2013-07-26

O adágio da margem sul


A melhor prenda de anos - das melhores de muitos anos - veio de um velho novo adágio da margem sul que diz assim e vai gravado a ferro candente:

"A forma como toleras o abstracto, como aceitas e agarras as pontas do inferno, são no mínimo alguns anos a virar frangos. O resto é teu, bem entendido. Mas és único."

Com ou sem piri-piri, é a minha eternidade. De uma pessoa primeira. Não me pergunte qual.

PG-M 2013
fonte da foto

PS, anotando, "Pareceste-me tão familiar como os caminhos que percorro sem pensar, os que faço e que são meus."

A lenda de Ana ou Barnard ou a sua sombra


Ana iniciou a sua existência num tempo tão primitivo que o arquitecto, apoiado no cotovelo direito, fumava um cigarro oblongo e ainda projectava galáxias e certas almas, apanhando-o distraído, transgrediam a espécie a que ele as destinara no primeiro caderno de esquissos. Ana era o princípio de uma mulher, mas não estava convencida de ser mais do que o princípio de uma outra coisa qualquer menos ela própria. Apanhando o mestre adormecido, fumava-lhe a última beata da noite e espreitava-lhe o caderno em curso. Na página trinta e três do caderno de galáxias havia um desenho de uma nebulosa que no espírito de Ana era a mancha da sua sombra, que por sua vez era igual ao desenho que surpreendera há dois ou três fumos no caderno de animais e a que o arquitecto chamara cavalo. Ana, por existir, largava a galope pela matéria negra da planície onde tudo seria escrito e isso repetiu-se a cada fumo, o indiscreto galope-à-beira-mar que um repentista cearense vai rasgar em decassílabos na gramínea unversal.
Ana foi um cavalo chamado Barnard durante a primeira parte da eternidade e escreveu nos cadernos e fumou as últimas beatas do arquitecto.
Quando o mestre quis organizar a criação, não entendeu pelos apontamentos se Ana era uma galáxia, uma nebulosa, um cavalo ou uma mulher. Então chamou-a e perguntou-lho, mas Ana largou a galope pela matéria negra da planície onde tudo seria criado e o arquitecto decidiu pela sorte que Ana seria aquilo que sempre a projectara para ser e não sabia: uma mulher.
E no princípio de tudo Ana foi outra coisa menos ela própria.
É por isso que cada vez que uma Ana nasce ou morre, ou apenas fraqueja das pernas e se prostra de cansaço, um ponto da nebulosa Barnard 33 é acrescentado na constelação de Oríon e neste ponto da eternidade já se divisa no céu, a mil e quinhentos anos luz de distância, uma cabeça de cavalo que ficará completa no próximo milhão de fumos por cada Ana que vier ou partir ou apenas fraquejar e um repentista do ceará trautear de alma o decassílabo de um galope-à-beira-mar.

PG-M 2013

2013-07-20

Quem foi a porca da gaivota que me andou a ler o livro do desassossego?

 George Orwell, no ensaio "Memórias de um livreiro", publicado originariamente no Fortnightly em Novembro de 1936, explica como o facto de ter trabalhado num alfarrabista o fez perder o amor pelos livros. Tal maçada pode acontecer a qualquer um que, numa determinada actividade ou perante determinado objecto, se aproxime demasiado. Foi o que aconteceu às gaivotas que não respeitaram a distância higiénica entre elas e o livro do desassossego que eu emprestara anteontem ao pescador Tonico, que por sua vez o pousara num tábua do "Lourdes Maria Eu Sou De Você" - assim mesmo, com a estética filológica anos oitenta, as capitais a começar todas as palavras, sem clemência para as preposições -, o barco azul e branco da faina de Tonico e do seu irmão Ricky, enquanto ambos remendavam redes no areal da praia de pescadores, em Armação. Como o livro nunca chegou a estar extraviado e eu já o tenho comigo, não viria mal ao mundo se ontem, na hora de fastio que sucede à manhã de praia e precede a sesta que sucede ao almoço, eu não me tivesse deitado a elencar mentalmente os esforços de comunicação das gaivotas, claro está que daqui não resultou nada de erudito, nenhum Fernão Capelo Gaivota de Bach, nenhuma Gaivota de Tcheckov, nenhuma reminiscência de Hemingway, tampouco a estupidificação de "À procura de Nemo" ("Meu! Meu! Meu! Meu!), mas apenas um elenco que me trouxe uma incómoda clarividência, fossem gritos que se assemelham a latidos que a do poste esquerdo dirigia à do poste direito da ruela que bordeja a praia, au, auu, auuu, au-au-au, auuu, auu, e que me começaram a parecer
- Tu viste-me aquela m...?(auu)
- Quê? (au)
- Aquela gaja hoje a afiambrar-se à sardinha fresca do barco das sete? (au-au-au).
- Oh, nem me fales, estou farto da tipa. Não respeita nenhum indivíduo do grande grupo de fauna Larus, e está invariavelmente embriagada à chegada à praia, com os restos de minis do Palhota.
- E afinal deus fez-nos omnívoras para quê? Para andar sempre neste stress de praia com estas bestas primárias?,
fosse aquele grasnar tão comum no box office dos sons de verão of all time, que o Don Henley até conseguiu vibrar nas cordas da guitarra, "Nobody on the road/ Nobody on the beach/ I feel it in the air/The summer's out of reach/ Empty lake, empty streets/The sun goes down alone/ I'm driving by your house/ Though I know you're not home/ But I can see you/ Your brown skin shining in the sun / You got your hair combed back and your /Sunglasses on baby/ I can tell you my love for you will still be strong/ After the boys of summer, have gone"
 

fosse com o piar, um piar visceral, sofrido e persistente que as gaivotas usam para balanços,

a verdade é que eu comecei  a entendê-las e perdi o gozo na praia ou no peixe grelhado, comecei a ouvir a perfídia das gaivotas melhor do que ouço a das pessoas sem poder dizer nada, que tinha ficado claro da última vez que não poderíamos interferir com a natureza.

