2013-11-26

A noite imperfeita

 
 Imaginei um começo de parágrafo banal, um que todos nós queremos usar de vez em quando com alguém que nos falha: não preciso de ti para nada, não precisas de mim para nada.
Na verdade, se não somos centrados em nós, o nosso movimento natural é dar e estar para dar, estar para ser usado por quem precisa, e quem precisa não tem necessariamente de ser boa pessoa. Ou tem? Não tem. A dádiva, a amizade, até o próprio amor, mais ainda, a abnegação profissional a troco de nada, não têm de ser paritárias. A bondade não é paritária. E o crescimento do corpo ensina-nos a viver sem ilusões, para não encolhermos a cada desilusão. Acontece que essa natureza de dar, estar e ouvir tem momentos de restauro.

Reboot.

Não sei se é da alma, se do corpo, se de ambos, mas sentimo-nos mirrar, encolher, de tal forma que nem para um abraço de conforto estamos disponíveis, porque houve uma desilusão que nos venceu e precisamos de uma noite, pelo menos uma noite, para no outro dia voltarmos a ser irrelevantes e acolher os pobres, os infelizes e os egocêntricos, principalmente estes, que acumulam com os outros.
É fundamental que o façamos sem queixume, ou o mundo tomba de lado.
Hoje é dia da noite imperfeita, a única do mês em que consentimos desaparecer. Sem a distensão do abraço, com a intenção do regresso.

 
PG-M 2013

Segunda-feira

 À segunda-feira voltamos a ser ilhas, e isto nem sempre é mau.
A separação dos corpos fere, ao centro do peito volta o bloco de chumbo, o peso da semana nova, que o olhar desalija conforme os dias passam, até voltarem os amigos, os filhos e as mulheres para debaixo das mãos, o que, mesmo que aconteça todos os dias, não se demora como ao sábado e ao domingo. Hoje há mais lágrimas ao volante ou enquanto o nosso vulto se verga noutras paisagens. Quem não fecha os olhos a nada, da tv às redes sociais, acha tudo inútil e supérfluo momentaneamente. Temos condições para perceber que a sabedoria está na escuta, na serenidade de saber manter essa reserva de músculo na sombra. E o melhor não é gritado a céu aberto em vista de um só centro, mas feito difuso, por todos, a céu fechado E construimos o mundo. Mesmo que doa.
E até os sorrisos, hoje, doem.

PG-M 2013

Um instante numa estante

 Um destes dias, numa das livrarias que habitualmente frequento, vi que, depois de muitos meses de ausência, um livreiro mais afoito trouxe de volta "A manhã do mundo". Mas o que me fez sorrir foi reparar nos meus companheiros de estante, que, com sorte, o serão pela eternidade, e resolvi trazer-vos este mimo: começando no Almada Negreiros (estás aí?), prosseguindo no Paulo José Miranda (estás aí?), na Julieta Monginho (estás aí?), no Paulo M. Morais (estás aí?), no Miguel Miranda (estás aí?), no Vitorino Nemésio, Abel Neves, José Niza e Rui Nunes (estão aí?), no Vicente Alves Do Ó (estás aí?), na Raquel Ochoa (estás aí?), o Carlos de Oliveira, o Luiz e o Francisco do Pacheco - que é irmão do Vicente - (estão aí?), e, para fechar este vislumbre (este assombro?), o João Rebocho Pais, que aqui na rede social se dá por Red Jan. O privilégio é estarmos ali, calados, a falar para todos, e também, acima de tudo, e ainda que menos literário, podermos trocar abraços com quase todos, enquanto há tempo. Depois fica o melhor: nós na terra, os livros ao pó ou nas mãos, em livrarias, estantes ou blibliotecas - porque eu ainda não vi nenhum livro em lixeiras, ainda que saiba que também lá vivem, até serem resgatados. E, apesar de o próprio Orwell ter testemunhado o perigo do desencanto pelos livros quando se trabalha numa livraria, tenho quase a certeza que seria gratificante para os funcionários desta livraria perceber que um destes dias um dos autores daquele nicho tirou uma fotografia à estante que eles organizaram e os livros (os autores:) entraram em diálogo uns com os outros. Eles estão sempre ali. E vocês, estão aí?

