2013-08-15

Das bestas


Na minha aldeia já todo o vento me rugia aos ouvidos a besta que eu era.
A mesma aldeia que protegia o torno dos meus braços com silêncio, que me servia caudalosamente o vinho e o bagaço, que nunca amparou a mulher ou os filhos para não perturbar a normalidade.
E como a aldeia o cão, que durante vinte anos calou os cintos e os dedos grossos sobre os pescoços, até alguns murros.
Antes da saída dos filhos, eu nunca toquei na mulher, pelo menos não coberta de gesso, os miúdos sempre ajudavam, mas quando a casa ficou vazia e eu a via fazer tudo com lentidão e lamento, passei a usar as próprias muletas para a dexar estendida.
Com a mulher no chão, o bicho deixou de usar o focinho sob a manta e passou  a ganir sentado, mas bastava um berro meu para ele voltar o corpo e deixar o marido e a mulher em busca do entendimento, que chegava se o jantar fosse servido, o que passou a acontecer sem falhas depois das primeiras tareias, que eram funcionais.
Alguns dinheiros que não pude pagar de volta fizeram a família votar-me ao abandono e a palavra "besta", que devia qualificar apenas o cão, passou a ouvir-se nas ruas dirigida a mim.
A mulher não era fácil e caía muitas vezes na histeria, principalmente quando discutíamos ao volante, eu não tinha problemas em parar o carro e arrastá-la pelos cabelos para fora. Uma vez deixei-a na estrada de piche e a estúpida conseguiu voltar a casa à noite com a ajuda do taxista da aldeia e ainda apanhou.
Tenho perfeita consciência de que podia ter evitado tudo isto se a mantivesse em casa e não fosse tão liberal nas saídas em família. Se tivesse sido menos tolerante nos almoços de caça, quando a deixava sair sozinha com os filhos.
Quando a perdi, quando finalmente a perdi, a aldeia dizia que tinha sido para a tristeza, depois de morrer o nosso mas velho num regresso de Paris. Ela apagou-se com o coração dele e eu fiquei sozinho numa casa de pedra de dois andares e um cão velho de vinte anos.
O cão também apanhava, mas pouco.
Era o dia da missa de sétimo dia da mulher e eu estava doido de fome quando apontei a arma ao bicho. Ele, como nunca antes, enfrentou-me sem qualquer clemência nos olhos, sempre sentado e com o focinho inclinado para o chão, os olhos não tinham raiva, não tinham ódio, só uma quietude insuportável. Todos disseram que tinha sido por desespero e fome, mas na verdade foi medo.

Antes que o cão me despedaçasse, apontei à têmpora e disparei.
Os primeiros a chegar fizeram passar no café a versão de que o bicho estava sentado, mas sem fazer um som ou esboçar uma reacção a quem entrava. Disseram que era, não um assassino, mas um fiel servidor, e de mim que era nada.

Minto. Disseram - diziam - que eu era a besta e ele o homem.
E quando o diziam riam-se e limpavam os bigodes de tinto carrascão e depois paravam e diziam coitada da mulher.
O cão foi abatido de velho.

PG-M 2013