2013-09-25

da praia invernia

Nos dias invernosos há algo de apocalíptico na caminhada que faço até ao topo da duna onde me espera o café de tantos livros. Sei que é alta a probabilidade de estar vazio, e com a chuva forte que me bate na cara e um mar de vales e montes cinzentos com avalanches de espuma branca sempre a chegar e a partir, a chegar e a partir, ocupar a mesa em frente à vidraça é um ritual que traz saudades da profunda solidão em escrita, aquela em que se sente a ilusão de vida dentro da escrita e a convicção do ofício que não serve para nada. Excepto nas mãos de um leitor que aperta as nossas numa feira do livro e nos faz perceber, muitos depois da invernia, que valeu a pena. Hoje, na vila, espantaram-me as caras felizes pela chuva, e ocorreu-me a banalidade que testemunhamos todos os dias nas redes sociais, a gente, mesmo a gente real, que se cansa depressa e gosta de tudo com medida, afinal as previsões gaulesas, difundidas nas frequências nacionais sem critério, de que não haveria verão, que depois montaram no lamento dos amigos mais dependentes do sol, e que tinham sempre a mesma resposta, claro que haverá verão, eu que ainda não sou um velho pescador de pele escura e curtida pelo sol, sou só um puto de praia há trinta anos e tenho a pele escura mas falta curti-la, respondia sempre que apocalipses só as minhas subidas ao café de escrita em dias invernosos. Pago adiantados dois cafés, já era assim em Coimbra, e escrevo quanto posso. Tenho pena de não ter um diário nem haver perspectivas de o ter, tenho pena de não escrever nada de sistemático sobre esta vida, que é a única que não é dos outros, sei bem que quem nos ama não colará estes pedaços para nos ter de volta, mas talvez os indiferentes o façam e nos descubram e então queiram saber onde fica exactamente o café sobre o mar onde aquele escritor portuense menor construía para os outros. Eu digo. É aqui. Tenho mar pela frente e pela esquerda até bem longe. Vejo o senhor da pedra e em alguns dias limpos a mancha longínqua da bela cidade de Espinho. Raramente levanto a cabeça para as ondas, mas é importante que elas estejam aqui. Vivo perto e vivi ainda mais perto, na primeira rua à esquerda quem sobe da praia, e foi nesses anos em que a minha cama ficava a cem metros do rebentamento, distância que eu vencia de chinelos, com a toalha ao ombro e a bola de voleibol debaixo do braço, que eu aprendi que era mais importante ter o mar ao lado do que olhar para ele. Na primeira noite que passei junto à praia era véspera dos meus anos e a mãe levou-me às vendedeiras de praia para me comprar o vai-vem. Havia discos voadores, mas eu quis o vai-vem. Depois a mãe deixou de se importar muito com as saídas depois da escola e eu descobri a sexualidade e o tabaco. Fumava os Ducados que o pai do Zé trazia de Espanha e juntava umas coroas dentro do grupo para comprarmos batatas fritas que depois íamos comer para as dunas nas noites precoces de dezembro. Nessa altura era nas dunas que os traficantes passavam droga para os frequentadores do Iôdo e um dia foi morto um rapaz na esquina da avenida da praia. Tivemos medo durante seis meses e então veio o melhor verão das nossas vidas e as miúdas da primária tornaram-se adolescentes deslumbrantes das quais não descolávamos, excepto para jogar futebol - e ninguém nos batia no futebol de praia. Entretanto eu tinha de entrar na universidade e deixei de acompanhar os meus pais nas férias para estudar para os exames. Nesse verão apaixonei-me por uma rapariga que afinal eram duas, duas irmãs gémeas, e quando no fim do verão ganhei coragem de lhe dizer isso ela respondeu que tinha namorado. Não perguntei se a gémea estava disponível. Estudava todas as manhãs de verão num bar sobre a praia a beber pingos claros (não me perdoo por ter gostado de pingos claros) e a comer as queijadas de francelos, que são as melhores do mundo - pelo menos do meu. Era o bar-sol, entretanto demolido, assim como o Iôdo e a droga. Quando encontrei a mulher da minha vida passámos os anos na praia, não só os verões, todos os sóis e algumas chuvas lá estávamos nós aos beijos nas dunas ou na estação dos comboios. Namorámos dez anos e casámos e nunca fugimos da praia. Como eu gostava da praia vazia no fim de setembro e daquele dia inteiro em que alomocávamos e jantávamos lá. Quando resolvi repartir a advocacia com a prosa, partilha que a poesia não exige, foi na praia que encontrei o meu tempo. Abrando por aqui em vez de almoçar, fujo para cá em vez de tudo. Convivo bem com o povo invasor que não cresceu aqui e também precisa disto, mas quando a chuva volta a minha praia é-me devolvida sem eu ter de pedir. E eu faço aquela subida apocalítpica para o café sobre as dunas e fico a produzir perante a vidraça e a solidão convicta da inutilidade. Talvez os indiferentes um dia queiram saber onde fica exactamente o café sobre o mar onde aquele escritor portuense menor construía mundos para os outros.

PG-M 2013
fonte da foto

2013-09-20

A imperatriz Felisbela

Quando estamos encostados ao muro de um funeral de uma parte de nós o que se abate sobre o corpo são todas as vidas que estão dentro da nossa. Pode acontecer, por breves momentos, que nos apareça perante os olhos a própria mortalidade, mas o que nos violenta é a imagem de todos aqueles que ali estão, com roupas escuras, que estavam dentro da nossa vida e agora andam nas margens. Há uma alegria de regresso misturada com a tristeza da partida. Hoje, enquanto deitavam a avó à terra sob um imperial sol de Setembro, eu vi à minha frente um dia de festa na mansão da avenida da república que hoje é um prédio amarelo com o modelo continente. A Guidinha tão depressa estava debaixo do meu abraço como às ordens da avó na cozinha que tinha uma chaminé tão grande que ocupava toda a parede leste, a Ana Maria hoje a dar-me um beijo pela primeira vez e a caminhar com dificuldade a chegar-se à porta da cozinha e a repreender o primo Gonçalo no longo e escuro corredor que não subisse às paredes, eu a correr à volta da casa com o primo Miguel para ver os perus e o fascinante aterro do lixo, nunca mais vi uma casa com um aterro de lixo, a cave dos carros e no primeiro andar o quarto do tio Tó com os discos todos do mundo, o quarto da avó que era tão bonito e fazia um "L" com uma salinha e a casa de banho privativa, de azulejos pretos e brancos muito brilhantes e ricos, imperial como o sol, imperial como era sempre a avó quando entrava na cozinha e dava ordens, o avô Caius a mandar calar toda a gente para ver a Gabriela, o tio Paulo abraçado à tia Luísa, é tão bonita a tia Luísa, e as outras tias e a mãe à mesa a trocar piadas sexuais com os outros tios e o pai se o avô Caius se retirasse para a salinha depois de ver a novela, o Manelinho no sofá, o Dox a correr e a ladrar no maior terraço que uma casa pode ter, maior ainda do que isso, quem não conheceu a mansão bordô da avenida de gaia? A Guidinha vai para os noventa anos e nunca me levantou a voz ou baixou a ternura, a ti Detinha e a Madrinha são as manas da avó e o tempo às vezes é bom, deixou-as iguaizinhas a ela, será que é desta que eu vou cumprir a promessa e regresso às mãos doces da Madrinha, ao sorriso mais belo do mundo, será que ela me mostra a pedreira da madalena ao fundo do quintal? Quando a primeira terra caiu na madeira eu ainda não tinha chorado, só quando cheguei ao café e olhei para dentro e lá estava ela, a avô Belinha, imperial, a entrar na sua cozinha e a comandar a Guidinha e a Ana Maria e a casa a ferver de nós todos que aqui estamos, cinzentos, a pensar que a vida é isto e que, ainda que não volte atrás, nos podemos lembrar dela, nos podemos lembrar de todos quando estávamos dentro uns dos outros, e Felisbela, que nos amou a todos com a mesma pose imperial com que comandava a  cozinha, sobe aos braços do seu imperador.
 