PG-M 2013

2013-11-17

nobel de latão



 já é de tarde e é cedo.
teatro de sol de domingo e no banco de jardim do parque infantil da praia de salgueiros estão sentados, lado a lado, o emplastro da madalena, que é filho do pinto da costa, e uma rapariga que foi famosa num big brother ou numa casa dos segredos, já não sei bem, estão ambos com o olhar vazio, ele com uma saco de plástico, ela com uma garrafa de vodka, ele não está muito limpo, ela também não, nota-se principalmente pelos cabelos, e de forma alguma estão juntos.

no banco em frente está um poeta de rua que escreve com uma letra miudinha nuns papéis muito pequenos, de vez em quando para, olha para tudo, portanto para nada, morde a barba comprida por baixo do lábio inferior, e ao lado dele um acordeonista que trabalha de segunda a sábado na rua de santa catarina mas hoje está a descansar ao teatro de sol de um banco de jardim em frente ao mar.
eu estou a tomar café num bar em frente, protegido deles por um vidro, a pensar na literatura e na vida e na ciência e no corpo, portanto a fazer filosofia sem querer, depois de ter lido uma entrevista demasiado profunda do eme tavares. estou perturbado, fico sempre perturbado quando não resolvo um escritor, isto é uma doença que só me dá com os melhores. penso que não retive o nome da jornalista que lhe fez perguntas de uma forma rara, como se soubesse mesmo o que estava a fazer e tivesse pensado sobre a causa, e não sobre a consequência, e se tivesse concentrado na fonte e não no resultado.
entretanto acabei por decidir que, realmente, o próximo nobel português vai para o eme tavares e por ter uma consciência clara de que já não consigo competir com ele pelas coisas mais bonitas e só tenho uma vantagem, sou mais velho, chego mais cedo à idade da aparência do abandono, a ironia era que eu queria ganhar o nobel porque aquilo é muito dinheiro e dava para alimentar a família para sempre, mas não posso tentar porque tenho de trabalhar para dar de comer à família ainda este ano.

o emplastro abriu um saco de milho e está a atirá-lo às pombas e a partilhá-lo com a miúda do big brother, mas por causa do vento não há pombas na praia, e nem as gaivotas querem o milho nem vem o O'Neill, porque o médico lhe disse que, por causa da condição cardíaca, não devia caminhar contra o vento.

li num livro do eme tavares que os homens, nos jardins de domingo, procuram diamantes e que as mulheres os procuram a eles. disse isto à minha mulher e ela perguntou, a eles aos homens, ou a eles aos diamantes? e eu respondi, acho que é aos homens, mas estás a ver, de qualquer modo, se for aos homens porque eles procuram diamantes também é muito bonito. não estou sequer certo de ser isso o que estava lá escrito. espera. não foi num livro. foi no artigo de hoje da notícias magazine. não tenho gostado muito dos textos do eme na notícias magazine - talvez porque são superiores e eu não lhes consigo chegar -, mas hoje gostei, acho que era o senhor voltaire a falar e o senhor focault a ouvir. de vez em quando o senhor voltaire levantava-se para olhar para um quadrado negro desenhado no chão ou sorrir com a parte lateral do lábio e que isso era sarcasmo, ou as duas coisas, não sei.
não tenho tempo para investigar as frases e ouvi dizer que o eme tavares faz isso e isola-se com tempo no templo como os artistas mais antigos, e também ouvi dizer que tem de ser assim para nos chegar a arte ou as palavras que podem ser arte.

em rigor, se querem que vos diga, eu queria ganhar o nobel porque gosto muito daquela parte da cerimónia em que nos põem uma faixa vermelha na diagonal, sobre a barriga e sobre o peito, ou sobre o peito e a barriga, e o rei da suécia nos vem entregar uma pequena caixa com uma medalha do alfred nobel e depois o escritor tem de fazer uma vénia ao rei, depois uma vénia aos convidados mais ilustres, depois uma vénia aos convidados menos ilustres e tocam as cornetas.
penso, sinceramente, que se me fizerem uma cerimónia dessas num aniversário qualquer já ganhei o nobel. o problema é mandar vir o rei da suécia

mas o mais complicado, mesmo, o mais complicado de tudo vai ser chegar a casa e explicar à minha mulher porque é que decidi escrever este texto só com letra pequena, como o valter primitivo.

no banco de jardim de cá o poeta de rua está de pé e com a mão estendida, como se mandasse esperar o mundo. fez um sinal ao acordeonista e ele levanta-se e mexe a cabeça e os braços, como se estivesse mesmo a tocar. tenho de pagar o café para sair e ouvir.
até hoje tinha conseguido resolver o eme tavares em mim, mas desta  vez ele subiu tanto, tanto, que já chegou a uma pureza a que eu nunca chegarei, porque não tenho tempo nem qualidade, poucos têm, talvez só ele

