2013-12-09

Jasmim (e o colégio dinis de melo, em Amor)

Há muito, muito tempo, não havia neste reino bomboneiras de vidro em forma de cogumelo. Para que a rainha destes domínios reinasse feliz, houve que partir em comitiva para a marinha grande, onde se erigira em lenda a história de uma plêiade de artistas vidreiros que, quando reunidos, se chamavam indistintamente pelo nome colectivo de jasmim.
Muitos anos depois foi-me depositada nas mãos uma peça de vidro que simbolizava a constelação do colégio dinis de melo e eu, que vivo largamente pelos detalhes, topei pela saca de cartão que a amparava: o mesmo jasmim, as mesmas mãos colectivas haviam feito para as minhas uma peça de um plano acima dos homens, tal como aquela bomboneira de vidro que eu trouxera de volta para a minha rainha há muito, muito tempo.
Nesse fim de noite de sexta-feira, 6 de dezembro, já 7, com temperaturas negativas lá fora, a professora isabel entornou nas minhas mãos a arte jasmim, que, como a foto documenta, trazia a história da noite em cada reflexo - que andou entre o transparente e o azul.
história que começa nos olhos claros da roberta, a italiana que recentrou os meus castanhos escuros num levantamento de escritores no porto e me trouxe a leiria pelas mãos da mãe helena - na entrada do colégio faziam uma família perfeita com o fausto, não por caso treinador de voleibol na sua bela itália, afinal o desporto que é uma parte do que sou.

agora entramos, tenho ao meu lado o gil, o meu amigo de sempre, juiz na cidade, lembras-te de quando éramos os dois únicos confrades da confraria do código civil, gil? a confraria do código civil eram dois estudantes loucos que, por puro gozo, batiam às portas da foz velha, no porto, para ler artigos do código civl - muita gente que ficava a ouvir a leitura empenhada do gil e hoje ainda choramos a rir por todo o bem, toda a legislação, que transmitimos.

compro dois postais ao andré pedro e ao ricardo que eles mais tarde me dedicarão - tenho-os aqui para sempre -, tomo o café, tenho a garrafa de água na mão, os reflexos em transparente e azul vão multiplicar-se.
a professora isabel apresentou-me sem que eu visse ou ouvisse, mas vi-a perfeitamente do princípio ao fim da noite com o mundo às costas até me entregar este cubo de vidro que é jasmim e me pedir desculpa pela falta de atenção que me dedicou.
ela, que fez a noite minha. ela, que foi o nosso atlas.

e depois vem a bruna.
oh, a bruna! 


a bruna fez a minha apresentação, e essa eu já ouvi, passei por ela para me sentar ao centro da mesa e disse-lhe "esse sou eu", ela olhou bem cá para cima e disse, algo desconcertada, "eu sei". se foi a bruna que construiu o texto de apresentação, é-lhe devida vénia. fugiu à wikipedia e teve de ler muito para o sintetizar naqueles cinco parágrafos bem escritos. sabe que eu não gosto do cinzento dos tribunais e termina assim: "como se diz obcecado por livros e livrarias, esperamos não ter de aguardar muito mais para lermos outros romances". três meses, no máximo, bruna.
já depois da sessão de perguntas e respostas ter acabado, a bruna fez mais algumas perguntas, ali, perto de mim - a última era tão corpulenta, tão profunda, tão bonita, que eu lhe perguntei de volta se ficava até ao fim, e ela disse que sim. então continuei com as dedicatórias com a minha letra de imprensa, afectada do que sou, mas a bruna desapareceu e eu não pude responder-lhe. mesmo que volte um destes dias, é para mim terrível deixar uma pergunta em suspenso, mesmo que os olhos da Bruna quase a tivessem respondido. e esta noite de dezembro ficou incompleta porque a bruna ficou incompleta.

