2013-12-26

Diálogos com o Atlas, PIM! (I)

 Consequências graves da consoada nas ideias e no mundo: o diálogo com GMT e o seu Atlas. Que saudades, meu caro Gil Vicente!

- Novo: o acaso do fio de um metro de Duchamp - se largarmos um fio de um metro ele cairá formando desenhos sempre distintos. Todos eles medem precisamente um metro e afrontam os conceitos preexistentes da ciência e da forma de medir. A medida do meu raciocínio é muito mais parecida com o metro de fio depois de cair.
- Reencontro: descubro que o que sempre pensei, que a cronologia das ideias é hoje irrelevante quando trasnportamos a Bíblia e o Quixote e este Atlas bem juntinhos: séculos de ideias lado a lado e justapostos no espaço e na consciência de quem os lê. Hannah Arendt tratou e desenvolveu esta abordagem de Jaspers. Saudades destes diálogos, que não tinha desde que eu e o Gil Vicente nos separámos no espaço. Não o dramaturgo, o amigo. Que é bem melhor e maior.

Passaram vinte e cinco anos, caro amigo, e nós pensamos que somos os mesmos.

Se nos tivessem falado do conceito-vírus do Wittgenstein teríamos dito "é isso, é isso". Sim, nada de conceitos fechados e duros. O que está resolvido exclui o andamento e, em grande parte, o pensamento. O conceito deve ser aberto, dinâmico, produzir-se enquanto é discutido. É a teoria do jogo dinâmico de Gasset. O investigador está sempre perdido, ainda que se fortaleça pelo caminho. A Llansol escrevia sempre coisas  bonitas: "Dizer o que é, é ver." Não se trata de citações, mas de excitações, anos a pensar selvaticamente que agora se reencontram e nos amparam.

É precisamente a convicção da impossibilidade de fecho, de os escritores, como os filósofos, terem de começar qualquer discussão deixando claro que não têm razão (Adorno). A ração diária de erro do Carlos Drumond de Andrade: neste meu (nosso?) livro novo, o que vai sair em Março, decidi escrever que um guarda-chuva tinha uma haste partida. Não disse "a" haste, mas "uma" haste. Em rigor, haste é apenas o suporte central do guarda-chuva, mas há quem chame hastes às varetas. Eu quis induzir o leitor no dinamismo da dose diária de erro do Drumond e escrevi "uma" haste, remetendo para uma tempestade de ideias, como nos versos. Seria uma vareta? Seria o tronco central? Quer isto dar forma humana à frase, algo que o dono do guarda-chuva, e não o próprio objecto, tinha por resolver? Ou era apenas uma vareta? Eu podia ter escolhido "a" haste ou "uma" vareta. Mas aí estaria fechando a frase. Às vezes é preciso fechar as frases, mas nunca podemos fechá-las a todas, como dizia o Almada do Dantas Pum! Temos de deixar portas para que o leitor entre e saia, janelas para arejar, pontes para saltar.

Os melhores diálogos são aqueles em que nos afastamos do centro e navegamos à vista das margens do outro. Devemos investigar, buscar o que não está dito, mas, se não somos definitivos nem temos conceitos e pensamentos fechados, também não podemos exagerar na proposta alternativa: se perdemos totalmente o outro, o diálogo deixa de ser possível. Quantas vezes encontramos nos encontros colectivos o tipo que está sempre a desconversar? Isso não é suportável, mesmo no cultivo do humor. Essa deriva é fundamental para que possamos evoluir, mas nunca devemos perder o outro de vista, e os egocêntricos já nos perderam de vista antes de se cruzarem connosco. Esses desconversadores são, acima de tudo, egocêntricos. Ora, se para mim me parece discutível que tenha de haver um centro visível em todas as investigações, quando esse centro é um ego está tudo o resto, todos os demais, excluído(s).

É por isso que tendemos a rejeitar os "sentenciadores", e a sentença é o primeiro sintoma da medocridade ou da escalada social ou cultural, mas também o que distingue os sábios dos logros: não deixar abertura, inexactidão, para o interlocutor/ leitor explorar, pondo-se dentro o fora.

Os posts muito fechados, muito perfeitos, colocados nas redes sociais, tendem a não ter comentários, mesmo que sejam muito lidos e "gostados". Pode ser - como pode não ser - um sintoma. Mas para mim a escrita tem de contaminar, incomodar, varar. Bora lá, Adorno. Três passos à frente, dois atrás. É o Adorno que dá esta ideia da máxima distância entre o que se escreve/ lê/ diz e o que ja é conhecido, mas não tão grande que as duas margens deixem de se avistar.

O Deleuze dizia para não interpretar, para experimentar. Bora lá.

Gosto também da ideia do Wittgenstein de que qualquer pensamento nos interrompe a biografia, nos invade e faz mudar de trilhos. Tenho por aí um texto onde tento surpreender os homens que não pensam exaltando-lhes tanto a coragem como a miséria do vazio.


E agora vou ali ser exocêntrico, que me faz um bem do caraças.

(continua)

PG-M 2013



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