é por isso que a treta da conversa precoce do nobel vai deixar de ser treta, eu já atribuí um a Moçambique, irá para o Mia Couto, vai ser um grande dia para a língua portuguesa e desportuguesa, e alguns anos depois, quando o eme tavares passar os sessenta, outro, finalmente, para portugal. ele vai fazer as três vénias e, provavelmente, pagar-me um café no regresso.

eu, contudo, só terei hipóteses de ganhar se passar dos cento e trinta e um, e mesmo assim tenho de ter o cuidado de não entrar curvado, as três vénias só são mais tarde, tenho de estar lúcido e com capacidade de subir a um palco, como o Manoel de Oliveira, que fez isso há dias na bilbioteca almeida garrett, no porto, e tem centro e cinco e parece que está tudo à espera que ele morra para lhe darem mais.

gostei muito de ouvir o eme tavares dizer que não se podem comparar ou escalonar livros, que é como dizer que um tigre é melhor do que um elefante, espera, o acordeonista estava a tocar a melodia do into my arms, do nick cave, o poeta a ler o "assim como" do alberto caeiro....como é possível?....e o emplastro está a olhar muito espantado para ele, com a boca cheia de pão, e a menina da casa dos segredos a abraçar a garrafa de vodka.

eu estou arrebatado e a ouvir na minha cabeça o ave verum corpus, do mozart, que não está realmente a tocar

nenhum deles sorri, nem o emplastro nem a miúda, porque não há câmaras de televisão por perto.

li hoje um fragmento do primeiro romance do bruno vieira amaral e fiquei comovido, era uma reunião qualquer entre a mãe e umas senhoras, uma em que ele ficou ao largo, estava tão delicado e no entanto cruel como a grande literatura sabe ser, ainda assim mais suave do que o coetzee no coração desta terra, mas um destes dias estava a ver na sic notícias uma reportagem sobre a entrada do público no estádio da luz para o portugal-suécia e lá estava o emplastro, vi a cara de poucos amigos do repórter, vi alguém a bater no emplastro e não gostei, afinal o rapaz é filho do pinto da costa e faz-nos sorrir a todos, está bem, podia estar a aborrecer o repórter há muito tempo, mas não importa, bater no emplastro é um crime de lesa-majestade, e então resolvi descer aos bancos de jardim e dizer-lhe que o rei da suécia o defenderia sempre

mas a expressão dele continuou vazia

o poeta de rua disse para eu deixar estar, que ele sabia o que a fazer, que tinha uma história infantil ou uma grande frase que lhe contava ou dizia sempre, e eu voltei a pensar em literatura e no eme tavares,

será que consigo resolver isto? o emplastro, a miúda do big brother, o poeta de rua, o acordeoonista e o eme tavares? será que consigo tocar ao de leve a literatura para a atirar para dentro do emplastro e da miúda da casa dos segredos, ou é mesmo obrigatório render-me e desistir, aceitar a expressão vazia dos dois e a superioridade das coisas simples e intangíveis do eme tavares ou de todos os génios como a maria filomena molder ou a llansol ou alguns pedaços do camus e do coetzee e daquele americano e do próprio do saramago e até do lobo antunes

ah, o discurso do nobel do saramago, eu acho, how characters became the masters and the author their apprentice, foi muito mais bonito do que o do coetzee, he and his man. mas, como diz o eme tavares, não se pode comparar um elefante com um tigre

no teatro de sol de domingo o poeta de rua leu ao emplastro a frase do novalis
"estamos sós com tudo aquilo que amamos"

e o emplastro começou a chorar com os olhos quietos

o acordeoonista tocou o anda comigo ver os aviões como se fossem lâminas a desentranhar da pele os corações mais frágeis

e a miúda do big brother largou a garrafa de vodka e dançou a valsa com o emplastro

e ambos riram, pela primeira vez, sem câmaras.


(é assim que a literatura chega, baixinho, desde o chão, como as primeiras coisas, bruno, e eu resolvo os meus escritores)

PG-M 2013
(vencedor do nobel de latão da literatura na festa dos seus quinze anos, organizada pela miúda do big brother)


2013-11-11

A confissão impertinente de Solomon PaloblyK (I)


Pela tese de um grande amor, já sabemos que ele morrerá com a provecta idade de noventa e um anos no ano da graça de dois mil e cinquenta e nove e que tinha dez anos em mil novecentos e setenta e oito, quando o pai, contra a vontade da mãe, o levou a ver a estreia de Wedding, de Robert Altman, no Festival de Cinema de Nova Iorque.

