2014-01-25

esta febre portuguesa



escrevo sem abrigo 
há dez mil anos 
escrevo apesar do pai 
escrevo apesar da mãe  
incluo o vento e a mulher 
o mar e o filho 
o céu e o inferno, 
mas casa não  

vou dentro de um torso 
alheio 
fora de mim 
os anos no chão 
os olhos no ventre  
a mão no sexo 
a língua na ponta 
de todas as línguas   

saliva a correr 
que é seiva queimada
nas bocas 
a urgência da frase 
e este longo  

longo silêncio  
este triste  
triste verbo 
esta doce 
doce vulva 

esta febre portuguesa
  
esta certeza 
este dilema 
do linho descendo nas coxas 

de um poema 


PG-M 2014

1 comentário:

JUANITA disse...

Lindo .. como sempre!