2013-06-30

segunda bersônhe do Improbiso - revista e aumentada

Ontem, 29 de Junho, foram 20 escritores com poucos repetentes no "Não há feira, mas há escritores". Eu estava fora de cartaz, mas a amizade de um convite do L.M. Rocha trouxe-me de volta (ainda que sem tempo, o que me impediu de desfrutar de todos:), para dedicar mais umas palavrinhas aos bons autores e leitores e livreiro. Fica a segunda bersônhe, bem diferente, como prometido.

"Eu resolbi fazer uma homenagem aos colegas escritores que estão no cartaz pra hoje, e bou fazer isto com o sotaque daqui. Então é assim:

Leio “no dia em que fugimos tu num estabas” do Albim, c'hoje num beio mas há-de bir, quando apanho o metro em Santo Obídio, mas quando me lembro qu'o meu primo de Lisboa chamou ao nosso metro um eléctrico, “ó Pedro, só tens eléctricos, metro mesmo não usas?”, e eu a explicar qu'o nosso metro até acelera na linha do estádio do Dragom, e ele a insistir naquele sotaque limpinho “está bem, está bem, conta-me dessas!” e eu “oube lá, deixa-me sossegado” e ele “eléctrico, eléctrico!” e eu “diz lá isso outra bez”, e ele calado, e eu “anda lá!”,

e ele outra bez “eléctrico, eléctrico!” e eu “aiiiiiiiiiiiiiiiiiiieeeeee”.

mas quando apanho o metro mais abaixo, em General Torres, num leio o Albim, leio o Prelúdio da Inês Botelho, só qu' ainda num passei do princípio por cósa do próprio nome do libro, Prelúdio, até porque também me lembro dos pintainhos da esquina da Luís de Camões com a Abenida da República, ali mesmo, quando ainda habia árbores no meio e paralelos na rua e os carros passabam na ponte de cima, a minha abó trazia-me pela mão p'ra ber os comboios da ponte da abenida e dizia sempre c'uma boz fininha “olh' ós pintainhos, Pedrinho”, porque eu era mais pequenino do qu'isto que sou agora, e eu “óóóóóóó”, podia ser a quinquagéssima bez qu'os bia qu'era sempre “óóóóóóóó”, porqu'eu olhaba pr'a eles e eram sempre tão bonitos e redondinhos e amarelos c'à medida c'os anos passaram e muito antes de eu ser inteligente pensaba sempre c'o raio dos pintainhos da esquina da Luís Camões nunca cresciam, coitadinhos, por cósa daquela lâmpada bremelha que os deixaba mesmo, mas mesmo muito mal-dispostos e ourados.

Leio “A escraba de córdoba” do Alberto S. Santos um bocadinho abaixo dos pintainhos e antes de bir pró Porto, porque dibido uma francesinha com a minha irmã no Mokaba, mas a sostra da minha irmã nunca se lebanta a horas, é sempre às três da tarde, e eu, claro,
como a minha metade, num tem nada a ber! O que bale é qu'o Pintas do Mokaba lh'aquece o molho à parte. E eu: entom, rapariga? E ela: qu'é que queres?”

Leio o Tamujal do Ibo Machado quando estou à espera qu'o meu irmão arrume a mesa do lanche da nossa casa de Fernão Magalhães, e ele só arruma depois d'eu abisar aos berros,
“ollha só pr'á labagice que tu fizeste aí, Edgar!"

Leio a memória do Germano a pairar sobre a Ribeira, quando a minha mãe me manda buscar cruzetas para pendurar camisas e eu respondo sempre fuoooooogo!

Leio o segundo bolume das Lendas do Porto do Joel Cleto, o José Hermano Saraiba do Porto,
e é o segundo bolume porque eu num encontrei o primeiro no alfarrabista ali na rua das flores, ele até me disse “o primeiro é recente, só numa livraria normal” e eu “isso num interessa, senhor,
o senhor está sempre a queixar-se dos fundos e agora num tem fundos?”