Sabemos também que morou em Great Neck, um subúrbio rico desta cidade, na Garden Street 1, e que tinha casa nos Hamptons, para onde não foi no dia onze de setembro de dois mil e um, porque morreria nas torres, numa primeira versão d'A manhã do mundo, e - spoiler já de seguida - salvar-se-ia delas numa segunda.

Finalmente, e porque no-lo confessou, sabemos que toda a vida amou Penelope, a empregada de café filha do dono, depois também livreira, da livraria onde ia sempre com a mulher, Ida, mulher que enterrou a dois quarteirões dali, e a quem deixou de ler Life and Fate, de Vassili Grossman, pouco antes de morrer, por ela já não ter fôlego nem ouvido para a beleza concisa do russo.

Neste passo da história, é importante dizer que Solomon foi criado como judeu e que nunca na vida, pelo menos até ao dia do seu trigésimo aniversário, se confessou a um padre católico. Mas fê-lo precisamente no dia dos seus trinta anos. E, porque isso aconteceu, Solomon tem alguma coisa do senhor Palomar de Calvino, do senhor Bartleby de Melville e do senhor K de Kafka. É hoje facilmente inteligível a lógica do seu pai quando lhe escolheu o estranho segundo nome, e cuja decisão foi tomada ao observar o olhar do filho no berço depois do primeiríssimo sono em ambiente não securizante: Paloblyk. Solomon ainda não tinha um dia de vida quando o seu pai decidiu chamá-lo de PaloblyK.

Chamou-lhe Solomon PablobyK qualquer-coisa (não vem à memória o apelido).

Solomon PaloblyK dirigiu-se ao confessionário da Church of The Holy Innocents, na 32nd Street, às dez horas da manhã do dia do seu trigésimo aniversário, depois de um Verão hormonalmente doloroso.

"Perdoe-me, padre, porque faço hoje trinta anos, pequei e nunca me confessei."

"Os meus parabéns, meu filho. Quais são os teus pecados?"

Evitando a pergunta óbvia, a piada fácil, Solomon PaloblyK prosseguiu:

"Aí é que está o problema, senhor padre. Há algo na vida que não estou a conseguir conciliar com o amor e a fidelidade à minha mulher. Faço hoje trinta anos, pareceu-me adequado vir falar com uma padre católico, eu que fui educado como judeu. Aliás, todos os meus problemas têm vindo a confluir na questão do estranho e do conhecido. Porque há uma zona cinzenta das relações humanas que nem a literatura acolhe, descontando, talvez, o conforto da estranheza que as confissões de Santo Agostinho me causaram. Pensei: e eu, que não sei escrever desta forma absolutamente arrebatadora e clara, como vou eu dirigir a luz para mim próprio de modo a descobrir nas minhas profundezas as soluções para as dificuldades respiratórias da vida, principalmente da vida com as mulheres?

Repare, senhor padre: não incluo a apneia nestas dificuldades respiratórias da vida com as mulheres. A apneia pode ser um problema, mas também pode ser uma virtude. Eu, quando era novo, vencia os concursos de apneia, fazia duas piscinas debaixo de água. E se falamos de apneia como arrebatamento, também não venho confessar as mulheres que nos dão apneia num momento fugaz na paragem de autocarro, numa fila de automóveis, num passeio - também excluo as que apenas nos intrigam e que nos fazem pensar, durante alguns segundos, que gostávamos de as possuir ou de lhes perguntar as horas ou de cheirar os seus perfumes.