Uma certa razão tinha o argumentista de "À procura de Nemo" em estupidificá-las com a repetição de "Meu, meu, meu, meu, meu", porque quando descobriram Bernardo Soares foi como se tivessem descoberto o seu modelo literário, aliás, o seu modelo de vida, com quem inciaram daquelas relações de amor-ódio que fazem o mundo mover-se (quase sempre; às vezes também dão enxaquecas metafísicas, como se verá). Senão confiram este, entre muitos diálogos que me andam a infernizar a sanidade, principalmente os que elas têm quando se afastam uns metros do mar para voar livremente entre a praia e os prédios adjacentes e sentem o arrebatamento de uma existência tão estúpida quanto livre:

- Hoje sinto-me como o Sweeney do Flann (não disse, mas na primeira noite folhearam o Flann, porque o pescador Tonico se tinha afiambrado ao livro, dados os meus encómios), um ser louco e poderso a esvoaçar entre cumeeiras do Ulster e apetece-me fazer exaltações poéticas a veados. (auuuuuu)
- E vais rematá-las com o grande poeta irlandês que terminava todos os seus poemas com "Como uma caneca de cerveja irlandesa"? (auuu)
- Ah, ah, ah, ah, cala-te! (au-au-au)
- Tens lido o livro do desassossego que o Tonico deixou no "Lourdes Maria Eu Sou De Você"?
- Sim, ao fim da tarde, quando o pessoal debanda. (auuu)
- E que tal? (au-au)
-Acho-o um bocado redundante. (auuuu)
- Como assim? (au)
- Basicamente, ele estipula o génio dele no primeiro parágrafo e depois repete sempre a mesma coisa no mesmo formato, vira-se para dentro e é o eu, conclui que é nada e mistura o quotidiano com metafísica. É isto. (auuuuuu)
- É uma tormenta. (au-au-au)
- Pior do que as que nos obrigam a ficar em terra. (auuu)
- Também não é preciso muito para ficarmos em terra (auu).
- Ah, ah, ah, ah! (au-au-au)
- Vou dar uma volta à mansarda do Vista-mar 1. (piu-piu)
- Vou contigo. (piu)
- Tens consciência de que muitos literatos como nós as duas já tentaram desmistificar o Soares e isso soa sempre a dor de corno? (auuuuu)
- Quero lá saber, eu grasno o que penso, não tenho ideia de grasnar nenhuma obra prima. (au-au).
- Mas até gostei daquela entrada sobre o ser preciso cultivar o artificial. (grasn-grasn)
- Não é isso, ele até diz que não se deve cultivar, mas ter presente, para que se possa sentir o natural. (piu-piuuuu)
- Sim, é mais ou menos isso, como é? "Gozo o céu porque  o vejo de um quarto andar de uma rua da baixa". (graasssn)
- E no campo, como tudo é ceú, não podemos ter a mesma percepção. (piu-piu-piu).
-Espera, pousa aqui um bocadinho. (auuuu)
-É, também gostei dessa. Aliás, gosto de quase tudo antes do segundo parágrafo e de ele começar em parafuso a entrar para o eu e a ser nada e levar a metafísica para a rua. Basicamente, veio a resumir nos textos acabados a tempestade da alma e isso está bem. (au-au-au-au-au)
- Como é  bonita a nossa Armação, olha que mar.(piu-piuuuu)
- É muito verdade. Mas o que se passa lá em baixo?(au-au-au-au)
- O grupo está todo excitado à volta do barco do Tonico.(auuuu)
- Excitado não, alterado, nervoso.(au-au-au)
- Está lá a ladra do barco das sete, estás a vê-la?(auuuuu)
- Pois está, armada em boa, a porca, branquinha, toda branquinha.(a-á-a-á-a-á).
-Vamos lá ver o que se passa, pergunta aí à miúda do ninho três que vai a passar por ti.(au)
- Que confusão é aquela lá em baixo? (au-au)
- Oh, é a porcaria da síndrome de estupidifcação do Nemo.(auuuu)
- Porquê? (au)
- O que é que achas? A ladra do barco das sete passou a tarde a ler excertos do livro do desassossego, o grupo está marado e ela vai debicando os restos que ficaram na areia.(au-au-au-au).

As duas gaivotas, a que se juntou a miúda do ninho três, desceram em voo picado, com  a mais afoita a deixar no ar um grasnar que questionava quem fora a porca que lhe andara a ler o livro do desassossego, mas o grupo pulava nervoso e de olhos esbugalhados em torno do dito livro aberto sobre o "Lourdes Maria Eu Sou De Você" com o síndrome de estupidicação do Nemo, repetindo a mesma palavra, o mesmo conceito, vezes sem conta e a ladra do barco das sete ia debicando os restos de comida - comida mesmo - na areia. Os velhos que vão enterrar os guarda-sóis na praia às sete da manhã para não perder o lugar estavam estupefactos: nem as rajadas de vento que lhes levam o spot perfeito se haviam revelado alguma vez tão ingratas como estas gaivotas eruditas. As três gaivotas amigas, incomodadas, voltaram à mansarda do Vista-Mar 1 em busca de novas leituras, enquanto ao longe distinguiam claramente o protesto do repetitivo do grupo, que só acalmou ia a lua cheia a sair do céu e outro dia a entrar: 

- redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redudante!, redudante, redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redudante!, redudante! (au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au!)