Leio a metade maior da Julieta Monginho,
porque a mais pequena me fica à desamão e num me dá jeito nenhum.

Leio o Palácio de Cristal do Marmelo no Pabilhão Rosa Mota entre os pabões que me moem o juízo quando eu quero ir atrás dos patos e ber a bista prá ponte da Arrábida.

Leio os ano dourados do Marco Mendes, que diz que compila desenhos à vista dos últimos dez anos, e eu fico a pensar qu'o verbo compilar debia ser proibido no presente do indicativo aqui no Porto, qu' a cabeça do tripeiro num pára de endrominar, e como isto num tem nada a ber com os desenhos marabilhosos do Marco, deixo queimar o estrugido que estaba ó lume e dou cabo da sertã que era dos chineses mas num importa, até daba para induçom, bamos lá a ber, se eu comprei uma sertã nos chineses era só para comprar uma, não duas, porque duas é praticamente o dobro.

Leio p'ra maiores de dezasseis da Ana Saldanha, porque aqui no Porto ninguém lê nada para menores de dezasseis,
no Colégio dos Carbalhos íamos ao quiosque mesmo ao lado só pra ber as capas da Gina
e quando finalmente eu e dois amigos ganhámos coragem para comprar uma Pentóuse em Espinho foi só pra ber as fotografias da Madonna nua nas dunas de francelos a comer batatas fritas, mas ficamos desiludidos porque bimos que estaba cheia de músculos e já num era nada laica bârjin.

Leio a última criada de salazar do Miguel Carvalho, e isso faz-me lembrar a criada da minha mãe quando eu descobri as coisas bonitas, tinha uns sete anos, ela sempre a dizer, teja queto menino!, tire a mão daí menino, saia daí menino, mas uma bez, olha, prontos! A berdade é que só me curei depois de ter sido expulso da natação do Flubial e do Futebol Clube do Porto por apalpar as meninas em apneia.

Leio as cores do bento do Miguel Miranda na Foz, a comer um croissant da Doce Mar no homem do leme c'uma manta.

Leio o Nuno Camarneiro porque no meu peito num cabem pássaros, mas cabe muito amor, e a bem dezer uma pessoa que se chama Camarneiro num é como um Silva ou um Sousa, num pode esconder a família do radar dos amigos tripeiros, e quando eu descobri que a Rita Camarneiro faz um programa com o Unas na Sic Radical, mau!!!, entom bamos lá a ber se a moça tem jeito, e até tem, e depois quando eu pegaba no libro do Nuno e bia Camarneiro lembraba-me logo que tinha grabado o programa da Rita na boxe da cabobisão e num lia nada, foi então que num dia de saraibada a luz foi abaixo e num habia televisão nem boxe nem nada e eu bim para a beira da janela e li os dois libros do irmão da Rita Camarneiro duma só bez e gostei muito.

Leio as bozes no escuro do Rui Bieira na mesa do fundo da Arcádia, onde eu declarei amor à minha mulher de uma forma muito estranha, ora bê lá se percebes o que está aí escrito, era o livro de introdução ao direito do batista machado a falar de hermenêutica e ela disse num entendo e eu disse também eu num entendo, e depois beio o empregado da Arcádia e eu disse quero um café e ele, aqui só servimos lanches, e eu, quero um café e um lanche então.

Leio os papas de sarrabulho do Rocha na pensão que já num há na Mártires da Pátria em frente ao Lumiére, e sabem o que tinha essa pensão?, tinha uma língua de bitela do carago.

Leio sempre Sónia Cravo deste lado do mar bremelho, ou seja, do lado de cá dos lampiões quando bou ao estádio do dragom e me lembro da bancada norte do Estádio das Antas, ia eu pequenino mais o meu pai, mesmo antes de ber o Pabão cair e eu a lebantar-me da bicicleta, caí binte bezes no pabilhão américo de sá enquanto o meu pai treinaba boleibol e eu sacaba cabalos sem rodinhas.

