2013-09-07

Vigo

Pressinto o que Vigo é para os galegos, mas sei o que é para mim: muito. O que pressinto para os galegos é até fácil de resolver nalguns silogismos trapalhões de leigo. Eu gosto de espanhóis e de Espanha, ponto. E não gosto só um bocadinho, gosto muito. Há na mulher espanhola algo de insuportável, no melhor dos sentidos, para um português: o sotaque e o porte. Isso pode ser válido para qualquer mulher, mas as espanholas, estando próximas, inquietam. Estende-se um braço e lá estão elas. E, talvez porque durmam a sesta, saem para os copos das oito da noite como estrelas de cinema. Talvez não haja mulher que, ao natural, seja mais bonita do que a portuguesa, mas ninguém se sabe produzir como uma espanhola. Este é um olhar médio, e um olhar médio não resiste a particularizações. Há galegos que só querem ser galegos, outros que gostavam de ser portugueses e outros que não se importam, e até têm orgulho, de ser espanhóis. Eu gosto de todos, e, se nos dissociarmos da insana senda territorial ou dos (para mim, pouco respeitáveis) terrores da incorporação cultural da galiza em Espanha, todos são amáveis. Os galegos, em geral, cuidam demasiado bem da sua cultura para que ela esteja em perigo. Mas mesmo os mais empedernidos, com aquele tique externo de odiar Madrid, são suficientemente espanhóis, e eu gosto disso, é uma vingançazinha da grande Espanha perante a nada pequena Galiza, sendo que ambas convivem muito bem. Vigo talvez esteja mais castelhanizada do que qualquer outra grande cidade da Galiza, mas isso não é defeito, é vritude. Permite-nos encontrar o perfume do cosmos sem ter de percorrer muitos quilómetros. Vigo é uma cidade belíssima, atlântica, monumental, tem as minhas livrarias, tem excelentes hotéis e tem espanholas que são, quase todas, galegas. Vive em ebulição as vinte e quatro horas do dia, quando o pessoal dos bares começa a recolher o dia está a nascer e a cidade nunca dorme. E quando eu me jogo pela cidade acima nunca me aborreço, estou sempre a ferver, e isto entra na carne e vira amor. Por isso é que eu e Vigo nos casámos numa religião onde os divórcios são uma impossibilidade ontológica. Também por isso é que eu me encosto às paredes e, no limite, me basto com o sorriso que dou e me é devolvido pela cidade. Vigo não é um postiço galego. Vigo é a galiza nas estrelas.

Sem comentários: