2014-01-02

Dois



Sobre os balanços:
Já me viram bem a andar? Tenho quase dois metros e cento e vinte quilos - tinha cem quando era atleta, no voleibol (que eu amo irracionalmente) diziam-me que tinha perfil de jogador de râguebi, eu retorquia que os jogadores de râguebi também voavam, e foi assim que danifiquei pisos de pavilhões, excepto o de Oliveira do Douro, que era de cimento. Mas já me viram bem a andar? Eu já balanço tanto, que na altura de fazer balanços tento é ficar quieto. E a minha quietude diz-me que o ano que passou me trouxe, acima de tudo, o teatro. O teatro da fome e o teatro da escrita. Acabei o ano com duas pessoas brilhantes como íris, e tenho na retina dezenas de sorrisos bonitos em corpos pardos que defendi enquanto advogado. Quase todos os pobres têm televisão por cabo. Alguns têm sport tv e carro. Muitos deles têm cozinhas onde não pousa uma mosca, porque serve para receber as pessoas, e a comida faz-se num pátio ou numa marquise. Estes habituaram-se a viver com pouco e estavam já musculados quando a crise chegou. Já os que tinham mais e perderam quase tudo andam aflitos e sem treino de pobreza. A miséria, essa, já lá estava e ainda aqui está. As festas foram boas para anestesiar, mas, verdade seja dita: os pobres musculados não foram ensinados a sorrir, e é tão difícil evadirmo-nos com eles, mesmo com sport tv, que eu gosto de levantar a névoa dos que perderam quase tudo menos o sorriso e algumas gargalhadas. Mesmo que seja difícil tirá-los da toca, porque o primeiro sinal da pobreza envergonhada é o desaparecimento do mundo. E, como eu balanço tanto a andar, a energia dispendida não me deixa espaço para queixas. Por isso esta história da vergonha e dos sorrisos não foi um balanço. Sou só eu quietinho. Quando nos cansamos tanto a viver, é fundamental parar muitas vezes, e a cada paragem uma gargalhada, e como o riso engana o mundo, o mundo acaba - instintivamente - a rir de volta. Há menos fome com menos balanços e mais gargalhadas. Como o palhaço que tinha uma placa pendurada ao pescoço que dizia "pf não me chamem primeiro-ministro". Ou o Calvin a dizer para o Hobbes: "A partir de hoje tenho um novo lema: "Que se foda!"; e pergunta o Hobbes: "E não é um lema um bocado forte?; e responde o Calvin: "Que se foda!"

PG-M 2014
(a foto é nos Carvalhos, em 1986, e eu a voar como um jogador de râguebi:)

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