Quando leio A filha rebelde do Baldemar Cruz num consigo deixar de pensar na sostra da minha irmã.

Leio Por ti resistirei do Juca Magalhães no plebeu d'abintes, mas num resistirei nada porque o Tono maluco senta-se sempre à minha frente e fala p'los cotobelos de coisas mirabolantes, mas o problema num são as coisas mirabolantes porque os escritores são mirabolantes, o problema são os perdigotos do Tono, que tem uma falha nos dentes da frente, coitado, e eu “ó Tono, é preciso guarda-chuba?

Leio o Filho de Mil homens do Balter Hugo mãe porque os tripeiros são sempre pais de mil filhos e por cósa daquela cigana na estação de são bento que me chamou um dia tinha eu dezasseis anos mas já era bom rapaz e tão bem alimentado como hoje, e disse-me ela,
anda cá malandro que me fizeste um filho”,
e a estação toda parou e nos olhos dos tripeiros bia-se aquele sorriso que num se explica mas é basicamente igual ao “Fuôoooood” do emplastro da Madalena, até que beio uma senhora e me pôs a mão no lombo e disse, “deixe lá, menino, qu'ela é maluca, bá-se embora, bá-se embora”.

Leio quando bou arrumar carros prós pobeiros, leio quando m' atiro do tabuleiro de baixo pró Douro, leio enquanto tento beijar a primeira namorada nas escadinhas da Bitória durante o fogo de São João, leio no prado do repouso a apanhar a ponte do comboio e o douro por uma nesga, até lia no meu alfaiate em Santa Catarina, que me fez um fato do carvalho de um pano do Ermenegildo para eu me casar que até o emplastro quando me biu na Madalena bestido disse "Fuôôôd......" e eu depois de ficar gordo e num caber no fato mudei a etiqueta do Ermenegildo para todos os casacos que lebo quando bou a Lisboa e digo assim, Bera, troca-me a etiqueta e ela troca.

Lebo o livro do Pedro Guilherme-Moreira, aquele muito jeitoso sobre o 11 de Setembro, aquele o libro, num é o Pedro Guilherme-Moreira, lebo “a manhã do mundo” pró chão da Rua Cimo de Bila que está sempre à sombra, porque eu nasci lá, na Cimo de Bila e o meu abô tinha logo abaixo, na Rua Chã que é pegada à do Loureiro dos rádios de pilhas, o meu abô tinha a Casa Caius e bendia tabaco e harmónicas, daba-me sempre uma harmónica das baratas quando eu ia lá e me estendia no balcão de madeira que era maior, só o balcão, do qu'uma loja de shopping, mas quando eu como adbogado fiz o contrato de trespasse da Casa Caius aos chineses só num chorei porque num calhou, mas o meu abô disse bais ser escritor pega lá dois contos e bai comprar chocolates,
estás a ber a feira do libro ali em baixo?, um dia bais-te sentar numa mesa para assinar libros e ninguém bem, ninguém bem, mas isso é que é ser escritor, filho, trabalha e fica à espera, trabalha e fica à espera, trabalha e fica à espera,
o meu abô num sabia que um dia nos iam tirar a feira, mas num tiram mais nada, num senhor, disse o meu abô, podem tirar as barracas dos libros, mas num nos hão-de tirar a alma e tu bai lá, filho, tu senta-te com os teus escritores e fala de quando binhas para cá pequenino e te encostabas ao granito da biela do anjo com os braços no ar e gritabas "O Porto é meu, abô, o Porto é meu!" e eu dizia-te sai lá daí, rapaz!
 
