2013-09-09

poema sobre o fim do verão

 
Lembro-me do meu corpo devassado por poemas que eu não te escrevi até chegar o último fim de tarde
e o tema de amor do Morricone a tocar na aparelhagem do banheiro e os panos listados das barracas no fim do verão e os telediscos que te dedicara ainda por montar na câmara do meu pai,

revejo esta nossa cena como a dos beijos do cinema paradiso e as lágrimas do velho Salvatore são minhas e o universo todo e todas as pessoas que estão a ler este poema somos nós
era o ocaso perfeito e eu pedira à minha mãe para só chegar em cima da hora do jantar para ter tempo de te dizer o que calara todo o verão,
por isso me lembro do meu corpo devassado por poemas que nunca te disse
e em vez do tema de amor do Morriconne tenho uma corda ao pescoço
duas voltas do shostakovich 
jazz suite nº 2
somos pássaros em fuga
tu cais quando em bando
rasávamos o lago negro

peço ao banheiro para mudar para o obué do Gabriel
outra vez o Morricone
a grandiloquência da vida
ele acha que eu não sou capaz
três meses planos com o calor dos velhos verões
tu com a coreografia perfeita
na periferia das mãos
e eu nada
e agora o quê a duas horas
de acabar tudo?

Logo à noite vou repetir o violino do Itzhak
que é sobre o fim de tudo, também
sobre o fim de nós
sobre o não acontecimento
universal,
foge,
sonhei que te levava a correr
numa patrulha de neve
nós com os corpos tapados
porque no verão a nudez e o cheiro
a óleo de coco
e o sal suspenso nos teus lábios
e as ruas de sentido
obrigatório
são abismos necessários, armadilhas da superfície animal mais os teus flic flacs fatais
e o resto do repertório de mulher da minha vida aqui agora e para todo o sempre,
nós ainda somos miúdos, nós ainda temos todo o tempo pela frente, tanto tempo, tanto espaço

uma hora até o sol se pôr
que no universo todos nós
todos os dias das nossas vidas temos

uma hora até o sol se pôr
e o vestido dela desaparecer
e o verão acabar


PG-M 2013

4 comentários:

helena frontini disse...

Pois, pois, elas assim caem que nem tordos: Morricone, jazz, cinema paraíso...Nem é preciso falar italiano!
Gostei muito!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Ahahah, Helena :)

Virginia disse...

Já tive esta sensação...não sei quando....há muito tempo....

Obrigada!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado eu, Virginia