2013-08-15

sol e lama


Está sol, pois está, e desta varanda só vejo mar, pois vejo, e cheira a bronzeador e às peles que passam com sal, estou tão perto que chego a sentir a espuma das ondas nos zigomáticos (que há quem adoce por "maçãs do rosto", argh), pois chego, e os miúdos a passar com sorrisos quase puros, e os caps a dar sombra aos olhos, não ao olhar, está maré vaza e estão corpos vazios e há espelhos na praia,por isso nenhum perdão para mim, que eu seja e veja isto tudo e insista que aqui por trás ainda é verão e não há hordas de vidas dolorosas com raiva que chegam ao fim da tarde como lama a desprender-se do monte para passar uma tangente à perfeição dos outros e conseguir sobreviver ao seu dia seguinte. Não, não cravei uma bandeira negra nesta praia indelével, hasteei a mão direita para que toda a infelicidade seja uma ilha breve e toda a felicidade uma praia comprida nessa ilha onde se misturam os sinais da beleza e os da dureza e todos, uns mais unidos do que outros, uns sistematicamente amparados, outros nunca, estes nunca, saibam que com o mesmo nunca se faz a morte, nunca é cedo nem tarde para a morte, como nunca é cedo nem tarde para a vida, todos nós com estes sorrisos perenes e alguns de nós sob esses óculos negros carecem, e quando vocês, turba das lágrimas e das dores e da raiva, descerem na lama à linha de mar para ganhar fôlego para mais infernos, procurem as mãos direitas hasteadas e apertem-nas, ainda que ninguém responda. Há sempre um infeliz com cara de feliz, há sempre um feliz com cara de infeliz, mas não há nenhum que, apesar de claro e belo e com o olhar limpo, não faça sombra no mar, como os cavalos do outro.

PG-M 2013
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