2013-11-17

nobel de latão



 já é de tarde e é cedo.
teatro de sol de domingo e no banco de jardim do parque infantil da praia de salgueiros estão sentados, lado a lado, o emplastro da madalena, que é filho do pinto da costa, e uma rapariga que foi famosa num big brother ou numa casa dos segredos, já não sei bem, estão ambos com o olhar vazio, ele com uma saco de plástico, ela com uma garrafa de vodka, ele não está muito limpo, ela também não, nota-se principalmente pelos cabelos, e de forma alguma estão juntos.

no banco em frente está um poeta de rua que escreve com uma letra miudinha nuns papéis muito pequenos, de vez em quando para, olha para tudo, portanto para nada, morde a barba comprida por baixo do lábio inferior, e ao lado dele um acordeonista que trabalha de segunda a sábado na rua de santa catarina mas hoje está a descansar ao teatro de sol de um banco de jardim em frente ao mar.
eu estou a tomar café num bar em frente, protegido deles por um vidro, a pensar na literatura e na vida e na ciência e no corpo, portanto a fazer filosofia sem querer, depois de ter lido uma entrevista demasiado profunda do eme tavares. estou perturbado, fico sempre perturbado quando não resolvo um escritor, isto é uma doença que só me dá com os melhores. penso que não retive o nome da jornalista que lhe fez perguntas de uma forma rara, como se soubesse mesmo o que estava a fazer e tivesse pensado sobre a causa, e não sobre a consequência, e se tivesse concentrado na fonte e não no resultado.
entretanto acabei por decidir que, realmente, o próximo nobel português vai para o eme tavares e por ter uma consciência clara de que já não consigo competir com ele pelas coisas mais bonitas e só tenho uma vantagem, sou mais velho, chego mais cedo à idade da aparência do abandono, a ironia era que eu queria ganhar o nobel porque aquilo é muito dinheiro e dava para alimentar a família para sempre, mas não posso tentar porque tenho de trabalhar para dar de comer à família ainda este ano.

o emplastro abriu um saco de milho e está a atirá-lo às pombas e a partilhá-lo com a miúda do big brother, mas por causa do vento não há pombas na praia, e nem as gaivotas querem o milho nem vem o O'Neill, porque o médico lhe disse que, por causa da condição cardíaca, não devia caminhar contra o vento.

li num livro do eme tavares que os homens, nos jardins de domingo, procuram diamantes e que as mulheres os procuram a eles. disse isto à minha mulher e ela perguntou, a eles aos homens, ou a eles aos diamantes? e eu respondi, acho que é aos homens, mas estás a ver, de qualquer modo, se for aos homens porque eles procuram diamantes também é muito bonito. não estou sequer certo de ser isso o que estava lá escrito. espera. não foi num livro. foi no artigo de hoje da notícias magazine. não tenho gostado muito dos textos do eme na notícias magazine - talvez porque são superiores e eu não lhes consigo chegar -, mas hoje gostei, acho que era o senhor voltaire a falar e o senhor focault a ouvir. de vez em quando o senhor voltaire levantava-se para olhar para um quadrado negro desenhado no chão ou sorrir com a parte lateral do lábio e que isso era sarcasmo, ou as duas coisas, não sei.
não tenho tempo para investigar as frases e ouvi dizer que o eme tavares faz isso e isola-se com tempo no templo como os artistas mais antigos, e também ouvi dizer que tem de ser assim para nos chegar a arte ou as palavras que podem ser arte.

em rigor, se querem que vos diga, eu queria ganhar o nobel porque gosto muito daquela parte da cerimónia em que nos põem uma faixa vermelha na diagonal, sobre a barriga e sobre o peito, ou sobre o peito e a barriga, e o rei da suécia nos vem entregar uma pequena caixa com uma medalha do alfred nobel e depois o escritor tem de fazer uma vénia ao rei, depois uma vénia aos convidados mais ilustres, depois uma vénia aos convidados menos ilustres e tocam as cornetas.
penso, sinceramente, que se me fizerem uma cerimónia dessas num aniversário qualquer já ganhei o nobel. o problema é mandar vir o rei da suécia

mas o mais complicado, mesmo, o mais complicado de tudo vai ser chegar a casa e explicar à minha mulher porque é que decidi escrever este texto só com letra pequena, como o valter primitivo.

