2014-01-15

as revoluções começam sempre nas ruas sem saída?



O que escreve não sabe o que reportar, nem tem de reportar nada, ou tem? O silêncio, quando é uma opção consciente, pode comunicar mais do que o ruído nas frases. O silêncio é normalmente o objectivo último dos escritores sem vaidade. A maioria dos escritores escreve mais longe da página, a andar na rua, a sonhar, do que sentado na função. E muitos, quando se calam, falam mais do que quando respondiam. E reportar o quê? Os vencedores ou os vencidos? Nenhum deles? Apenas os ordinários? Ou os extraordinários? Ou, melhor ainda, a derrota dentro das vitórias, as vitórias de cada derrota, o ordinário de cada extraordinário e o nosso extraordinário - nosso, dos ordinários -? O que move o mundo? As marés? As abelhas? O desejo sexual? A maldade? O poder? Há algo de confuso a sair destes dias desproporcionados e wharolianos, que só existem porque todos, sem excepção, querem a oportunidade de se comover - e isso está bem: esta indignação por se destacar a bondade e a humildade de quem vai. Provavelmente é uma justa indignação, até porque quem se indigna com inteligência raramente é capaz apenas disso: de ser bom. Se até Jeshua teve de ser frio e duro para virar o mundo e Alexandria cair. Então faça-se o seguinte: pintar uma rua com as sete cores, cinco mais duas que Newton somou ao espectro, e deixá-la vazia, sem ninguém. E calarmo-nos todos. A ver se pelas coisas, apenas pelas coisas, a rua se ergue outra vez e frutifica de gente. Se pelos símbolos e pelas plantas e pelos astros e pelas gradações de luz o homem volta a uma rua de onde foi despejado. E se volta bom, mau, ou tudo. Ainda toca "O sonho de amor", de Liszt. As Nogueiras polinizam-se. E o silêncio circular.

PG-M 2014 

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