PG-M 2013
 

2013-09-17

O olimpo para Mrs Blanchett (a Blue Jasmine de Woody)


Gosto quando o Woody Allen do século XXI chama os filmes pelo nome das mulheres que exalta, por mais que em Blue Jasmine nada pareça exaltação. Mas é. Se no século passado Annie Hall exaltava a sua Diane Keaton, Alice a sua Mia Farrow, neste século - e não tendo Cassandra's Dream nada a ver com protagonistas - o melhor argumentista dos dois (séculos) já me fez apaixonar pela Melinda de Rahda Mitchell (um raro falhanço nas minhas previsões da "next big thing", porque Rahda desapareceu do radar), empolgar com a María Elena de Penélope Cruz em Vicky Cristina Barcelona e agora solidificar - e tornar eterna como só um bom casamento - a minha relação de muitos anos com Mrs Blanchett (leia-se "Blanchê", à francesa, embora os dois tês não deixem espaço para nada de tão pretensioso, eles chamam-na Blanchéte e está tudo dito).
Ora, sejamos claros: apesar da grandessíssima porcaria que foi a recolha de fundos e o "kiss-ass" ao governo italiano e aos patrocinadores do medíocre "To Rome with love", nenhum verdadeiro fã do Woody Allen tem memória para os disparates do homem, tal é a frequência com que ele nos dá coisas boas. A bem dizer, aqui não se escreve sobre coisas boas. Aqui, quando se escreve sobre cinema, é porque algo de excepcional se impõe. Algo ou alguma pessoa. Pois neste caso chama-se Catherine.
Sobre o filme? Está bem, vamos arrumar o filme para podermos escrever sobre o que interessa: como o próprio título sugere, é uma melodia de blues sobre a contemporaneidade. Como sabem, os blues, sendo quase sempre tristes, não são construídos para entristecerem, mas para fazerem vibrar, para exporem a terra, o pó, as vísceras. Assim este filme. Sempre muito bem escrito nos diálogos da banalidade, e por isso arrancando gargalhadas, poucos filmes nos enfiam um murro de contemporaneidade e nos deixam tão lúcidos e cientes dos tempos que vivemos. Portanto, só o filme vale os cinco ou seis ou sete euros que agora nos pedem por ele. E temos Woody mais Woody, mesmo que já nada o afaste do dinheiro que paga os filmes com o product placement (também ninguém se importa de ver os produtos Apple, são sempre cool, mesmo para um googler como eu ou um blackberrier como o Woody).

Mas depois de termos o filme justificado e pago, vem a deusa que se auto-retrata em plena decadência, e que Woody nunca deixa parecer menos do que sublime. Porque os vestidos são perfeitos, porque os acessórios a que ela se agarrou, vindos da sua vida anterior (rica), lhe assentam num corpo invejável, Jasmine é uma mulher depois da queda a tentar levantar-se sem perder a classe, Cate Blanchett nunca deixou de ser muito bonita sem ser consensual (que é o que importa, afinal) e aqui nunca perde o pé na sua passerelle, e, apesar dos grandes papéis em que deu sempre o máximo na sua carreira e do óscar de secundária por "O Aviador", faz o papel de uma vida em Blue Jasmine.

Por isso, e sem mais delongas, é a primeira da lista e dificilmente deixará de ser minha favorita (se a academia a não preterir, claro), exige-se:

Óscar de melhor actriz principal para a meia-australiana-meia-americana Mrs Catherine Elise Blanchett.

(que, por ter um casamento de mais de quinze anos com o malvado do Andrew Upton, não deixa espaço para mais pedidos)

Imperdível. Antes de saírem, têm abaixo mais umas ligações para a presença da deusa no David Letterman (sobre este meso filme) e para um artigo antigo sobre a Cate neste mesmo blogue.