Faz assim agora meu filho, bai lá abaixo e senta-te com os escritores e lê-me aquele poema do Porto, mas num digas aquela coisa feia no final, diz antes curta,
e o fim do poema era assim

Amamos a insultar./ Por isso, num há cicuta/ Nem desbio de conduta,/ Quando os comboios apitam/ E em Campanhã te gritam/ “Meu Porto filho da curta!
Bibó Porto!
 
PG-M 2013, foto de Cesário Costa

2013-06-23

O "improbiso" tripeiro num levantamento de escritores

Como se costuma dizer, a pedido de várias famílias, deixo-vos  "improviso" de 22 de Junho de 2013:
" Leio sempre o cão da Adélia quando bou arrumar carros prós pobeiros.
Leio o pintor do Afonso debaixo do laba-louças da casa dos meus pais em Fernão Magalhães.
Leio os pretos da Aida sempre que me atiro do tabuleiro de baixo pró Douro.
Leio como tu, Ana Luísa,
enquanto tento beijar a primeira namorada nas escadinhas da Bitória, durante o fogo de São João.
Leio a Morte no Estádio do Biegas na bancada norte do Estádio das Antas,
com muito cuidado para num tomar nada em lado nenhum, enquanto dou a mão ao meu pai, mesmo antes de ber o Pabão cair e eu a lebantar-me da bicicleta, caí binte bezes no pabilhão américo de sá enquanto o meu pai treinaba boleibol e eu sacaba cabalos sem rodinhas.
Leio a memória do Germano a pairar sobre a Ribeira, quando a minha mãe me manda buscar cruzetas para pendurar camisas e eu respondo sempre fuoooooogo!
Leio este poema foi escrito ontem do Barreto Guimarães, este poema foi escrito ontem no prado do repouso a apanhar a ponte do comboio, a ponte do comboio e o douro por uma nesga.
Leio os papas, "os" papas, de sarrabulho do Rocha na pensão que já num há na Mártires da Pátria em frente ao Lumiére
e sabem o que tinha a pensão?, tinha uma língua de bitela do carago.
Leio o Palácio de Cristal do Marmelo no Pabilhão Rosa Mota entre os pabões que me moem o juízo quando eu quero ir atrás dos patos antes de ber a bista prá ponte da Arrábida.
Leio as cores do bento do Miguel Miranda na Foz, a comer um croissant da Doce Mar no homem do leme c'uma manta.
Leio os anagramas do Zimmler ali numa mesa da Arcádia, onde eu declarei amor à minha mulher de uma forma muito estranha, ora bê lá se percebes o que está escrito aí, era o livro de introdução ao direito do batista machado a falar de hermenêutica e ela disse num entendo e eu disse também eu num entendo, e depois beio o empregado da Arcádia e eu disse quero um café e ele, aqui só servimos lanches, e eu, quero um café e um lanche então.
E lebo a fábrica do tempo da Sílbia para o concerto do Rui Beloso de 87 no Coliseu quando ele canta assim: quem bem e atrabessa o rio, junto à serra do Pilar, bê um belho casario, que se estende até ao mar.
Lebo o corte e costura do Paulo Ferreira ao meu alfaiate em Santa Catarina, que me fez um fato do carvalho de um pano do Ermenegildo para eu me casar que até o emplastro quando me biu na Madalena bestido disse "Fuôôôd......" e eu depois de ficar gordo e num caber no fato mudei a etiqueta do Ermenegildo para todos os casacos que lebo quando bou a Lisboa e digo assim, Bera, troca-me a etiqueta e ela troca.
Lebo o livro do Pedro Guilherme-Moreira, aquele muito jeitoso sobre o 11 de Setembro, aquele o libro,
num é o Pedro Guilherme-Moreira,
lebo o libro às escolas quando sou eu que bou falar às escolas porque eu sou o Pedro Guilherme-Moreira
e é por isso que lebo o libro que o pessoal de Baladares diz que é o amanhã do mundo, num é "a" manhã, é o amanhã, mas quando lebo o libro pra ler
sento-me no chão da Cimo de Bila que está sempre à sombra, porque eu nasci lá, na Cimo de Bila e o meu abô tinha logo abaixo, na Rua Chã que é pegada à do Loureiro dos rádios de pilhas, o meu abô tinha a Casa Caius e bendia tabaco e harmónicas, daba-me uma harmónica sempre que eu ia lá e me estendia no balcão de madeira que era maior, só o balcão,
do que uma loja média de shopping hoje em dia, quando eu ia de boleia com o meu abô na 4L castanha saía em frente à polícia e binha pelo túnel e pela biela e é por isso que quando eu como adbogado fiz o contrato de trespasse da Casa Caius aos chineses só num chorei porque num calhou e o meu abô me dizia bais ser escritor pega lá dois contos e bai comprar chocolates,
estás a ber a feira do libro ali em baixo?, um dia bais-te sentar numa mesa para assinar libros e ninguém bem, ninguém bem, mas isso é que é ser escritor, filho, trabalha e fica à espera, trabalha e fica à espera, trabalha e fica à espera,
o meu abô num sabia que um dia os senhores espertos nos iam tirar a feira, mas num tiram mais nada, num senhor, e o meu abô até ia à Lamiré lá em cima na Rua da Alegria dos Azeitonas entregar instrumentos e dizia sempre para o senhor só pagar quando pudesse, assim o meu abô, que era honrado e tinhas contas à moda do Porto, ia ber este deserto nos Aliados e habia de dizer assim: podem tirar as barracas dos libros, mas num nos hão-de tirar a alma e tu bai lá, filho, tu senta-te na mesma com os teus escritores e fala de quando binhas para cá pequenino e te punhas naqueles prepósitos encostado às paredes de granito das casas da biela do anjo, de pé e de bruços encostabas-te às paredes de granito e lebantabas os braços e gritabas "O Porto é meu, abô, o Porto é meu!" e eu dizia-te sai lá daí, mas num queria nada, num queria nada que saísses, faz assim agora meu filho, lebanta os braços encostado a uma parede da praça e diz outra bez "O Porto é meu, abô, o Porto é meu, abô!", num há feira, mas há escritores, num há feira, mas há escritores. E digam lá se pode ou não comer-se o Porto! Num pode! Bibó Porto! "
PG-M 2013
foto de Lourdes Costa

