2013-12-04

Eliane, Portugal

Deixa que eu apresento:
Eliane, Portugal.
Portugal, Eliane.
Não é por ela ter um apelido que se ouve na boca de uma criança tripeira quando quer mimetizar um popó: Brrrrrruuuuummm.
Não é sequer por ter uma dicção doce, mesmo para brasileira, que já de si traz um português açucarado e distendido. Nesse sotaque cada ponto final é uma cerca de veludo onde as frases batem sorrindo, cada exclamação um abalo, cada pergunta uma canção.
É apenas porque ela escreve bem p'ra caraças ou, como se diria no meu Porto, este, o atlântico, o europeu, como o carago.

Não, também não é por isso, isso que é só pretexto bairrista.

Eliane é essencialmente jornalista, embora escritora.
Aquele jeito visceral eu conheço em qualquer lado.
Aquela forma de arrastar constantemente as explicações para dentro de abismos e cair por eles abrindo os braços e tomando a existência dos outros como se fosse a própria pele.
E vai-se a ver está amparando os torsos que indaga ou traz para dentro de si própria sem qualquer protecção, aquela protecção soez da mediocridade.
Eliana tem feito chorar vários tipos de granito,
e com isso pessoas mesmo.

Pelo que soube ao ler Eliane, Wanderlei da Pampa morava perto da fronteira do Rio Grande do Sul e levava todos os anos o seu cabo de vassoura a uma feira de cavalos. Para entrar no concurso passava as respectivas inspecções sanitárias, e o pessoal, quando o via chegar, já dizia: lá vem o maluco. Ora, Eliane não arrancou dele uma resposta, mas uma pergunta: "Acha que eu não sei que isto é um cabo de vassoura?" O problema é que nunca na vida Wanderlei ia ter dinheiro para ter o seu cavalo, e assim podia sonhar.

Pelo que soube ao ler a Eliane, Alice estava morrendo. "Comer e se salvar". A merendeira da escola que ressuscitava crianças porque elas lhe chegavam de manhã com uma fome ainda mais preta do que negra e mortas, literalmente mortas. Ela as ressuscitava dando a primeira merenda do dia. Então a Alice insistia em encher o prato da jornalista, acreditando que, alimentando Eliane, se salvaria também.
"Se eu comer, talvez melhore".
Como a minha mãe quando eu era menino, como o meu menino quando eu sou pai.
"Acho que já não tenho a doença", dizia, para quem a quisesse ouvir.
Então a Lourdes dizia à Alice, para a animar: "Eu tinha uma tia que tinha a tua doença e cheirava muito mal, mas tu não cheiras mal". E sorriam, ou eu acho que sorriam, porque foi assim que imaginei quando ouvi a Eliane falar para o auditório.
Em cento e quinze dias à vista de Eliane, os seus últimos cento e quinze dias, Alice nunca pronunciou a palavra "câncer". Eliane também não. Eliane achava que, se algum dia tivesse trazido o câncer para uma pergunta, tinha perdido Alice para sempre. Assim a ganhou para sempre.
A médica dos paliativos, Maria Goretti, tentou puxá-la um pouco à terra, para ela morrer por cá, bem perto, e não no céu, bem longe.
- A senhora esqueceu. Tem uma pedra no seu caminho.
E a Alice perguntou:
- E não dá para fazer viaduto?
E repetia para Eliane:
"Se eu comer, talvez melhore"
"Alice, eu estava lá, a culpa não é tua"
"Eu acho que sabia, mas esqueci"

A Eliane diz que o jornalista muda o mundo porque lhe dá voz.
Que não importa mais o homem que mordeu o cão, mas o cão que morde o homem. Quando não há nada, também não há circo. Só depois, só depois de relatar esse cão e fazer os olhos brilhar porque sim, não porque foge da vida.
A Eliane faz como eu nas páginas: se esvazia para encher do outro, o que está perante si.
Vê que a maioria é minoria na imprensa, e a minoria, a selecta minoria, maioria, e Eliane não quer.
E se o Brasil é um continente e Portugal se equilibra nos cabos de outro, e aqui caiu o assombro dessa voz, essa voz deste lado do mar, trago Eliane e a ergo nas vossas caras ou a intrometo nos vossos corações.

É que Eliane faz nos seus parágrafos o que a parteira índia de mais de noventa anos fazia na sua aldeia:
enche o mundo nas horas vagas da noite.

PG-M 2013

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