2013-08-03

A mais bonita do mundo inteiro


Ela pinta-se como um vampiro. Ela pinta-se como um palhaço. Ela pinta-se como um junco quebrado.
Esta manhã ela não abre os olhos, dissolve-se na luz e na sombra, as longas pestanas são facas afiadas e pingam.
Esta tarde ela nasce para o mundo e morre para dentro.

Pinta-se como um vampiro.
Os cabelos são pretos e escovados maquinalmente pelo próprio espelho, alquebrado.
O camarim sufoca e ela vem fumar fumo puro, enche os pulmões de grama branca quase líquida e expele os compostos da existência.

Está pronta. É a mais bonita do mundo inteiro.

Ouve melodias elegíacas que a elevam acima da atmosfera terrestre.
Pressente sempre a queda quando passa do topo. Nada pode ser perfeito. Ninguém pode estar limpo.

Pinta-se como um palhaço.

Os cabelos são pretos e escovados maquinalmente pelo próprio espelho, alquebrado.
O camarim sufoca e ela vem fumar fumo puro, enche os pulmões de grama branca quase líquida e expele os compostos da existência.

Está pronta. É a mais bonita do mundo inteiro.

Procura música afiada, algo que não suporte, que a corte ao meio.

É um hexâmetro e um pentâmetro alternadores.

Pinta-se como um junco quebrado.
Parte abraçada ao LaFontaine, no colo do Casanova, às cavalitas do Rimbaud mas o Rimbaud é frágil e cede, tem doze anos ela quarenta, ela nunca gostará de poesia, ele deixará de a escrever. O Casanova levanta-a nos braços ela desfaz-se outra vez, agora vai a pássaro e ergue-se mulher porque as asas

a percussão na orquestra a afundar a elegia
és um junco quebrado

Os teus cabelos pretos e escovados maquinalmente pelo espelho alquebrado.
O camarim  a sufocar-te e tu a vires fumar fumo puro, tu enche os pulmões de grama branca quase líquida e expele os compostos da existência.

Estás pronta. És a mais bonita do mundo inteiro.

És mesmo a mais bonita do mundo inteiro e nunca o saberás.
Carl Sagan toma o teu exemplo contra as estrelas e consegue explicar aos demais a teoria gravitacional de Le Sage.

Casanova tem fama e proveito e vastos conhecimentos, tão vastos que envergonhariam qualquer autor entre nós, está em modelo redux como o paradigma da masculinidade. Ela despreza-o profundamente.

Hoje não se pinta
ainda que o mundo caia para dentro de si e sem maquilhagem

Está pronta. Invoca ritos selvagens. É a mais bonita do mundo inteiro.

PG-M 2013

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