10 anos de Ignorância

 
Foi num fim de tarde de véspera de São João que este blogue nasceu. Dez anos é um tempo respeitável. É essencialmente um repositório de crescimento. Não deve ser difícil notar, consultando entradas antigas, quantas certezas perdi. Desde o momento em que me tornei édito, com o romance "A manhã do Mundo", saído em 2011 na Dom Quixote, este blogue está essencialmente ao serviço dos leitores que não se querem perder de mim, nem eu deles, e para os quais eu sinto a obrigação de continuar a escrever - não creio que bastem os romances, os poemas, os prosemas, é preciso cá estar. Aliás, a vida do romance torna-se independente de quem o escreveu. Há leitores de tal forma qualificados que levam os textos que escrevemos mais longe do que nós próprios. Costumo até dizer que antes de cinquenta anos um romance está e estará in utero. Já a escrita de blogue, às vezes próxima da crónica, outras nem por isso, é aqui e agora. Ainda ontem dizia aos leitores que se sentaram comigo no "Não há feira, mas há escritores", que queriam saber da minha tripeirice nos livros, que "A manhã do mundo" não é isso. Mas isto é. A eles, aos leitores de literatura, e aos mais de cem leitores diários do "Ignorância", o meu agradecimento. Venham mais dez e bom São João!
 