No supermercado onde faço as minhas compras há uma rapariga de olhos amendoados e lábios cheios que me atende sempre de uma forma perturbante. Demora-se no meu olhar mais uns segundos do que o normal, eu demoro-me no dela, ela sorri e eu devolvo, quando eu me apresto para sair ela olha sempre para trás e diz-me adeus e até amanhã, eu respondo. É assim há mais de um ano. É diferente ir ao supermercado quando ela está e quando ela não está. Chego a voltar mais tarde só para poder pagar as compras a esta rapariga. Não posso, honestamente, defender a tese de que ela me tenta seduzir, tampouco eu a ela, mas, lá está: o meu impulso é entremear esta com a história das velhas e hipócritas adversativas, tipo "Mas ela ainda não fez vinte anos e eu estou a bater nos trinta", ou "Mas eu sou casado e ela pode ter namorado". Deus - o nosso deus, senhor padre - sabe quanto tempo trabalhará ela naquele supermercado ou eu morarei naquela zona, mas devo destacar este facto: esta rapariga é mais importante na minha vida do que, por exemplo, muitos enfadonhos e vazios colegas de trabalho. Curioso eu chamar-lhes vazios quanto não troquei mais do que três ou quatro expressões coloquiais com ela. Mas a verdade é que há um ritmo, uma troca, algo que ela me dá e eu lhe devolvo e que, pelo menos para mim, é de grande relevância. Ainda que ambos possamos gerir com alguma maturidade a ausência na vida um do outro, que é muito maior do que a presença (eu vejo-a uma vez por semana, no máximo duas, às vezes nenhuma), há um elemento social tácito que classifica esta relação como inexistente ou irrelevante. Que me retira o direito de saber se ela sente o mesmo, ou algo de parecido mas só dela, saiba ou não porquê. E não é líquido que eu goste de me cruzar com ela porque me sinto atraído fisicamente, ou ela por mim. Aliás, sinto coisas parecidas por mais pessoas, algumas do sexo masculino, e Deus - o nosso deus, senhor padre - também sabe muito bem que eu não pesco - nem peco - desse lado. O que eu sei é que há uma tensão, um finíssimo cordel totalmente esticado, que se libertaria se eu e ela pudéssemos conversar sobre isto, por exemplo, num confessionário como este.

Será que algum dia isso vai ser possível? Nós "adcionarmos" expressamente um desconhecido à nossa vida para não nos perdermos dele, uma espécie de livro das caras com que nos cruzamos ou nos queremos cruzar, e um dia, sem combinar, apenas porque calha estarmos ao mesmo tempo no confessionário, lhe podermos dizer o que nos vai na alma? Isso estraga - ou adensa - o mistério da vida?

E se eu encontrasse esta rapariga nesse confessionário e lhe confiasse estes pensamentos ou sentimentos, quais seriam as consequências? Porque penso que o senhor padre concorda comigo: se eu a convidasse para tomar café numa folga, e ela aceitasse, e mesmo que lhe explicassse tudo muito explicadinho como lhe estou a explicar a si agora, ela ia sempre pensar que as intenções eram outras. E a minha Ida não ia gostar. "Por que raio andas tu a tomar café com a caixa do supermercado?" E o encanto ficaria quebrado para sempre. Está a entender o senhor padre a zona cinzenta e a impossível abordagem? E se existisse um confessionário e o encontro fosse casual e sem contacto visual ou físico? Poderiam nascer outro tipo de pulsões que não estavam na origem do nosso relacionamento, algo erótico, virtual, platónico. Ou nada e o encanto novamente quebrado.

A verdade é que, como dizia o Gabo, as nossas mulheres, as boas, chamam-nos à atenção quando passa outra que nos agrada, ou, como neste caso, sabem de uma com quem mantemos uma dependência química.

Descrevo-lhe as ondas do senhor Palomar.

Relato-lhe, pois, as tentações que o não são.

A minha veradeira tentação é perguntar-lhe. Uma pergunta impossível, porque sugere tudo menos o que eu realmente pretendo dizer.

Será este só um problema da cidade, do homem urbano?

E se eu disser o que não quero? - para induzir um contacto e medir a pulsação, algo tão banal como "A menina é muito bonita." Sugerirá esta pergunta, que não quero realmente fazer, o que quero realmente dizer? Estará a verdade na aparência? E a aparência na verdade?

E se o silêncio for o mais avisado?
Prevalecerá o mais sensato?
Pois se não disser nada, a rapariga de olhos amendoados e lábios cheios, como quase todas as pessoas, vai queixar-se de que a vida dela é desprovida de interesse, os dias iguais entre si, de que as pessoas deviam olhar mais umas para as outras, importar-se mais umas com as outras.

É neste ponto que me sinto o senhor K perante a escadaria infinita do tribunal.


E destes episódios, ao longo da vida, há-os ao dia, à semana, mesmo ao ano, quando voltamos para o lugar onde costumamos passar as férias e reencontramos a mesma empregada de padaria, ano após ano, e nos calamos e nos vamos perdendo dela anos fora. E nos vamos perdendo um dos outros anos fora. Não teria mais sentido - e valor - se eu tivesse dito à rapariga dos olhos amendoados que ela era indispensável às minhas semanas, arriscando quebrar o encanto, mas deixando-lhe essa marca indelével?