PG-M 2013
fonte da foto

2013-07-18

As minhas meta-merdices para-praísticas

Eu nunca ando de branco, até porque desfavorece tipos realmente grandes e eu sou um tipo realmente grande, talvez se descontarmos o herói Finn do Flann, e vocês, se andam atentos, já sabem que ando a banhos com o Flann. É que o Finn tem sorrisos do tamanho de milheirais, ombros que encaixados num desfiladeiro podem deter um exército e eu não chego a tanto. Só não sou um dos manipansos do Pessoa porque não sou baixo, mas gostava de ser um manipanso metafísico por uma manhã - no verão não é assim tão difícil. Uma vez por ano combino uns calções claros com uma camisola clara e sinto-me o Gabo num fato de verão a calcorrear Arataca. À noite tenho levado três livros debaixo do braço, peço um café comprido e leio um pedaço de cada um. De manhã, para a praia, levo outro, que ataco logo num bar de praia com os pés na areia e depois continuo sob o guarda-sol enquanto não são horas do banho. Costumo nadar em águas diáfanas em direcção a bóias amarelas distantes até o sol sair do meio do céu e enquanto nado livre tanto acho palermas os tipos que passam por mim em gaivotas de plástico a pedais que exigem um esforço descomunal para se atingir o ponto em que que valeu a pena o preço como digiro livros. Retiro um prazer bestial de boiar com o corpo quase todo fora de água, o céu azul é um paroxismo dessa treta da fusão com a natureza, que às vezes, em certos acidentes, acontece mesmo. Para poder ter mais livros e como não tenho muito dinheiro, li um nomeado do prémio Goncourt que me ofereceram nos anos em dois dias para o poder trocar por dois livros muito melhores e em saldo. Se o livro fosse bom, não me separava dele nem me acelerava. Não era, e pôs-me a pensar outra vez nos prémios literários, provavelmente por eu próprio ter sido um dos sete finalistas de um e não encontrar nisso qualquer mérito particular que não o facto de poder vender essa marca em conjunto com o pacote da minha fotografia e das minhas declarações bombásticas e das críticas simpáticas de gente realmente importante, rezando embora que ninguém se lembre de me atacar com os epítetos assassinos identificados pelo Aramburu, "o melhor da sua geração", porque nenhum ser vivo, excepto talvez o pescador Tonico de Armação, pode saber o que é a minha geração e muito menos obter pontos de comparação antes que morramos todos. Por falar do pescador Tonico de Armação, ele está todas as noites a comer com um amigo no café para onde me retiro a ler os tais três livros aos pedaços. Come tarde, sempre depois das dez da noite, costuma falar alto, raramente de generalidades, tem a pele curtida do ponteio e todas as marcas de um homem que trabalha muito e lê pouco, mas hoje notei um silêncio atrás de mim, o Tonico e o amigo detinham-se de cada vez que eu trocava de livro e esse silêncio tanto podia ser desprezo como espanto. E enquanto o Tonico comentava com a empregada Tânia o desgoverno do mundo eu lia sobre ele no Livro do Desassosego, não sei se se lembram daquela parte em que o Soares perora sobre realidade e metafísica, sobre ele próprio e o Moreira e o patrão Vasques, que afinal coloca lado a lado consigo, apesar de no ofício do pensamento se diferenciar. Pensa ele, o Soares, que fora Guedes, como há dias aqui foi mencionado. Depois passo para os ensaios do Orwell e andava a ler Flann à noite mas vai passar para as manhãs, tanto me vinha rindo dos episódios do Furriskey, principalmente daquele em que uma senhora tem um bebé de terceira idade que lhe morre com semanas, eu ri-me sozinho com o Flann a aprofundar a temática da arrumação de uma casa quando uma mãe tem um filho idoso, não, não é nenhum síndrome, é mesmo gozo do Flann sobre coboiadas irlandesas, a sociedade ainda se há-de levantar contra o facto - hoje (ainda) incontornável - de os bebés nascerem de tenra idade. O ensaio do Orwell é um meticuloso estudo sobre como os livros, afinal, custam tão pouco à face de vícios banais. Noto fascínio e estranheza dos pescadores perante a imagem de um tipo com ar de turista carregado de livros - os turistas só carregam um de cada vez. Quando regresso do café, caminhando pela ligeira rampa da rua Rosa dos Ventos, penso sempre se sou menos do que o pescador Tonico, porque tenho a certeza de que ele não é menos do que eu. Pode até acontecer que ele seja um grande leitor, mas um pescador sabe sempre parecer um pescador, mesmo que leia. Se cogito sobre a minha menoridade é porque fiz recentemente obras em casa e pode dizer-se que surpreendi a minha mulher por ter arregaçado as mangas. No final dessa semana extenuante, a cabeça parecia ter-se mudando para outra divisão do mundo, passou a ser sensível a todos os parafusos reais. Eu reclamava, meu deus, meu deus, estou a ser acometido da doença da bricolage, acordo com ânsias de ir ao LeRoy ver ferragens. Cada vez que resolvi um parafuso senti-me superior ao eu que lê, pode até dizer-se que o desprezava um bocadinho. E quando o leio na cara das empregadas do bar de praia ou do café da noite ou do pescador Tonico, mas principalmente quando regresso à noite, vitorioso, pela Rua do Rosa dos Ventos, venho é com pena de o Pessoa nunca ter conseguido resolver os passos circulares de um ego genial, como ele sofre, coitado, cheio de vontade de falar disso com o pescador Tonico, que o perceberia como guarda-livros e até a beleza do que ele diz que é sonhar a chegada do outono trabalhando na rua dos douradores e o conforto de quando se tem de acender a luz no escritório, tenho a certeza de que o pescador Tonico se riria tanto como eu do porco do Kelly a encher de muco praças e jardins de Dublin e sei, pelo olhar puro e em bruto dos miúdos das escolas, que a literatura cabe tanto nessas caras limpas e nesses olhos claros como em mãos calejadas e em peles curtidas e nos olhares sombrios dos pescadores de Armação, desde que, a uns e a outros, alguém fale, e não necessariamente seja, não necessariamente se confunda na sua existência, como Hemingway fez quando, como e enquanto lhe apeteceu. A literatura é um parafuso do Ikea, vem tudo contadinho, se falta um está tudo f., você é montador da sua própria lucidez pescador Tonico, tem cá maneira de explicar o que dos seus dias banais é superlativo para  todos nós e se no café, à noite, eu virar a minha cadeira para trás e o enfrentar, é possível que a faísca que sai do Flann O'Brien e os círculos do Pessoa e as estantes do Orwell ainda lhe sirvam de casaco para noites agrestes.
PG-M 2013
foto minha