PG-M 2013

2013-06-13

Não há feira, mas há escritores - programa definitivo

B-A-L-L-S
(apareçam, se os tiverem no lugar: eu estou a 22 para agradecer)



Ao Charles

"Acordo sempre demasiado novo e chego ao espelho demasiado velho, pelo meio componho a ideia e o alento e a manhã acaba, à tarde sou o que penso ser e à noite o que pensam que eu sou, e se me deitar cedo serei uma criança de colo, se me deitar tarde serei um velho de colo, sonho com o resto de tudo e acordo sempre demasiado novo e chego ao espelho demasiado novo." prosemas, PG-M 2013, com um abraço ao Fernando, ao Álvaro, ao Bernardo, ao Ricardo, à Maria José, ao Charles e a outros cinquenta. Charles, aparece para almoçar, tenho umas coisas de Durban para te esconder.

fonte da foto

Efeitos Secundários



Encantamento quase absoluto a que não se deve resistir nem um bocadinho:
A sessão na EB2+3 de Valadares, Gaia - que, sendo perto de casa, foi o meu fim do mundo, depois de dois anos de aventura de livro -, não tendo sido especialmente preparada por mim ou pelos miúdos que lá estiveram, está a ter um efeito viral muito curioso, provavelmente porque no post anterior eu falo da comunicação possível entre gerações, e a Catarina, a estrela da sessão, tem levado a palavra às redes sociais e aos grupos em que a plateia jovem da sessão está inserida, ou seja, passei de uma potencial "seca" para algo que lhes está a importar mesmo. Muitos nunca leram um livro e agora estão interessados. Alguns até me expicaram que, se não conseguirem "arranjar online", talvez o comprem, e eu tenho-lhes dito que eles gastam tantas vezes 10 euros em jogos e roupas de marca, que podem premiar a editora e o escritor com quem partilharam a alma com a compra do livro em papel, que vão ver que é uma sensação nova, ter um livro que quiseram por causa de uma pessoa que conheceram e até os tratou, não só com respeito, mas com sentimento. Tenho agradecido à Catarina esse entusiasmo inestimável. E a todos os outros, que me têm feito sorrir. Um deles peguntou porque é que chamei Ignorância ao meu blogue e eu apresentei-lhe o verdadeiro Sócrates. Outro disse que não tinha percebido o post sobre a sessão, e eu pedi-lhe para se concentrar e ler com calma: uma cabecinha habituada ao prazer visual imediato, a sms com monossílabos, não pode ler aquele texto "en passant". Mas lê, porque tu estás lá. E ele leu. Outro disse-me que eu sabia fazer perguntas (com efeito, quando eles não as fazem, faço eu) ao "pessoal", e eu respondi-lhe que apenas me importava com quem tinha à frente. Ou seja, os efeitos secundários de quem se dá, como eu a eles e eles a mim, e assim afronta uma certa frieza quotidiana ou o medo de levantar a pele para deixar entrar os outros, estão a fazer-se sentir também neles. É bom que, por uma vez, não tenha só eu esse "stress-pós-traumático" de sentir a falta deles nos dias que se seguem às sessões, e pense tantas vezes: "E se nunca mais os vejo?". É bom que eles se tenham aproximado um bocadinho de mim e me queiram voltar a ouvir. Eu sou mesmo pouco dotado na arte da oratória. Mas é tão bom ouvir, dois dias depois, a pergunta: "Quando volta à escola?" ou "Mas eu vou sair daquela escola, e agora?". Eu digo sempre que me têm quanto quiserem e onde quiserem. Só peço uma coisa: leiam-me. Por pouco que seja, leiam-me, que eu pagarei sempre com juros.