Se, quando Saramago escreveu a Pilar dizendo-lhe, "Se as suas circunstâncias o permitirem, gostaria de visitá-la", ela, em vez do sim que despoletou tudo, tivesse respondido "Meu caríssimo Saramago, penso que o terei induzido em erro quanto às minhas intenções", que livros se teriam perdido, que destino teria deixado de ser escrito? E que livros se perderam porque ela teve realmente a circunstância de o receber na sua casa de Sevilha?

Tudo isto me leva , senhor padre, ao que realmente me atormenta:

O companheiro ou a companheira ocasional de um jantar de amigos, uma Lady Chatterley da 82nd Street, de uma saída em conjunto, uma Constance Reid da 31st, de uma férias, uma Connie da Fith, a colega de trabalho que connosco partilha os mais diversos interesses, uma peça de teatro, um jogo qualquer, um longo café com troca de ideias, uma Hilda Reid de Wall Street, aquele ponto em que nos encontramos mais profunda e profusamente com uma pessoa (it's not Mrs Bolton, senhor padre), seja estranha, nova ou pré-existente na nossa vida, em que sentimos empatia ou profunda amizade, leva-nos à velha discussão do "When Harry met Sally" - lembra-se, senhor padre?, passa-se aqui mesmo, em Nova Iorque, quando ela finge o orgasmo em pleno restaurante - ou, pelo contrário, há solução para todas essas tensões de amizade, amor, até sexo, sem que sejam excludentes de um futuro em comum? Qual é o limite? Um abraço? Um beijo sem língua? Um beijo com língua? Um acto sexual? Uma masturbação individual? Uma masturbação conjunta?

Uma conversa, uma longa conversa de mãos dadas, olhos nos olhos, libertará o cordel fino da tensão? Não será  silêncio a mais perigosa e falsa de todas as opções?

E se fosse possível essa coisa mirabolante de que lhe falava há pouco, senhor padre, se as pessoas se pudessem encontrar sem corpo, era pecado? Era pecado o encontro pelo mero pensamento entre Lady Chatterley e o seu amante, Oliver Mellors? Era pecado a troca de imagens eróticas? Era pecado só quando os corpos entrassem uns nos outros? Ou será que a mera vontade de isso acontecer bastava?

E se, no limite dos limites, eu algum dia amar uma pessoa no estrito respeito dos meus deveres matrimoniais, senhor padre? Se me limitar a observá-la dentro dos limites do suportável? Uma rapariga de olhos amendoados e de lábios cheios que, em vez de num supermercado, trabalhasse numa livraria? Penelope? E as consequências são as mesmas quando se ama ou quando não se ama? Devo quebrar o encanto? Ou devo sangrar, libertar todas as tensões através de pequenos actos que satisfaçam a minha curiosidade? E quais são os meus verdadeiros limites, as minhas fronteiras, fronteiras reais, não uma desculpa esfarrapada, uma embriaguez em perfume de romances novecentistas, no regresso da Biblioteca do Congresso?

Consinta-me ao menos um abraço, senhor padre, ao menos um abraço.

E se o senhor padre me disser "Preferia que não o fizesse", está fechado em Bartleby, meu caro padre, cerradíssimo no meu segundo nome e afinal em toda a minha existência.

E na história da minha vida já não caberia a livreira Penelope, para já uma miúda de quinze anos, filha do dono, que eu conhecerei daqui a algumas horas, quando abrir a livraria nova, em busca do "Life and Fate".

E já não a amarei nos sessentas anos que se seguem.

Que é como quem diz, até à morte."

PG-M 2013

2013-11-03

Apneia (no Museu de Ovar)