no banco de jardim de cá o poeta de rua está de pé e com a mão estendida, como se mandasse esperar o mundo. fez um sinal ao acordeonista e ele levanta-se e mexe a cabeça e os braços, como se estivesse mesmo a tocar. tenho de pagar o café para sair e ouvir.
até hoje tinha conseguido resolver o eme tavares em mim, mas desta  vez ele subiu tanto, tanto, que já chegou a uma pureza a que eu nunca chegarei, porque não tenho tempo nem qualidade, poucos têm, talvez só ele

é por isso que a treta da conversa precoce do nobel vai deixar de ser treta, eu já atribuí um a Moçambique, irá para o Mia Couto, vai ser um grande dia para a língua portuguesa e desportuguesa, e alguns anos depois, quando o eme tavares passar os sessenta, outro, finalmente, para portugal. ele vai fazer as três vénias e, provavelmente, pagar-me um café no regresso.

eu, contudo, só terei hipóteses de ganhar se passar dos cento e trinta e um, e mesmo assim tenho de ter o cuidado de não entrar curvado, as três vénias só são mais tarde, tenho de estar lúcido e com capacidade de subir a um palco, como o Manoel de Oliveira, que fez isso há dias na bilbioteca almeida garrett, no porto, e tem centro e cinco e parece que está tudo à espera que ele morra para lhe darem mais.

gostei muito de ouvir o eme tavares dizer que não se podem comparar ou escalonar livros, que é como dizer que um tigre é melhor do que um elefante, espera, o acordeonista estava a tocar a melodia do into my arms, do nick cave, o poeta a ler o "assim como" do alberto caeiro....como é possível?....e o emplastro está a olhar muito espantado para ele, com a boca cheia de pão, e a menina da casa dos segredos a abraçar a garrafa de vodka.

eu estou arrebatado e a ouvir na minha cabeça o ave verum corpus, do mozart, que não está realmente a tocar

nenhum deles sorri, nem o emplastro nem a miúda, porque não há câmaras de televisão por perto.

li hoje um fragmento do primeiro romance do bruno vieira amaral e fiquei comovido, era uma reunião qualquer entre a mãe e umas senhoras, uma em que ele ficou ao largo, estava tão delicado e no entanto cruel como a grande literatura sabe ser, ainda assim mais suave do que o coetzee no coração desta terra, mas um destes dias estava a ver na sic notícias uma reportagem sobre a entrada do público no estádio da luz para o portugal-suécia e lá estava o emplastro, vi a cara de poucos amigos do repórter, vi alguém a bater no emplastro e não gostei, afinal o rapaz é filho do pinto da costa e faz-nos sorrir a todos, está bem, podia estar a aborrecer o repórter há muito tempo, mas não importa, bater no emplastro é um crime de lesa-majestade, e então resolvi descer aos bancos de jardim e dizer-lhe que o rei da suécia o defenderia sempre

mas a expressão dele continuou vazia

o poeta de rua disse para eu deixar estar, que ele sabia o que a fazer, que tinha uma história infantil ou uma grande frase que lhe contava ou dizia sempre, e eu voltei a pensar em literatura e no eme tavares,

será que consigo resolver isto? o emplastro, a miúda do big brother, o poeta de rua, o acordeoonista e o eme tavares? será que consigo tocar ao de leve a literatura para a atirar para dentro do emplastro e da miúda da casa dos segredos, ou é mesmo obrigatório render-me e desistir, aceitar a expressão vazia dos dois e a superioridade das coisas simples e intangíveis do eme tavares ou de todos os génios como a maria filomena molder ou a llansol ou alguns pedaços do camus e do coetzee e daquele americano e do próprio do saramago e até do lobo antunes

ah, o discurso do nobel do saramago, eu acho, how characters became the masters and the author their apprentice, foi muito mais bonito do que o do coetzee, he and his man. mas, como diz o eme tavares, não se pode comparar um elefante com um tigre

no teatro de sol de domingo o poeta de rua leu ao emplastro a frase do novalis
"estamos sós com tudo aquilo que amamos"

e o emplastro começou a chorar com os olhos quietos

o acordeoonista tocou o anda comigo ver os aviões como se fossem lâminas a desentranhar da pele os corações mais frágeis

e a miúda do big brother largou a garrafa de vodka e dançou a valsa com o emplastro

e ambos riram, pela primeira vez, sem câmaras.


(é assim que a literatura chega, baixinho, desde o chão, como as primeiras coisas, bruno, e eu resolvo os meus escritores)

PG-M 2013
(vencedor do nobel de latão da literatura na festa dos seus quinze anos, organizada pela miúda do big brother)


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