2014-01-16

alerta à vaga maior


Do ponto de vista cósmico, não somos nada para ti.
Pelo menos não somos mais do que uma trave de madeira que se desprendeu dos passadiços de praia. Que antes se desprendera de uma linha de comboio.
Somos menos do que ela, menos do que o melhor de nós.

Não somos os únicos que te respeitamos, mas somos os únicos que te pensamos, os únicos que te completamos com velas e cascos.
Os únicos que, apesar de tudo, te olhamos de frente.

Batalhamos dentro de ti, vivemos na tua espuma, temos a literatura a cortar-te as vagas, baleias gigantes, espadartes, poetas com poemas que fundam países.
Ouvimos o teu protesto subir nas noites de tempestade.

E os que entre nós fazem de ti vida ficam duros, de peles curtidas

(mulheres sofridas)

E os que entre nós se habitam de ti, seja inverno ou verão, não toleram alertas amarelos e afastamentos. Ficam e esperam, temem os que se riem na tua cara quando já nem cara tens, quando te misturas com terra e vento e espuma e  sobes vigorosamente à cidade.

Apesar da morte nas tuas faldas parecer estúpida, e a morte dentro de ti heróica, só um pai de pescador pode estar preparado para perder um filho para as ondas - mesmo que nenhuma perda seja consentida, esperada, tolerada. Ninguém pensa na vaga que nos pode levar. Mesmo aqui, contigo aos pés, a escrever, como é sempre meu pecado, seja inverno seja verão.

Já as frases que vieram por estes dias são salvamentos.

Quando Hércules engoliu a Foz do Douro, "estás bem?", "pensei logo em ti". A gente fica grata por, na cabeça dos amigos, ser das pedras da Sé e do mar da Foz. Por todos os dias em que se passa, e quase sempre se fica, em mesas a metros do mar do senhor da pedra, mesas que têm esperado outras horas para flutuar com as ondas. Para que se possa voltar e fingir que o mar se contém.

Não nós.

E tantos foram os anos em que te dei corridas junto às ondas - e só por uma vez me trocaste as voltas e me encostaste às dunas e me terias levado se eu não tivesse recusado. Deve ter sido por isso. Lembro-me de que me ri com a emoção e o medo. Ao longo dos anos tenho visto muitos a rir com emoção e com nervos, alguns deles a morrer. Contamos já trinta e sete anos de uma aliança estranha entre miúdo-e-homem-de-praia. Primeiro miúdo dentro de ti, a conhecer-te os baixios, o mapa das rochas e as correntes, agora homem que te teme por não te dispensar.

Não nos tires mais miúdos, não os tires dos pais deles, pescadores ou não pescadores, nem me engulas os promontórios e as dunas de onde te estudo.

Tens razão: de onde me estudo.

E hoje, entre todos os alertas, e já que é teu o ano de vires comprido, plano, forte, entra com medida por nós adentro.

Se puderes, leva só as traves de madeira.

PG-M 2014

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