Nem sei bem por onde começar.
Talvez por duas palavras que não têm de ser difíceis. Como as pessoas que elas servirão.
Exitância e Eutimia.
Exitância é radiância. Eutimia é tranquilidade, serenidade.
Então por onde começo?
Pela exitância dos olhos da Elisabeth Leite? Pela eutimia do sorriso da Helena Dias? Pela forma como ambas - e vamos ver se consigo escrever isto de uma forma que esteja à altura de ambas - formam uma expressão e um sentido único que anda entre a beleza e a arte puras? Não preciso de ir muito mais longe: entrei ontem pouco depois das seis e meia da tarde no Museu de Ovar, e a nossa tertúlia só começaria três horas depois.  E as pintoras, que tinham inaugurado aquela exposição pelas quatro, cercaram-nos com a sua arte e a maravilhosa história que as une. Talvez possam dizer que a beleza pessoal pode até contender com a arte. Talvez eu devesse escrever coisas mais pequenas, e afinal falar das pinceladas das duas grandes artistas, nada mais. Mas se alguém o disser, é porque não viu os olhos da Elisabeth ou o sorriso da Helena, aliás vinte anos mais nova do que pretende. E sobre a história pessoal das duas nada vou dizer, por pudor e respeito, mas é verdade que há pedaços de vida tão preciosos que apetece recebê-los com a grandeza que têm. E trabalhá-los como se trabalha o barro. A literatura pode devassar o lado de dentro das pessoas, mas, caramba, não há violência maior do que ter de gerir um arrebatamento com este repente.
E a noite de apneia?
E o João, a tocar flauta transversal, a abrir, a Rita - que tira fotografias maravilhosas - no violoncelo a fechar?
E o Professor Cleto que, não é bem dirigir, erige esse Museu que às dez da noite estava de portas abertas para a rua e a tasca ao lado a aquecer a nossa sala de gargalhadas e conversas?
E a dona Elsa, que pelos visto é a alma daquele lugar?
E a Ana Cunha e o institucional a passar a cúmplice?
E a forma como o José Ferreira disse os poemas?
Ou o Carlos leu a prosa dorida?
As lágrimas na sala, noite dentro, são da vossa responsabilidade. Eu passei metade da sessão encolhido sobre o lenço. Mesmo conhecendo ou suspeitando de que tudo começara de fora para dentro de mim.
 
E os astros nos olhos da Cristina e da Maria Joana quando os velhos morreram um a seguir ao outro?
E a saudade e o orgulho nos olhos do Joãozinho - que ganhou o prémio da família mais bonita, a filhinha, a mulher, a mana?
E a dignidade da mãe, que estava sentada mas parecia de pé, irredutível, ao vento?
E as maratonas que agora magoam o Elvas?
E a rendição do Jacinto Emerenciano e da sua bonita mulher, embevecida e orgulhosa por ele ter deixado os tremoços e as cervejas para mais tarde (para a próxima também os trazemos, o que achas, Jacinto?) Jacinto é um nome tão bonito.
E aquela espécie de coloratura do Silvério, que não é coloratura nenhuma, mas é assim que se inscreve em nós, uma ópera que sobe, sobe, sobe, que do princípio ao fim da noite te vimos a vida toda com esse queixo levantado, os olhos imersos e o coração a abranger todos?
 
E o meteoro que caiu entre nós e nos encheu de perguntas? Mas deixamos? Mas não é isto que viemos cá fazer?
A meio da sessão levantou-se um senhor e perguntou: "Posso?"
Ninguém sabia o quê.
"Posso ler poesia?"
Acontece muitas vezes em sessões públicas. Normalmente é rapidamente silenciado ou deixado para o fim. Assim lhe foi dito pelo moderador.
"Mas a minha mulher está em casa sozinha. E se eu demoro fica com frio."
 
(neste preciso momento sinto o aperto no peito que nos provocou a todos, que pensámos, até à última palavra, que era um homem um pouco louco, talvez pensemos ainda, ninguém para quem era óbvio que, num lugar onde se dizem certos poemas, se podem dizer todos; já não era uma questão de ordem, disciplina, a partir do momento em que ele deu uma explicação mais bela do que qualquer poema todos o queríamos ouvir)
 
"Chamo-me Bandeira e sou trasmontano."
E leu um belo poema de António Neves Pinheiro.
Pouco depois levantou-se e disse que tinha de ir.
Já sabíamos todos. Porque a mulher estava sozinha e tinha frio. Ele tinha saído de casa, diziam que ia chover, tinha vindo sozinho. Teria dito à mulher, "Eu venho cedo, não te aflijas." E a cara dele encerrava um certo desespero, certamente da solidão e do frio da mulher, em casa, sem ele.
 
Não vai ser fácil esquecer a beleza que o senhor Bandeira lá levou.
Não é só literatura, poesia, teatro, pintura, futebol, fado, Fátima, dor, riso, memória, nostalgia, portas, janelas. É tudo isto e muito mais do que isto.
É uma questão física.
 
Chama-se rebentamento do coração.
 
Como é que aguentas, Carlos?
Dizes à Clarinha - este nome literário, como Jacinto - que eu sei que ela não se chama Rita e que eu, verdadeiramente, não tenho cérebro de peixe, mas gostava?
 

