2013-12-24

o natal medido no corpo e no pensamento

"Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo"
 Osvaldo Montenegro ("Metade")
 
A finitude do corpo e a infinitude do pensamento e do sentimento. Ou a rotação e a translação. Sabemos que o nosso corpo acaba. Não sabemos se o pensamento acaba. Sabemos que o sentimento pode acabar ou propagar-se entre corpos e mesmo para lá deles. Sabemos que o pensamento e o sentimento transcendem a morte. O corpo não. É por isso que tentar encolher o pensamento e o sentimento no espaço limitado dos corpos será sempre mal sucedido. O que pensamos e sentimos, parecendo contido nas nossas paredes, vai muito para lá delas. O natal é um esforço de consciência colectiva, todos os corações de um certo mundo centrados no transtorno do egoísmo travestido temporariamente de altruísmo. Um travão na rotação, para que o pai natal cumpra, uma flexão na translação para que o planeta desalije o peso da ilusão. Os corpos, que acabam, não são reais. Voltam os mortos mais queridos e o pensamento vai descendo e subindo montanhas russas. Há abraços em todas as suas formas. Alguns inimigos cessam. Os amigos prosseguem, menos ignorados. Há mais luz, há mais acessórios, são flagradas todas as manifestações do supérfluo. Até chegar um momento em que todos mirram e o mundo dobra reduzindo o espaço entre as casas. Pairará sobre as mesas de natal, sobre o bacalhau, sobre o molho fervido, sobre o vinho quente com canela e açúcar, um só sentimento. Que é um calor raro ao centro de peitos potencialmente infinitos. Diz-se bom natal e a estrada segue, vagarosa, no regresso a cada planeta.

PG-M 2013

2 comentários:

helena frontini disse...

Que sejam dias cheios de ternura e com vontade de avançar, mesmo aos tropeções.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Será aos saltos :)