2013-08-10

Melodrama


O que eu penei ao som desta música, Midnight Blue, dos Dreamers. 
Penei, literalmente, o meu primeiro amor, a Carla dos Carvalhos que fugiu para a Maia e aos 15 anos a ponte da Arrábida passou a ser o abismo que me separava do El Dorado. Pensei em fazer locuras (querendo isto dizer apanhar uns quantos comboios e autocarros e procurar por ela, porque ainda não havia metro), mas entretanto comprei este 45 rotações e, de pé, encostado ao gira-discos do meu pai, sem lágrimas mas com cinco toneladas e meia no peito, uma sensação nova porque o meu peito só pesava meia, tentei entender o que era a paixão com um gesto mecânico de regressão da agulha para o princípio do disco de três em três minutos. Sofri algum tempo e veio o estágio - nos Carvalhos - da selecção nacional de voleibol, juvenis, e eu parti um pé entre treinos e apaixonei-me por outra miúda na sala de espera do hospital. Deixei de ouvir este disco. Até hoje. Esta nova miúda, uma andebolista também com alguma coisa partida, era de Vila de Conde e lá estava outra vez a ponte da Arrábida como fosso. Eu já tinha um amigo de dezoito anos com um pai que tinha um stand da jaguar e sentia-me culpado por gastar tanto dinheiro aos meus pais em chamadas interurbanas. Um dia consigo que me autorizem um passeio num velho jaguar branco com o meu amigo. O plano secreto era, obviamente, surpreender o meu segundo amor. A única referênca que tinha, ironia das ironias, era a rua e a matrícula do carro do pai dela, que estava sempre parado à porta de casa, dizia ela. À chegada a Vila do Conde, pela nacional treze, havia uma fila de carros que nos obrigou a parar o jaguar na berma. Eu e o meu amigo fomos espreitar e o carro branco despistado ao fundo da valeta tinha a mesma matrícula que eu tinha memorizado como sendo a do carro do pai dela. O meu amigo conseguiu que eu, desesperado, não descesse a encosta, onde já estava muita gente para ver mortos. Afinal foi só um. Um morto confirmado, uma menina de quinze anos, e um ferido grave, que sobreviveria para viver o seu inferno, porque era pai dela. Desde esse dia que eu deixei de temer o sofrimento extremo e de aceitar o impossível. Isto é má, muito má, literatura, mas é a verdade, e eu nunca conto a verdade quando escrevo. Entro por ela. É a primeira vez em trinta anos que conto esta história publicamente. Tempos houve, tal o sofrimento, em que os factos desapareciam da minha memória e reapareciam como ficção e eu perguntava ao espelho se tinha sido verdade. Hoje sei que foi verdade e finalmente percebo que o tempo funciona, mas para uma coisa destas leva, seguramente, uns bons trinta anos. É uma história absolutamente melodramática que nunca poderia caber na literatura. A ficção acabou. Ainda bem.

PG-M 2013...ou melhor...PG-M 1984

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