2013-07-15

Vicente Guedes a tremoços e ortónimos


Qual Sr. Furriskey do Flann O'Brien, mas isento de maldade, Vicente Guedes nascera com cerca de vinte e cinco anos e entrara no mundo provido de memória porém nenhuma experiência pessoal que a justificasse.
Quando chegou ao Bar do Pedro em Armação pediu dois cheeseburguers com cebola frita mas só pagou o dele e sentou-se de costas para mim com os pés na areia.
- Coma, Coma,
ordenou com  displicência e o indicador a cortar o ar como se procurasse anzóis.
- João Zamith. - disse Vicente.
- João Zamith o quê?
- Se eu me chamasse isso, o Nogueira não me tinha deixado cair.
Perguntei-lhe se ainda se desassocegava nesta forma arcaica, com menos esses e um cê a mais.
- O Nogueira descobriu a palavra assim, desassocego, por isso sim, desassocego-me mais do que me desassossego. O Nogueira também não me tinha deixado cair se o meu nome fosse burguês, como essse Zamith, mas Vicente Guedes nunca teve uma, uma única e parca chance, de vingar. Mais depressa vingava a Maria José corcunda do  Largo de Camões. Ou o Anthony Grondhouse, que com o seu caderninho de notas em branco percorria as esplanadas de Paris a explicar o silêncio.
- Zamith não é burguês.
E mais dedos para me desperdiçar, tem?
Tradução (muito Flann, muito Flann): é irrelevante que seja ou não.
Mais mãos a indicar o céu com os pares a olhar para as mãos.
- O Nogueira, a bem da verdade, nunca teve a arte de um Gepetto, e tinha tanto jeito para cuidar de heterónimos como a Moby Dick de Ahabs.
- Vais ao banho, Vicente?
- Nunca vou a banhos quando estou inquieto.
Puxou da Guiness e sorveu o líquido espesso e lambeu o bigode de espuma de centeio.
- Tu nasceste inquieto. Estares na digestão teria sido uma explicação bem melhor.
- Mas eu não digiro cheeseburguers.
- Porquê?
- Não merecem ser digeridos. Foi uma decisão que tomei quando o Nogueira me deixou o Desassocego nas mãos até o Zenith querer uma conversa muito particular para me explicar porque é que eu não entrava no livro.
- Vês, devia ter sido o Zamith.
- Não é Zamith, é Zenith.
- Se mudares de ideias e quiseres calções de praia eles trocam aí na loja em frente numa casota perfeita para o efeito.
- Perfeita parao efeito?
- Perfeita para o efeito.
- A Xana Todo-Terreno perdeu coisas na estação de metro dos anjos.
- Quase todos os frequentadores do metro de Lisboa se dedicam as perder as coisas nessa estação.
- Não há anjos no metro.
- Queres um café?
- Claro, não foi para isso que cá viemos?
Puxou de uma cigarrilha e foi pedir um gelado de máquina de morango e baunilha.
- Onde fica a tabacaria?
- Junto ao forte, na rua pedonal.
- Tenho de ir.
- Nesse caso, o João Zamith manda cumprimentos.
- Quem é o João Zamith?
- O centésimo heterónimo.
- Estropiado?
- Inteiro.
- Havia o noventa e sete? E o noventa e oito?
- Não, pá, estou a brincar contigo. Não é ninguém. No máximo um ortónimo.
- Pois, o problema é esse. Se ninguém ocupa espaço.
- Eu também escrevi no título tremoços e tu não comeste nenhum.
- Não gosto de tremoço desde a segunda guerra mundial por causa do revisionismo.
- A tabacaria está fechada a esta hora.
- Uma tabacaria, esta tabacaria, nunca fecha. Nunca.

Nunca. Nunca mais vi o Vicente. Nessa tarde, na esplanada do Bar do Pedro, um casal de alemães discutiu com toda uma família de holandeses se a heteronímia do Nogueira era só fraqueza e se com açúcares ele ia lá. Um jovem espanhol reclamava indignado que os tremoços tivessem esgotado e este português pensava se fazia sentido discuir o coito dos anjos. No chão, caído, não o grande envelope do Livro do Desassossego, mas um bloco de notas que abria com a grafia arcaica. Pessoas que também sofrem nos vários subsistemas privados de saúde faziam co-pagamentos sem saber do que se tratava e uma senhora explicou-me que se pode conversar de tudo no Mercado da Ribeira, principalmente de heteronímia sem temer a indiferença do povo. Eu encolhi os ombros e fui comprar um jornal desportivo à tabacaria.

PG-M 2013
fonte da foto

2 comentários:

helena frontini disse...

Muito bom, muito bom! Como se consumiu o Fernando Pessoa com tantas vidas! O primeiro TPC que mando quando começamos a estudar os heterónimos é uma pesquisa das fotografias dele desde criança até à morte. Voltam os miúdos perplexos: há engano na data da morte???

Pedro Guilherme-Moreira disse...

:) há?