PG-M 201
fonte da foto
PS: não é a primeira vez que me confesso. Leia-se o post antigo aqui.
PS2: entrevista completa ao David Letterman sobre Blue Jasmine:

2013-09-09

poema sobre o fim do verão

 
Lembro-me do meu corpo devassado por poemas que eu não te escrevi até chegar o último fim de tarde
e o tema de amor do Morricone a tocar na aparelhagem do banheiro e os panos listados das barracas no fim do verão e os telediscos que te dedicara ainda por montar na câmara do meu pai,

revejo esta nossa cena como a dos beijos do cinema paradiso e as lágrimas do velho Salvatore são minhas e o universo todo e todas as pessoas que estão a ler este poema somos nós
era o ocaso perfeito e eu pedira à minha mãe para só chegar em cima da hora do jantar para ter tempo de te dizer o que calara todo o verão,
por isso me lembro do meu corpo devassado por poemas que nunca te disse
e em vez do tema de amor do Morriconne tenho uma corda ao pescoço
duas voltas do shostakovich 
jazz suite nº 2
somos pássaros em fuga
tu cais quando em bando
rasávamos o lago negro

peço ao banheiro para mudar para o obué do Gabriel
outra vez o Morricone
a grandiloquência da vida
ele acha que eu não sou capaz
três meses planos com o calor dos velhos verões
tu com a coreografia perfeita
na periferia das mãos
e eu nada
e agora o quê a duas horas
de acabar tudo?

Logo à noite vou repetir o violino do Itzhak
que é sobre o fim de tudo, também
sobre o fim de nós
sobre o não acontecimento
universal,
foge,
sonhei que te levava a correr
numa patrulha de neve
nós com os corpos tapados
porque no verão a nudez e o cheiro
a óleo de coco
e o sal suspenso nos teus lábios
e as ruas de sentido
obrigatório
são abismos necessários, armadilhas da superfície animal mais os teus flic flacs fatais
e o resto do repertório de mulher da minha vida aqui agora e para todo o sempre,
nós ainda somos miúdos, nós ainda temos todo o tempo pela frente, tanto tempo, tanto espaço

uma hora até o sol se pôr
que no universo todos nós
todos os dias das nossas vidas temos

uma hora até o sol se pôr
e o vestido dela desaparecer
e o verão acabar


PG-M 2013

2013-09-07

Vigo

Pressinto o que Vigo é para os galegos, mas sei o que é para mim: muito. O que pressinto para os galegos é até fácil de resolver nalguns silogismos trapalhões de leigo. Eu gosto de espanhóis e de Espanha, ponto. E não gosto só um bocadinho, gosto muito. Há na mulher espanhola algo de insuportável, no melhor dos sentidos, para um português: o sotaque e o porte. Isso pode ser válido para qualquer mulher, mas as espanholas, estando próximas, inquietam. Estende-se um braço e lá estão elas. E, talvez porque durmam a sesta, saem para os copos das oito da noite como estrelas de cinema. Talvez não haja mulher que, ao natural, seja mais bonita do que a portuguesa, mas ninguém se sabe produzir como uma espanhola. Este é um olhar médio, e um olhar médio não resiste a particularizações. Há galegos que só querem ser galegos, outros que gostavam de ser portugueses e outros que não se importam, e até têm orgulho, de ser espanhóis. Eu gosto de todos, e, se nos dissociarmos da insana senda territorial ou dos (para mim, pouco respeitáveis) terrores da incorporação cultural da galiza em Espanha, todos são amáveis. Os galegos, em geral, cuidam demasiado bem da sua cultura para que ela esteja em perigo. Mas mesmo os mais empedernidos, com aquele tique externo de odiar Madrid, são suficientemente espanhóis, e eu gosto disso, é uma vingançazinha da grande Espanha perante a nada pequena Galiza, sendo que ambas convivem muito bem. Vigo talvez esteja mais castelhanizada do que qualquer outra grande cidade da Galiza, mas isso não é defeito, é vritude. Permite-nos encontrar o perfume do cosmos sem ter de percorrer muitos quilómetros. Vigo é uma cidade belíssima, atlântica, monumental, tem as minhas livrarias, tem excelentes hotéis e tem espanholas que são, quase todas, galegas. Vive em ebulição as vinte e quatro horas do dia, quando o pessoal dos bares começa a recolher o dia está a nascer e a cidade nunca dorme. E quando eu me jogo pela cidade acima nunca me aborreço, estou sempre a ferver, e isto entra na carne e vira amor. Por isso é que eu e Vigo nos casámos numa religião onde os divórcios são uma impossibilidade ontológica. Também por isso é que eu me encosto às paredes e, no limite, me basto com o sorriso que dou e me é devolvido pela cidade. Vigo não é um postiço galego. Vigo é a galiza nas estrelas.