2013-07-16

A tese de um grande amor


Faço amanhã noventa anos. Hoje enterrei a minha mulher no lugar que ela escolhera, à passagem dos sessenta e cinco e a pretexto de a morte lhe parecer mais distante e a vida mais urgente, naquela alameda do cemitério onde havia um banco debaixo de uma faia e onde eu lhe podia continuar a ler as histórias que nos comoviam. Eu só tinha pedido a deus uma coisa: que a deixasse sobreviver-me, mas não tive essa penúltima vontade cumprida. Foi um enterro bonito, e no fim do funeral libertei-me dos braços da minha filha que me queria conter no mundo dela, estávamos na paragem de autocarro e o carro fúnebre a afastar-se já sem o caixão, eu insistia em ir a pé, são só dois quarteirões até à livraria,
"Mas para onde vai agora, pai? Não é melhor ir descansar? O que é que vai ficar a fazer na city? Eu levo-o a Montauk, vá, pai, pelo menos a Great Neck, ficar na city é uma violência, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai.", dez vezes pai,
e ainda consegui caminhar os dois quarteirões que separavam o cemitério da livraria, o mais violento nem era arrastar as pernas, aprendi cedo a técnica dos passos pequenos que enterneciam as minhas visões dos velhos no central park há mais de oitenta anos, quando o "Wedding" do Altman abriu o festival de cinema de Nova Iorque e o meu pai, desiludido, o censurava à sombra de uma velha magnólia depois de aturar a minha velha mãe toda a manhã porque eu não tinha idade para ir ver estas coisas e afinal cheguei aqui, aos noventa, sem mazelas morais.
O mais violento era ocupar uma mão com a bengala e a outra com o volume da Harper da primeira edição em inglês do "Life and Fate" que a minha Ida e eu lemos toda a vida àquela luz leitosa da janela da frente de Garden Street, 1, que era o único lugar da casa onde conseguíamos suster a respiração a que sempre  nos obrigara o livro, eu já sabia, mais para o fim e porque ela já não falava, que os olhos tristes da Ida só me pediam para não ler o livro porque ela já não tinha fôlego nem ouvido para a beleza concisa do russo.

Este livro estava em nossa casa há exactamente setenta e três anos e nada me faria separar dele, nem o mundo da minha filha, que ela definiu em segredo ao meu genro deste modo,
"Viste como me olhou com aquele ar possesso?"
e o genro "Já não deve durar muito", e não, de facto, mas dito assim, bem explicado e junto a mim, como se o meu entendimento estivesse toldado por vida a mais, era amargo, há anos que eu e a Ida estávamos habituados a ser comentados a menos de um metro e a percepção de uma cabeça jovem é tão má e a urgência de atropelo tanta que se limitavam a perscrutar a nossa capacidade de percepção durante os primeiros cinco segundos, prosseguindo depois a desonra. Apesar disso, eu e a Ida ríamos desalmadamente quando, depois destas recepções familiares, explicávamos um ao outro alto, para que a idade tenra dos nossos agressores ficasse exposta ao nosso próprio ridículo, que enquanto os músculos do pescoço tentavam reagir ao desplante já a família tinha partido aliviada com as mesmas frases de balanço nos SUVs, ouvidas por genros e noras mas ditas por filhos e filhas,
"Lembra-me para nunca mais aturar os velhos."
Os nossos filhos, mesmo a filha que nos tentava esmagar com o mundo dela, amavam-nos certamente, mas eu não podia nem queria dividir a minha culpa ao meio enquanto me arrastava para a livraria, eles teriam a culpa deles inteira para reconfigurar a forma de estar no mundo porque a mãe deixara de estar e há uma inesperada resposta do corpo que inclui o próprio chão que se pisa e deixa de estar porque faz parte dos pés e os filhos, pelo menos pela arte, devem preparar-se para esse momento, não sou eu agora que vou cuidar desse vazio, eu sou o lado mutilado de um par que acaba de alcançar a eternidade, foi ela que lá chegou primeiro, eu só tenho de fazer uma ou duas coisas e já vou.