PG-M 2013

2013-06-10

E afinal o cruzamento das existências

Que não são existências de merceeiro nem contáveis a balanço. Onde é que eu meti o papel onde tinha apontado o nome dos miúdos? Vamos lá registando o que ouço enquanto escrevo isto. Daft Punk. Al Green. Mozart. Portanto,

existências são vidas, não litros de feijão branco


Rapazes e raparigas de quinze e dezasseis anos na EB2+3 de Valadares, Gaia.
Al Green outra vez. How can you mend a broken heart.
Filipe, Ana Rita, Catarina, Mónica, Rúben-sem-assento-stôr, Luís, Miguel, Renato, André. Mais, muitos mais. Lembro-me de muitas caras. Neste artigo vão importar pouco, porque vos quero falar de uma espécie de trauma universal da educação, que é a comunicação entre adultos que levam mais de vinte anos de maioridade e crianças adolescentes no século XXI.
Daft Punk outra vez.
Já tínhamos perdido o direito a tocar nas nossas crianças mais pequenas, agora estamos a perder o direito de comunicar com as mais velhas. Num tempo de comunicação, é nossa responsabilidade não cortar o cordel ou deixar que se corte. É-nos imperdoável a solidão adolescente. Não nos perdoamos se deixamos de agir perante sinais evidentes, e no entanto abandonamos muitos deles à sua sorte porque achamos que não devemos correr o risco de comunicar. Vamos a escolas como escritores e dizemos, com propriedade, que aprendemos mais com eles do que eles connosco, e no entanto impomos socialmente um corte mal os encantamos.
Porque não sabemos comunicar? Porque não queremos? Porque não falamos a mesma linguagem?
Snow Patrol. Chasing Cars. Al Green. Love and Happiness.
Não, porque estes jovens seres fascinantes que nos olham com um misto de indiferença e curiosidade já têm, quase todos, aparência de homenzinhos e mulherzinhas, alguns até são bonitos, sacrilégio, e o ar está viciado pelo estigma do abuso do mais forte pelo mais fraco. Os professores procuram-nos e, quando nos trabalham bem, têm de gerir o arrebatamento dos seus alunos. So what? Quando eu vou às escolas, penso apenas que devo dar aos miúdos a oportunidade que nunca tive: encontrar um escritor. Flagrante o caso da Ana Rita, que já leva duzentas páginas do primeiro romance escritas e a quem eu pedi para não ter pressa, e principalmente para não colocar a publicação no centro do sonho. Como alguns de nós escreviam aos seus escritores favoritos as velhas cartas de envelope e selo, agora eles escrevem-nos cartas digitais, ou nós a eles. Se uma criança consegue sair do seu pequeno quadrado azul e comunicar com o seu escritor, vai mais longe do que a maioria dos seus colegas. Se consegue sustentar um discurso que interesse ao seu novo "amigo" e interlocutor o suficiente para responder, avança na existência.
No meu caso não é, nunca é, comunicação de uma só via, e eu venho sempre marcado por um ou outro que me desconcerta, me toca, me espanta, me faz orgulhoso por ter conseguido falar-lhe para dentro. Desses não me quero perder nunca. A maturidade do que muitos escrevem, e não falo de sobredotados como o Rúben-sem-assento-stôr (ele sabe que eu estou a brincar e porquê, entendemo-nos mais do que bem na mesa do "congresso", ele foi o leitor de serviço, bebeu da minha água e desviou o meu copo, aguentou-se como um herói:), dizia, a maturidade do que muitos escrevem na sequência das sessões é quase sempre desconcertante, e por isso mesmo nunca me falta vontade de saber deles, de saber a direcção que seguem, de saber se valeu a pena ter tido a presunção de lhes dar conselhos, se ficamos dentro da alma de algum para sempre. Yael Naim.
A minha experiência de escola tem menos de dois anos, como escritor, e mais de quinze como advogado, e asseguro-vos de que me ficaram inscritos a fogo, já, uma dúzia de nomes que eu não quero perder de vista e, se perder, vou ter pena e saudade. Aliás, nomes do princípio das palestras como advogado já se licenciaram e são hoje meus amigos. O caso do Bairro do Aleixo, que eu não vou contar aqui, marcar-me-á para sempre.
Morricone.
Ao olhar uma plateia de jovens eu não posso ficar indiferente a olhos que gritam, a corpos que, entre velarem-se e espreitarem como que a suplicar que os vejam sem os chamarem, querem, não só ser incluídos, como, mais, muito mais do que isso, protagonizar uma verdadeira mudança interna. Querem mostrar o que valem, por uma vez, fora do circuito de mediocridade em que muitas vezes se deixam enredar. Ou nós os enredámos.