muito antes, os meus asas, andré pedro e ricardo, tinham-se sentado um de cada lado - gosto de ficar acompanhado nas mesas. o andré é um observador, ar intrigado, inquisitivo. o ricardo foi o meu ponto teatral: grande trabalho, ricardo. como percebeu que era importante para mim saber o nome de toda a gente, foi-me dizendo quem eram e, às vezes, o que faziam.
"eu nunca disse um poema meu" foi lido pela professora rosário como se fosse dela. era efectivamente mais dela do que meu. a rosário deixou na sala as vísceras do poema. o pedro leu o "plátano".
a carolina rosa leu tão bem "poema à mãe e outras vidas", mas também me fugiu. acabou a leitura, recuou na sala para receber os aplausos, o namorado veio resgatá-la, ela deu-lhe a mão e partiram pela noite fria.
ficou também por fazer a minha pergunta a todos: porque é que escolheram este texto, este poema?
porquê, pedro?
porquê, rosário?
porquê, carolina?
RP:
RR:
RC:


o andré pedro falou-me da negação do horror e dos universos paralelos e do fringe
vieram pelo menos mais dois andrés, um deles era também gaspar
veio a catarina rodrigues, outro gaspar (mas luís)
a antónia, que queria saber se a família me aturava como escritor
a rita e os caminhos que me levaram ao direito
a beatriz sobre as teorias da conspiração
o bruno de camisola pull & bear para eu falar da capa e das revisões em edição,

e então a bruna voltou, com olhos brilhantes e complexos, para saber muito mais coisas
e então a bruna partiu

à mesa veio o afonso, com a sua irmã, a pequenita leonor, a pulular em volta, divertida, o casal real - como lhes chamei - levou um livro. a leonor explicou-me que o afonso lia muito, lia na cama, eu quis saber como, que não há gadget mais avançado do que um livro, mas nunca houve posição para lê-lo durante longas horas
à mesa veio a bonita bibliotecária paula, levou dois livros, um era da escola, outro dela
à mesa vieram cremilde - a cremilde levou livro - e cremilda, que, não sendo uma sociedade, nos deixaram entrar no aporte estético dos nomes, falaram francês mas não tocaram piano, são professoras, portanto heroínas, heróinas puras,
não injectáveis

de volta a bellissima roberta dos olhos claros, roberta do sorriso que o fausto e a helena desenharam, mas espelhado em nós faz pensar que é de cada um

e no fim, em letra pequena como toda esta memória, para não distinguir o indistinguível, a professora isabel a entregar-me tudo numa mancha azul ao fundo de um cubo transparente,
que é jasmim e é Amor


e a noite foi tudo mas fica em nada se não os tiver a todos de volta

PG-M 2013

7 comentários:

RobertaFrontini disse...

Bem... isto não vale, porque uma pessoa depois não consegue, por muito que tente, responder a um texto como este! Muito obrigada Pedro Guilherme Moreira. Os meus olhos não são claros, mas talvez nesse dia estivessem...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Claro que são claros :). Obrigado eu.

Olga Coimbra disse...

nNunca tinha lido um comentário de um escritor, depois de este ter visitado uma escola, sobre essa mesma visita.
Compreendo a alegria de Pedro Guilherme-Moreira... Imagino a da escola que o convidou... :-)
O texto é belíssimo, como muitos outros que já li de Pedro Guilherme-Moreira...
'Roubei' uma pequena passagem, aquela em que se refere às professoras como 'heroínas, não injectáveis'... um achado :-)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Não é hábito dos escritores, mas eu falo questão de dar sempre testemunho. Aliás, não avanço pelos dias sem lhes dizer. Poderá encontrar muitos textos sobre visitas a escolas neste blogue. Grato pelas suas palavras, Olga :)

helena frontini disse...

Olá, estive a ler o texto com alguns alunos do 9ºB e adoraram...estão preocupados com a sua preocupação com a Bruna. Continue a escrever para termos mais leituras. Quando volta, perguntam eles??? (Mais propriamente o David Casaleiro. Eu mando-o ao Arquivo, quando lá for.)

helena frontini disse...

Ah, ah, ah!!!
"A moderação de comentários foi activada. Todos os comentários têm de ser aprovados pelo autor do blogue." Eu bem lhes digo para lerem sempre todo o enunciado!!! Façam o que eu digo e não o que eu faço!
Esta mensagem até deu discussão gramatical!!!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

:) fico muito feliz, Helena :). O David pode vir ao meu encontro no facebook muito antes da arquivo. Voltarei sempre me leiam e me queiram :). Posso adivinhar que o próximo livro "Livro sem ninguém" vai ter material de sobra para ser trabalhado pelas heroínas de português. A Bruna virá a mim, se quiser :).