Eu não divido a minha culpa porque preciso de tê-la toda quando chegar à livraria e, enquanto sondo as novidades, confirmo pelo canto do olho que a empregada, agora também dona, ainda trabalha lá. É que, certamente para vossa surpresa, a tese de um grande amor não é sobre o meu amor, imperturbável e perene, sereno e distendido, tão imenso que provavelmente infinito, pela Ida que hoje perdi de colo, não de lembrança, porque ela, claro, mesmo acamada e limitada por causa da garrafa de oxigénio encostada à mesinha de cabeceira do lado direito da cama, me dava colo a todas as horas do dia, esperava que eu dobrasse o corpo - e agora demorava tanto -, e quando eu abandonava toda a gravidade e me abandonava a mim de alma entre os lençóis ao encontro dos nós dos dedos dela, ela retirava o bocal da máscara para que tudo fosse nosso e sem intrusos, ela formava o colo e acariciava-me o cabelo dizendo sempre, nos últimos vinte anos, és um menino pequeno de cabelo branco, nunca vais crescer.
Hoje, por um minuto, um só minuto, quando as cordas de poente desceram mais depressa do que as de nascente e o caixão ficou inclinado para a cova, senti-me velho e inquieto.


Aquela livraria abriu tínhamos nós trinta anos.
A filha do dono, Penelope, tinha quinze e circulava entre os livros afastando-nos a mão das mediocridades. Aquilo impressionava-me tanto, e tanto impressionou a Ida, e tanto impressionava todos os que tinham a sorte de a ter entre as estantes, esperando o que nos trouxesse. Aos vinte anos começou a falar fluentemente de literatura, mas continuou essencialmente um silencioso anjo literário. Aos vinte e cinco fiz os meus quarenta e sabia que uma sexta-feira sem ela me provocava dores torácicas que eu incialmente identifiquei como alguma ansidedade ou problema cardíaco porque estava desabituado de dores torácicas não motivadas, até concluir, intimamente, muito intimamente, que vivia um amor paralelo e impossível.

Sei que a Ida, como todas as grandes mulheres, se tivesse tido outra morte, dessas que permitem a consciência de chamar quem mais amamos para lhes dizer coisas definitivas, me teria dito para não guardar mais nada para mim e que sabia, pois claro que sabia, como eu sabia do Karl, o primeiro amor dela, e sempre o geri com a minha limitada sabedoria, ao ponto de no funeral do Karl ter beijado os lábios da minha mulher sem palavras e nos olhos ter posto a mesma frase, que sei, sempre soube, pois claro, que nada nos pode curar do primeiro amor e que se convive erguido com amores assim, impossíveis para gente séria. Mas a Ida extingiui-se como uma vela no último dia, não foi a tempo de mais nada senão extinguir-se como todos desejam, comigo ao lado a apertar-lhe a mão que finalmente me desenformara do colo.

Penelope tem agora setenta e cinco anos e é dona e empregada de si própria. Ainda tem cabelos compridos impróprios para a idade que pinta de preto, e a frase é mesmo assim. Penelope nunca abandonara a estética azeda do negro para que os homens pudessem suportar mais facilmente os seus olhos verdes.

Chegar sozinho à livraria e Penelope estar entre as estantes foi perfeito. Já posso morrer. Não teria sido preciso explicar à minha Ida, nem a Penelope, que o amor pela livreira não incluía o corpo, era só uma rotina tão impossível de desertar como o próprio amor que se instalara no peito em paralelo com outros maiores. Agora Penelope, depois de modernizar o espaço, também servia cafés e com os cafés trazia os livros, como sempre, até porque a minha idade já não permitia grandes périplos entre estantes. Nesse dia, pela primeira e última vez, sentou-se em frente a mim do outro lado da mesa que era um perfeito círculo branco. Trazia a mesma edição da Harper do "Life and fate" que vira em nós e pousou-o cabeça com cabeça com o meu exemplar, como se encostasse a dela à minha. Pegou-me na mão velha e nada linear com as dela, sempre perfeitas, e eu disse, antecipando-me,
"Havia sextas-feiras em que eu sentia um som sumido na garganta e quando saía daqui sem o dizer ia com uma dor tão difícil de suportar." E depois a Ida dava-me colo, como se quisesse dizer que para o amor dela não havia limites.
"Mas para o nosso sempre houve"
Quando Penelope disse isto, "nosso", eu fixei-a bem nos olhos e a ansidedade, uma ansiedade trazida à superfície do peito por mais de setenta anos, desapareceu, eu não queria beijá-la nem ser beijado, não queria tocar nem ser  tocado, apenas a compreensão de que a amei toda a vida e assim continuaria, no dia da morte da minha mulher tentando gerir o livro e a bengala e os passos pequenos que eu aprendera com os velhos do central park enquanto o meu pai verberava o Altman debaixo de uma magnólia.
E eu, em frente à bela pedra tumular de Ida, no banco debaixo da faia, li assim do Life and Fate:

“There was something terrible, but also something sad and melancholy in this long cry uttered by the Russian infantry as they staged an attack. As it crossed the cold water, it lost its fervour. Instead of valour or gallantry, you could hear the sadness of a soul parting with everything that it loved, calling on its nearest and dearest to wake up, to lift their head from their pillows and hear for the last time the voice of a father, a husband, a son or a brother...”