Eu chamo-lhes os meus meninos e arrepio-me por eles, comovo-me com eles, sinto-me respeitado e útil, sinto até mais: que consigo uma comunicação transversal em termos etários, de tal forma que não há clivagem ou escassez de conhecimento em múltiplos sectores, e eles fazem-me melhor pessoa porque me tiram desse olimpo forçado e me obrigam a percebê-los de perto. Shostakovich.
Talvez eu quisesse ser o professor deles. Talvez parte da vida tenha sido conduzida com a imagem do Robin Williams n'"O clube dos poetas mortos" em cima de uma secretária a gritar Walt Whitman, "Oh Captain, my captain!".
Daft Punk. Carpe Diem.
Catarina - e o corpo inquieto - escolhe a coxia. É a eleita de Valadares. E os olhos cheios de perguntas e coisas para dizer. Mal se senta tem a postura crítica e veemente de quem sabe o que quer, mas está escondida a pedir para ser descoberta. Rapidamente lhe descubro a vocação artística. Não importa se escrita, se encenada. Quando estão a colher os meus links, Catarina deixa escapar que ela própria tem um blogue. Afronta o escritor, avançando a hipótese de ser mais a preocupação de marketing e vendas do que literatura. Gosto disso. É castigada com a oferta de um exemplar d'"A manhã do mundo", devidamente autografado. Depois faz as perguntas mais avançadas da sessão. Não é surpresa que os menos comprometidos consigam chegar mais longe: permite ao escritor descrever, lá das profundezas da própria existência, o processo endógeno de escrita. Como poucas vezes o fez. Para Catarina faz sentido. Catarina tem escrito pouco e, naturalmente, equilibra os seus quinze para dezasseis anos com o breviário do adolescente, mas entretanto diz-se que nenhum de nós acaba ali, naquela sessão, quem quiser pode seguir os outros enquanto eles, e/ou o grande irmão, quiserem. O escritor acha sempre que é humildade e educação ler e apreciar o que lhe é dado a ler. Pois Catarina continuou para lá da tarde de 6 de Junho de 2013. Queria eu ter escrito aos quinze anos como Catarina escreve. Que é muito e bem, fora a praga moderna do pretérito perfeito, que se treina com mais e mais leitura. O mestre deve aprender-se a si próprio pelo estilo e pelo trilho de quem o segue como quer e quando quer.
No final, passa Lana del Rey, Vídeo Games.
Que é ouvido por mestre e discípula.
Se na idade de Catarina eu soubesse que ouvia o mesmo que o escritor por quem tinha fascínio, o tempo tornava-se relativo com dispensa de físicas quânticas. A vida nunca deixaria de fazer sentido e haveria sempre a oportunidade de perguntar, num dia pior, por qual vereda segue o caminho adequado.
E afinal estamos todos aqui ao mesmo tempo, e essa oportunidade não deve ser toldada pelo medo e pela hipótese da maldade, porque a bondade é mais contudente e clara, os que começam como os que continuam como os que acabam e que, à luz de uma palavra em estado puro do bisneto que sabe ler o olho claro do bisavô moribundo, dão no começo da vida o seu sentido ao que a está para acabar.

E afinal o cruzamento das existências.

PG-M 2013

2013-06-07

Não há feira, mas há escritores


Eu já andava rouco e a falar para as paredes, depois da grande desilusão de ver uma associação dizer não à sociedade civil, quando me aparece o Luís a perguntar se fazíamos isto. Fazemos. Orgulho. Finalmente orgulho.