2013-11-03

Apneia (no Museu de Ovar)

Nem sei bem por onde começar.
Talvez por duas palavras que não têm de ser difíceis. Como as pessoas que elas servirão.
Exitância e Eutimia.
Exitância é radiância. Eutimia é tranquilidade, serenidade.
Então por onde começo?
Pela exitância dos olhos da Elisabeth Leite? Pela eutimia do sorriso da Helena Dias? Pela forma como ambas - e vamos ver se consigo escrever isto de uma forma que esteja à altura de ambas - formam uma expressão e um sentido único que anda entre a beleza e a arte puras? Não preciso de ir muito mais longe: entrei ontem pouco depois das seis e meia da tarde no Museu de Ovar, e a nossa tertúlia só começaria três horas depois.  E as pintoras, que tinham inaugurado aquela exposição pelas quatro, cercaram-nos com a sua arte e a maravilhosa história que as une. Talvez possam dizer que a beleza pessoal pode até contender com a arte. Talvez eu devesse escrever coisas mais pequenas, e afinal falar das pinceladas das duas grandes artistas, nada mais. Mas se alguém o disser, é porque não viu os olhos da Elisabeth ou o sorriso da Helena, aliás vinte anos mais nova do que pretende. E sobre a história pessoal das duas nada vou dizer, por pudor e respeito, mas é verdade que há pedaços de vida tão preciosos que apetece recebê-los com a grandeza que têm. E trabalhá-los como se trabalha o barro. A literatura pode devassar o lado de dentro das pessoas, mas, caramba, não há violência maior do que ter de gerir um arrebatamento com este repente.
E a noite de apneia?
E o João, a tocar flauta transversal, a abrir, a Rita - que tira fotografias maravilhosas - no violoncelo a fechar?
E o Professor Cleto que, não é bem dirigir, erige esse Museu que às dez da noite estava de portas abertas para a rua e a tasca ao lado a aquecer a nossa sala de gargalhadas e conversas?
E a dona Elsa, que pelos visto é a alma daquele lugar?
E a Ana Cunha e o institucional a passar a cúmplice?
E a forma como o José Ferreira disse os poemas?
Ou o Carlos leu a prosa dorida?
As lágrimas na sala, noite dentro, são da vossa responsabilidade. Eu passei metade da sessão encolhido sobre o lenço. Mesmo conhecendo ou suspeitando de que tudo começara de fora para dentro de mim.
 
E os astros nos olhos da Cristina e da Maria Joana quando os velhos morreram um a seguir ao outro?
E a saudade e o orgulho nos olhos do Joãozinho - que ganhou o prémio da família mais bonita, a filhinha, a mulher, a mana?
E a dignidade da mãe, que estava sentada mas parecia de pé, irredutível, ao vento?
E as maratonas que agora magoam o Elvas?
E a rendição do Jacinto Emerenciano e da sua bonita mulher, embevecida e orgulhosa por ele ter deixado os tremoços e as cervejas para mais tarde (para a próxima também os trazemos, o que achas, Jacinto?) Jacinto é um nome tão bonito.
E aquela espécie de coloratura do Silvério, que não é coloratura nenhuma, mas é assim que se inscreve em nós, uma ópera que sobe, sobe, sobe, que do princípio ao fim da noite te vimos a vida toda com esse queixo levantado, os olhos imersos e o coração a abranger todos?
 
E o meteoro que caiu entre nós e nos encheu de perguntas? Mas deixamos? Mas não é isto que viemos cá fazer?
A meio da sessão levantou-se um senhor e perguntou: "Posso?"
Ninguém sabia o quê.
"Posso ler poesia?"
Acontece muitas vezes em sessões públicas. Normalmente é rapidamente silenciado ou deixado para o fim. Assim lhe foi dito pelo moderador.
"Mas a minha mulher está em casa sozinha. E se eu demoro fica com frio."
 
(neste preciso momento sinto o aperto no peito que nos provocou a todos, que pensámos, até à última palavra, que era um homem um pouco louco, talvez pensemos ainda, ninguém para quem era óbvio que, num lugar onde se dizem certos poemas, se podem dizer todos; já não era uma questão de ordem, disciplina, a partir do momento em que ele deu uma explicação mais bela do que qualquer poema todos o queríamos ouvir)
 
"Chamo-me Bandeira e sou trasmontano."
E leu um belo poema de António Neves Pinheiro.
Pouco depois levantou-se e disse que tinha de ir.
Já sabíamos todos. Porque a mulher estava sozinha e tinha frio. Ele tinha saído de casa, diziam que ia chover, tinha vindo sozinho. Teria dito à mulher, "Eu venho cedo, não te aflijas." E a cara dele encerrava um certo desespero, certamente da solidão e do frio da mulher, em casa, sem ele.
 
Não vai ser fácil esquecer a beleza que o senhor Bandeira lá levou.
Não é só literatura, poesia, teatro, pintura, futebol, fado, Fátima, dor, riso, memória, nostalgia, portas, janelas. É tudo isto e muito mais do que isto.
É uma questão física.
 
Chama-se rebentamento do coração.
 
Como é que aguentas, Carlos?
Dizes à Clarinha - este nome literário, como Jacinto - que eu sei que ela não se chama Rita e que eu, verdadeiramente, não tenho cérebro de peixe, mas gostava?
 

PG-M 2013
a fonte da imagem dupla das pintoras é esta
a foto do quadro de Elisabeth Leite é de Nuno Sacramento, aqui
as fotografias do José Ferreira, do Professor Cleto e do livro com autógrafo em fundo são da Rita Oliveira