Quando eu morri de amor um ano depois, Penelope veio despedir-se e ficou para o fim com um ramo de malmequeres, ficou mais de uma hora depois de todos terem saído e eu sei que teria gostado muito de dar o ponto final nas costuras dos nossos destinos, se cá estivesse. Assim, Penelope ficou sujeita ao mundo comprimido da minha filha, que se lhe dirigiu neste termos
"Olá, está boa?Por aqui?"
Mas eu sei que a minha filha, sem engenho para em vida prestar culto aos meus amores, me saberá amar na morte e um dia ouvirá do filho livreiro de Penelope a história que nem eu, nem Ida, nem a própria Penelope, algum dia contaram sobre a terra, a tese de um grande amor dentro da vida de outro. Que é uma tese sobre a eternidade.

2013-07-15

Vicente Guedes a tremoços e ortónimos


Qual Sr. Furriskey do Flann O'Brien, mas isento de maldade, Vicente Guedes nascera com cerca de vinte e cinco anos e entrara no mundo provido de memória porém nenhuma experiência pessoal que a justificasse.
Quando chegou ao Bar do Pedro em Armação pediu dois cheeseburguers com cebola frita mas só pagou o dele e sentou-se de costas para mim com os pés na areia.
- Coma, Coma,
ordenou com  displicência e o indicador a cortar o ar como se procurasse anzóis.
- João Zamith. - disse Vicente.
- João Zamith o quê?
- Se eu me chamasse isso, o Nogueira não me tinha deixado cair.
Perguntei-lhe se ainda se desassocegava nesta forma arcaica, com menos esses e um cê a mais.
- O Nogueira descobriu a palavra assim, desassocego, por isso sim, desassocego-me mais do que me desassossego. O Nogueira também não me tinha deixado cair se o meu nome fosse burguês, como essse Zamith, mas Vicente Guedes nunca teve uma, uma única e parca chance, de vingar. Mais depressa vingava a Maria José corcunda do  Largo de Camões. Ou o Anthony Grondhouse, que com o seu caderninho de notas em branco percorria as esplanadas de Paris a explicar o silêncio.
- Zamith não é burguês.
E mais dedos para me desperdiçar, tem?
Tradução (muito Flann, muito Flann): é irrelevante que seja ou não.
Mais mãos a indicar o céu com os pares a olhar para as mãos.
- O Nogueira, a bem da verdade, nunca teve a arte de um Gepetto, e tinha tanto jeito para cuidar de heterónimos como a Moby Dick de Ahabs.
- Vais ao banho, Vicente?
- Nunca vou a banhos quando estou inquieto.
Puxou da Guiness e sorveu o líquido espesso e lambeu o bigode de espuma de centeio.
- Tu nasceste inquieto. Estares na digestão teria sido uma explicação bem melhor.
- Mas eu não digiro cheeseburguers.
- Porquê?
- Não merecem ser digeridos. Foi uma decisão que tomei quando o Nogueira me deixou o Desassocego nas mãos até o Zenith querer uma conversa muito particular para me explicar porque é que eu não entrava no livro.
- Vês, devia ter sido o Zamith.
- Não é Zamith, é Zenith.
- Se mudares de ideias e quiseres calções de praia eles trocam aí na loja em frente numa casota perfeita para o efeito.
- Perfeita parao efeito?
- Perfeita para o efeito.
- A Xana Todo-Terreno perdeu coisas na estação de metro dos anjos.
- Quase todos os frequentadores do metro de Lisboa se dedicam as perder as coisas nessa estação.
- Não há anjos no metro.
- Queres um café?
- Claro, não foi para isso que cá viemos?
Puxou de uma cigarrilha e foi pedir um gelado de máquina de morango e baunilha.
- Onde fica a tabacaria?
- Junto ao forte, na rua pedonal.
- Tenho de ir.
- Nesse caso, o João Zamith manda cumprimentos.
- Quem é o João Zamith?
- O centésimo heterónimo.
- Estropiado?
- Inteiro.
- Havia o noventa e sete? E o noventa e oito?
- Não, pá, estou a brincar contigo. Não é ninguém. No máximo um ortónimo.
- Pois, o problema é esse. Se ninguém ocupa espaço.
- Eu também escrevi no título tremoços e tu não comeste nenhum.
- Não gosto de tremoço desde a segunda guerra mundial por causa do revisionismo.
- A tabacaria está fechada a esta hora.
- Uma tabacaria, esta tabacaria, nunca fecha. Nunca.

Nunca. Nunca mais vi o Vicente. Nessa tarde, na esplanada do Bar do Pedro, um casal de alemães discutiu com toda uma família de holandeses se a heteronímia do Nogueira era só fraqueza e se com açúcares ele ia lá. Um jovem espanhol reclamava indignado que os tremoços tivessem esgotado e este português pensava se fazia sentido discuir o coito dos anjos. No chão, caído, não o grande envelope do Livro do Desassossego, mas um bloco de notas que abria com a grafia arcaica. Pessoas que também sofrem nos vários subsistemas privados de saúde faziam co-pagamentos sem saber do que se tratava e uma senhora explicou-me que se pode conversar de tudo no Mercado da Ribeira, principalmente de heteronímia sem temer a indiferença do povo. Eu encolhi os ombros e fui comprar um jornal desportivo à tabacaria.