PG-M 2013
a fonte da imagem dupla das pintoras é esta
a foto do quadro de Elisabeth Leite é de Nuno Sacramento, aqui
as fotografias do José Ferreira, do Professor Cleto e do livro com autógrafo em fundo são da Rita Oliveira

2013-11-02

Apoplexia Mariana em Ovar

Não adianta sugerir sinónimos. A Mariana chama apoplexia ao que a move. Não é comove, é move, à americana e à portuguesa, ao que não deixa nos ficar no mesmo lugar. Falou da apoplexia depois dos livros, do rectângulo que qualquer realizador de cinema forma com a alma antes de o fazer com as mãos para imaginar um plano. A Mariana leu nove livros nas férias, mas é que leu mesmo, a forma eléctrica de ela falar é o que a literatura é e como deve ser explicada, a Mariana serve-se dos livros para se empolgar e para empolgar os outros. Até me disse que ficou entusiasmada com aquele que estava em cima da mesa sobre 11 de Setembro. Ah, mas esse fui eu que escrevi, Mariana, disse eu. Pronto, não importa, parece interessante, responde a Mariana com naturalidade. Pois não importa, Mariana. Importa o livro, não quem o escreveu. O escritor é sempre pequeno. E em Ovar foram dezenas - não queria arriscar a centena, mas multiplicando as filas pelas cadeiras da frente (Cfr fotografia infra) andou lá perto - a testemunhar a minha pequenez e a compor o magnífico auditório (o melhor que já vi em ambiente escolar, e capaz  desuperar a capacidade equalidade de muitos teatros) da Escola José Macedo Fragateiro, que resolveu celebrar esta não-feriado do 1 de Novembro a aturar-me na qualidade de escritor. A Mariana era uma das jornalistas do Jornal Escolar Trincacevada (que grande nome!), todas meninas muito interessadas com perguntas bem colocadas, como a Catarina e a Filipa, sob a batuta do presciente e sabedor professor Hélder. Antes a sessão tinha começado comigo muito sozinho em cima de um senhor palco a tentar fazer conversa. Antes ainda com uma grande recepção do Hugo, um aniversariante do 11 de Setembro, e amigos, no exterior da escola, que me olharam com aquela curiosidade que nos faz sempre hesitar e perguntar se estaremos à altura dela. Mimo foi o que veio da directora Cecília, tão parecida com a minha avó Belinha, e das professoras Alda, Graça, Rosário e Clara, este nome literário que eu tenho de usar um destes dias. O professor Luís Tarujo salvou a honra dos grunhos heteros, um dos textos que eu ofereci à escola, e que ficou (mil perdões, professor) na dedicatória. E mesmo muito sozinho e distante em cima de um palco grande, toda a gente esteve perto e eu fui chamando os que se iam destacando na plateia. Hoje percebi que não é preciso grande diálogo ou vocação oratória se estivermos sempre atentos ao palpitar da sala. É curioso como há textos que funcionam de forma tão diferente em cada lugar e tempo. Nada substitui, contudo, a absoluta virgindade dos olhares, mesmo entre os aparentemente mais sabidos, ou principalmente neles. Tive como leitores de fragmentos um outro Hugo, o primeiro a deixar fugir uma esperteza, a Sara-directora-de-turma e o Hugo-aniversariante da recepção inicial. Como fotógafo (que promete, pelo que já vi), o Filipe Rilho, que hei-de trazer a todos os lados virtuais, como costumo dizer. E na discussão sobre a pena de morte o Pedro, o Gonçalo, o André, o Leandro e um professor muito desconfiado e irredutível na defesa da pena de morte que encerrou a sessão chamado ao palco com uma ovação para dizer "os meninos estão inquietos para sair", ao que os meninos responderam com riso e recusando debandar. Podia ser melhor? Não. Sobre o stress pós-traumático e de como um homem crescido treme com as histórias do 11 de Setembro, um muito focado João. O núncio portador dos livros foi o caríssimo Professor Cleto, director do Museu de Ovar, hoje meu anfitrião. E como estas não foram as únicas pessoas que me marcaram hoje - estou agora a lembrar-me das meninas dos cadernos, uma era Fabiana, não sei se era a ruivinha, como eu gosto de autografar cadernos de português! - podem imaginar o que acontece a um escritor, mesmo pequenino, como eu, cada vez que entra numa escola. Esta de Ovar, além de bom café e de se notar que é muito ciosa do seu nome antigo (agora querem chamar-lhe agrupamento-de-qualquer-coisa), teve um acolhimento que, a um tempo, é familiar, e a outro abrangente: um verdadeiro abraço - por gasta que esteja a palavra, não está o acto. Fica a gratidão deste vosso servo. A Ovar volto de certeza.


PG-M 2013
fotos de Filipe Rilho