2014-01-19

levanta o teu dedo médio


amanhã, quando voltares
ao firmamento do mundo
com frio e os pés
molhados
tristeza e os olhos
secos

levanta o teu dedo médio

primeiro franze o sobrolho
enche na linha dos lábios
o sol a imitar a alma
a chuva a mimar o choro
e o sorriso a chover

levanta o teu dedo médio

depois vai subir o riso
como um refluxo da terra
e a multidão inquieta
da tua cara insolvente

levanta o teu dedo médio

tem fome, certamente,
e mais do que de comida
tem saudades da leitura
da música e do teatro
do sobretudo do homem
com as crianças por baixo
e todas as gargalhadas
na infinita planura
a casa com nada em volta
os passeios sem destino
e o calor no salão

levanta o teu dedo médio

vai melhorar,
um deus para abrir janelas
depois de portas fechadas
o amparo do patrão
em vez dos olhos na rua
uma casa mais pequena
pelas sombras da cidade
o homem com um certo frio
mas os meninos cingindo
o vosso corpo
e o mesmo abraço só
sem vista

levanta o teu dedo médio

se és de terra e se o corpo
é duro como os penhascos
lê pedaços de poemas
ao ouvido do marido
canta baixinho aos meninos
em redondilhas menores
dramatiza o teu monólogo
nas noites de aniversário
outorga a luz
em cada quarto
enche-te a copa de fumos
e do cheiro dos assados
compra a garrafa de vinho
e em vez de a sangrar
bebe

levanta o teu dedo médio

amanhã, quando voltares
ao firmamento do mundo
leva os pés quentes
e secos
os olhos claros
e leves
e enche os lábios
de sol

o choro a mimar a chuva
e a subida do riso
como um refluxo da terra
e as líquidas multidões
a transvasar

e a inundar
e a levantar

todos os dedos médios

(há um silêncio rotundo
há um murmúrio no mundo)

PG-M 2014
fonte da foto

3 comentários:

Virginia disse...

Impressionante, Pedro.

Obrigada!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

De nada, Virgínia. Obrigado eu.

JUANITA disse...

Muito bom!!!