando de nome. Como fica ao nível da rua, recebe as ondas dentro no inverno.

Foi assim com o Mandarim, em Coimbra, onde escrevi centenas de cartas à que é hoje minha mulher. O Mandarim foi vendido. Perdeu a coxinha de frango e ganhou o McCheese.

Foi assim com o Aviz, no Porto, a quem eu prometi uma placa de mármore a assinalar os anos de estudo e escrita e tertúlia naquela mesa do canto. Não vou cumprir essa promessa. A baixa do Porto renasceu, eu deixei de lá escrever mal terminei o estágio de advocacia.

Foi assim com o Paredão, onde foi escrito todo o livro "A Manhã do Mundo", lá está, durante os treinos de voleibol do miúdo no Atlântico da Madalena. E o Paredão consta dos agradecimentos do livro e foi tema de debate com a tradutora para macedónio, porque não há paredões na Macedónia, que é um país interior, e por isso não inventaram uma palavra para eles.

Foi assim com o Di Mare, onde foi escrito o "Romance proibido a menores de 30", que está - e provavelmete ficará, até eu me entender com ele - inédito.

É assim com o Atlântico e o Bar Azul, onde escrevi o que vai sair em Março, e que vou gradualmente deixando.

Durante o Verão, vou menos aos cafés de praia, que são invadidos pelos banhistas. Estive sem aparecer uns dois meses no Bar Azul e, quando voltei, a Dona Olinda, que nunca tinha falado comigo, saudou-me.

Eu pedi desculpa pela falta e lembrei, para a sossegar, que era mais cliente de inverno.

Ela ficou registou essa ideia, às vezes é bom darmos o nome às coisas perante os nosso avós, o mundo tem de ser mais simples e regrado na parte alta da vida, e sempre que lá voltei ela dizia aos demais, e eu às vezes ouvia, "este é o nosso cliente de inverno". "É muito bom cliente."

Depois eu arranco com a música e já só ouço palavras escritas.

Passei amiúde por mal educado, porque o filho, apesar do vozeirão, não conseguia penetrar na música e nas palavras. Mais tarde chegámos à fala e ele explicou-me que muitas vezes me cumprimentava e eu parecia ignorá-lo. Mas foi graças a essa conversa que soube que a Dona Olinda liderara uma família de trabalho nas concessões de praias, e que aquele Bar Azul era consequência dessa vida de dedicação às velhas barracas listadas. Que se  vão extinguindo.

Ultimanente a Dona Olinda passava os dias na mesa do fundo do Bar Azul, e daí dava as ordens e geria as contas e os negócios.

Tinha sido avisada do coração fraco, mas, com a idade que tinha, preferiu o risco de vida a camas de hospitais e desapossamento.

Eu deixei de ir ao Bar Azul em Novembro, quando entreguei a penúltima revisão do livro à editora. E em Dezembro o coração da Dona Olinda apagou-se sem eu saber. O filho disse-me que aquele mar cavado ficou igual, que choveu quando tinha de chover, que fez sol quando tinha de fazer sol - mas talvez se devesse registar que, em honra da Dona Olinda, este foi o outono que teve dentro o verão de são martinho mais longo de que há memória. Não sei se fazia sol no dia em que ela morreu, mas o fim da vida dela foi cheio de sol, visto em jogos de luzes sobre a espuma das ondas daquela mesa reguardada ao fundo do Bar Azul.

Por causa do que aconteceu à Dona Olinda, eu tenho as costas vazias.
Ela morreu no dia seis de dezembro de dois mil e treze. Eu não sabia. E mesmo sem saber deixei-lhe o agradecimento no fim do livro, como se ela estivesse viva. Agora, que remédio, estará mesmo. Viva. Apesar da mesa vazia, como as costas, ou ocupada por outros, como a vida, com papéis estranhos, diferentes, eu agradeço-lhe, dona Olinda, todos os cafés.

E estou de saída, mas só por acaso.
Sei que o filho não lerá este post até eu lho imprimir e entregar dobrado dentro de um exemplar do "Livro sem ninguém", que será impresso mais de mil vezes com o nome e a memória da mãe, que é o nome de um muncípio brasileiro do estado de Pernambuco, mas isso fica completamente fora de tópico.

Aposto que ela sabia.

PG-M 2014

2 comentários:

helena frontini disse...

Este texto tocou-me por muitos motivos que não vêm ao caso. Aposto que a D. Olinda já leu o livro e está-se a rir de nós que temos de esperar mais um tempo. Venha ele.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

aposto que sim, também :). Obrigado pela expectativa,Helena.