PG-M 2013
fonte da foto

O prazer de fazer 80

Oliver Sacks e os 80 anos. Quero ser assim quando crescer. (junto original do NYT - clicar sobre a foto abaixo, mas li-o no EL País, para quem preferir em espanhol)
 

A crítica da crítica

A lucidez de Aramburu sobre a crítica literária. Encomendado por mim não podia ser mais perfeito. Para ler, reler, lembrar e relembrar (clicar em cima da imagem para ler)

2013-07-11

A explicação da mulher que apaga as outras


Na escola ela, alta, elegante, deslocava-se ao meu lado como se não tivesse peso, mas tinha, porque era tudo para mim.
Já eu era mesmo pesado e atava os pés ao andar mas era leve para ela, leve e transparente, não era nada, mesmo nada, e, no meio da minha estupidez, sempre tive a esperteza para  aprisionar a esperança de que um dia - por exaustão -  ela se apaixonaria mim - o meu pai, obeso como eu, avisou-me no leito da morte, tinha eu treze anos, a adolescência vai ser o mais duro deserto da tua vida, nenhuma adolescente algum dia se apaixonou ou apaixonará pelo lado de dentro de um rapaz.
Quando ela trazia o vestido preto e as pernas dela por trás eram tão perfeitas que eu era assombrado sempre pela mesma imagem antes de me aproximar e lhe dizer olá, eu de joelhos abraçado à cinta fina dela a chorar de raiva com as mãos sobre um joelhinho e ela, vá lá, só um beijinho no esquerdo, mas tira a mão, tá?, e eu a aproximar-me a morder os lábios e a dizer olá, e ela
- Estás tão vermelho, Johnny.
e eu três vezes, e as três vezes a gaguejar, é o calor, Rita, é o calor, é o  calor.
- Calor em Dezembro?
- É o ar condicionado, Rita, o ar condicionado, o ar condicionado.
Ela torcia os lábios, eu mordia os meus e continuava o serviço público que ela nunca me agradecia.
Amparar-lhe a solidão.

Quando as amigas da Rita perceberam que se apagavam atrás dela e ninguém as via, afastaram-se. E se ela se chegava nos intervalos tudo o que fazia e dizia era mais bonito e mais bem encenado, e a Rita deixou de as ver e então chegaram-se as inimigas que a queriam mimetizar, mas mesmo as inimigas se apagavam pouco depois, e ao princípio, quando a Rita tomou formas de mulher, os homens vinham todos como ímanes, mas começaram a ter um padrão previsível e isso cansava a Rita e cansava os homens, que sabiam que junto à Rita eram sempre muitos e que tê-la a ela significava perder todas as outras, e com o crescimento vai-se também a pureza e subitamente a Rita, que era boa de coração, era a culpada de tudo, era culpada de ser boa aluna, bonita, alta, elegante, e havia celebrações boçais quando perdia a fotogenia num momento espontâneo. Os homens, certos de que a Rita não os queria e para impressionar as amigas e as inimigas, perderam a circunstância e a pouca delicadeza que tinham, não lhe exaltavam a beleza mas apenas a cópula, todas as cópulas potenciais, e se ela lhes falava era puta, e se não falava também.

A Rita ficou sozinha, execepto o gordo.
Mas como o gordo não era ninguém,
a Rita ficou mesmo sozinha.

Quando a Rita encontrou o amor da sua vida, mais pequeno e menos bonito do que se esperaria numa Rita, e que à custa de tanto mentir (és como uma irmã para mim, não tenho nada de sexual contigo) a conquistou e um dia foi beijado e desviou a cara e afastou-a, ele tinha planeado isto ao espelho durante anos, um dia, se acontecer, afasto-me e levo a situação ao limite de ela pensar que eu não a quero e aí a solidão já será tão esmagadora que pode acontecer que a Rita me venha a amar, isto pensava o pequenito, não o gordo, que o gordo a Rita só reencontrará daqui a pouco, quando um dia o amor da vida dela a conquistou, a Rita foi mãe duas vezes e ficou gorda e deixou de apagar as outras.

A Rita, quando tinha tempo entre os dois rebentos, sorria ao espelho por ter deixado de apagar as outras e assim ter acesso a amigas novas, não velhas, porque o desprezo misturado com felicidade das amigas e inimigas no jantar dos quinze anos de turma a empurrou para o ginásio para recuperar a forma e voltaram os homens como ímanes a dizer sempre as mesmas coisas no mesmo padrão que raramente é elegante, e embora isso seja o assumido ridículo do masculino, nem a Rita, nem nenhuma mulher, aguentam mais do que alguns. Depois cansam-se.

Um dia a Rita encontra o gordo no facebook.
Não, não é um conto de fadas, o gordo ainda era gordo e a Rita voltara a ser deslumbrante. Trocaram palavras amigas, mas só depois dos quarenta anos, numa esplanada de praia e de óculos escuros, ocorreu à Rita que o gordo lhe amapara a solidão. Quando lho quis dizer, ele não quis ouvir. Diz-me no ginásio, se tiveres coragem. Tu andas no ginásio? Há alguns anos, Rita. O gordo ainda era leve e transparente.

No ginásio, entre aulas e sessões com nomes estrangeiros muito saudáveis, reencontraram-se para tomar um café.
O gordo quarentão era mais interessante e bem humorado, pensou a Rita, e disse-lhe tudo do fundo e olhou para dentro dele e ele, engraçado, mimetizou a visão que tinha todas as manhãs aos quinze anos, ajoelhou-se como se se fosse declarar e disse-lhe que se pusesse de pé. Ele, sem deixar de rir, abraçou-a pela cintura. O que é isto?, perguntou a Rita, preparando a gargalhada. Tu dizias, disse o gordo, vá lá, só um beijinho no esquerdo, e eu dava, mas tudo o que viste sempre foi a minha cabeça grande suada e vermelha.

O gordo deu um beijo curto no joelho esquerdo da Rita, ela a gargalhada, afastando-o com ternura.

O pequenito apareceu, o que vem a ser isto?, a Rita apresentou-lho e ele deu-lhe um abraço, temos falado muito de ti, acho que o agradecimento não vem tarde, pois não?

Talvez não.

Agora a Rita pensa que, com cinquenta e tais já não apaga as outras. Mas apaga. Só que isso, com dois filhos adolescentes e um amigo gordo e um marido pequenito, tem o brilho polido que aos quinze anos não cabe no buraco negro.
Na escola ela, alta, elegante, deslocava-se ao meu lado como se não tivesse peso, mas tinha, porque era tudo para mim.

Ainda é. Mas um homem aprende a viver com isso.
E se falar, se escrever, se exorcizar os assombros num cena de amigos quarentões num café de ginásio, se explicar que as mulheres que apagam as outras  nos tomam pelos lábios que se mordem pela contenção, como na arte, sobrevive. Elas também.

PG-M 2013

2013-07-10

No dia dos meus anos


se me quiseres comer
na unidade da língua escrita
situada entre dois tempos
brancos
se me quiseres
profanar
com o canto das palavras
esquece a totalidade

do futuro

nada foi bom
nem tampouco te conheço
sou só um êmbolo frio
dois dedos da tua mão
o canalha sem regresso

no dia dos meus anos

guarda-me os lábios gretados
secos de solidão
acolhe-me a boca limpa
de pecados
não te consentirei a língua
inescrita
nem saliva nem perfume
não ficarás nua nem eu
dentro de ti

porque este amor é amplo, talvez
do infinito
porque este amante é plano, talvez
o incumprido, talvez
o infusível, talvez
o incombusto, talvez
o insepulto, mas

permite-te o proibido

sê áspera e insolente
transforma o abraço em beijo
o beijo em penetração
a penetração em grito
(e já sem frases nem silêncios nem templos
em branco)
o grito em penetração
a penetração em beijo
o beijo no longo braço
que me entra pela glote
e me sangra de venenos

no dia
dos meus anos

PG-M 2013 (um 10 de Julho, claro)
fonte da foto

2013-07-02

Lore & Saskia e o não dito


Parece que grassa para aí uma "corrente" irritada com a relevância dada ao não dito na arte, e neste artigo penso na literatura e no cinema. Mas o não dito, para o observador atento, quando acompanhado de pistas tão subtis quanto relevantes e simbólicas, como as que Cate Shortland (realizadora australiana - o filme é uma produção alemã e australiana, mas não há nada de australiano no filme além do dinheiro e da realizadora) deixa em "Lore", pode tornar-se bem mais avassalador do que o dito a mais, porque no não dito somos nós que nos implicamos. No filme, no livro, o preenchimento feito pelo observador releva-se uma experiência sempre poderosa. E neste filme vemos uma espécie de suspensão da beleza sem que nunca se abdique da luz e da cor, sendo que a beleza nos é devolvida de dentro para fora. Com o não dito trabalha a (quase estreante) actriz de vinte anos Saskia Rosendahl, que, assim mesmo, sem mais, compõe uma personagem que é quase um automático inesquecível. A forma como usa a espessura e a pressão dos lábios, que vão perdendo a matéria com que estavam pintados mas mantêm a dignidade, o corpo, que é tão frágil quanto forte, tão magro quanto sensual, e principalmente a doçura áspera de um olhar doente da "perfeição" de Hitler, em que Lorelei é educada sem ondas até ao dia em que a guerra acaba e o pai queima documentos e eutanasia o cão e gradualmente Lore vai descobrindo, proferindo as palavras oficiais do discurso nazi, mas contendo no olhar a certeza do que aprende: que afinal os assassinos eram eles. E Lore transporta essa dualidade mesmo contra o seu salvador ou amparo Thomas, por quem se apaixona num silêncio negro de sofrimento e fome na fuga da Alemanha ocupada pelos aliados, com uma visita faltal à parte russa, onde se faz tiro ao alvo a alemães "puros". Thomas percebe sempre que a bondade e a pureza de Lore se sobrepõem às palavras. Eu sou dos que discorda que está tudo dito e contado sobre o holocausto, tanto que até preparo um livro há anos para contar mais uma historia que não pode ficar por contar e ainda há muitas histórias por contar. Talvez cinco milhões e picos. O holocausto não é sequer um paradigma da maldade, é a evidência da nossa capacidade para ultrapassar os  limites, o que quer dizer que o contemos em nós. O mal. Lore é, apesar de uma adolescente arrogante, uma criança inocente e perdida num abismo que sempre lhe pareceu o modelo perfeito da felicidade, ainda que se saiba que, por mais que os oficiais nazis protegessem as suas famílias, o cheiro da carne humana queimada sempre passou as paredes dessas casas, de forma figurada ou real, não interessa, assim como nas terras onde essas atrocidades foram cometidas se infiltrou, não o choro, nem sequer o medo, mas o húmus humano, que afinal é representado numa província de lama que Lore e os irmãos têm de atravessar antes de chegar à casa da avó, que supostamente os colocará a salvo. Mas há todo um filme não dito (claro) que começa precisamente com os créditos finais. Obviamente imperdível. Saskia merece todos os prémios que já teve e até os que não teve. Vão vê-la e digam-me que não tenho razão.


PG-M 2013