2013-07-20

Quem foi a porca da gaivota que me andou a ler o livro do desassossego?

 George Orwell, no ensaio "Memórias de um livreiro", publicado originariamente no Fortnightly em Novembro de 1936, explica como o facto de ter trabalhado num alfarrabista o fez perder o amor pelos livros. Tal maçada pode acontecer a qualquer um que, numa determinada actividade ou perante determinado objecto, se aproxime demasiado. Foi o que aconteceu às gaivotas que não respeitaram a distância higiénica entre elas e o livro do desassossego que eu emprestara anteontem ao pescador Tonico, que por sua vez o pousara num tábua do "Lourdes Maria Eu Sou De Você" - assim mesmo, com a estética filológica anos oitenta, as capitais a começar todas as palavras, sem clemência para as preposições -, o barco azul e branco da faina de Tonico e do seu irmão Ricky, enquanto ambos remendavam redes no areal da praia de pescadores, em Armação. Como o livro nunca chegou a estar extraviado e eu já o tenho comigo, não viria mal ao mundo se ontem, na hora de fastio que sucede à manhã de praia e precede a sesta que sucede ao almoço, eu não me tivesse deitado a elencar mentalmente os esforços de comunicação das gaivotas, claro está que daqui não resultou nada de erudito, nenhum Fernão Capelo Gaivota de Bach, nenhuma Gaivota de Tcheckov, nenhuma reminiscência de Hemingway, tampouco a estupidificação de "À procura de Nemo" ("Meu! Meu! Meu! Meu!), mas apenas um elenco que me trouxe uma incómoda clarividência, fossem gritos que se assemelham a latidos que a do poste esquerdo dirigia à do poste direito da ruela que bordeja a praia, au, auu, auuu, au-au-au, auuu, auu, e que me começaram a parecer
- Tu viste-me aquela m...?(auu)
- Quê? (au)
- Aquela gaja hoje a afiambrar-se à sardinha fresca do barco das sete? (au-au-au).
- Oh, nem me fales, estou farto da tipa. Não respeita nenhum indivíduo do grande grupo de fauna Larus, e está invariavelmente embriagada à chegada à praia, com os restos de minis do Palhota.
- E afinal deus fez-nos omnívoras para quê? Para andar sempre neste stress de praia com estas bestas primárias?,
fosse aquele grasnar tão comum no box office dos sons de verão of all time, que o Don Henley até conseguiu vibrar nas cordas da guitarra, "Nobody on the road/ Nobody on the beach/ I feel it in the air/The summer's out of reach/ Empty lake, empty streets/The sun goes down alone/ I'm driving by your house/ Though I know you're not home/ But I can see you/ Your brown skin shining in the sun / You got your hair combed back and your /Sunglasses on baby/ I can tell you my love for you will still be strong/ After the boys of summer, have gone"
 

fosse com o piar, um piar visceral, sofrido e persistente que as gaivotas usam para balanços,

a verdade é que eu comecei  a entendê-las e perdi o gozo na praia ou no peixe grelhado, comecei a ouvir a perfídia das gaivotas melhor do que ouço a das pessoas sem poder dizer nada, que tinha ficado claro da última vez que não poderíamos interferir com a natureza.

Uma certa razão tinha o argumentista de "À procura de Nemo" em estupidificá-las com a repetição de "Meu, meu, meu, meu, meu", porque quando descobriram Bernardo Soares foi como se tivessem descoberto o seu modelo literário, aliás, o seu modelo de vida, com quem inciaram daquelas relações de amor-ódio que fazem o mundo mover-se (quase sempre; às vezes também dão enxaquecas metafísicas, como se verá). Senão confiram este, entre muitos diálogos que me andam a infernizar a sanidade, principalmente os que elas têm quando se afastam uns metros do mar para voar livremente entre a praia e os prédios adjacentes e sentem o arrebatamento de uma existência tão estúpida quanto livre:

- Hoje sinto-me como o Sweeney do Flann (não disse, mas na primeira noite folhearam o Flann, porque o pescador Tonico se tinha afiambrado ao livro, dados os meus encómios), um ser louco e poderso a esvoaçar entre cumeeiras do Ulster e apetece-me fazer exaltações poéticas a veados. (auuuuuu)
- E vais rematá-las com o grande poeta irlandês que terminava todos os seus poemas com "Como uma caneca de cerveja irlandesa"? (auuu)
- Ah, ah, ah, ah, cala-te! (au-au-au)
- Tens lido o livro do desassossego que o Tonico deixou no "Lourdes Maria Eu Sou De Você"?
- Sim, ao fim da tarde, quando o pessoal debanda. (auuu)
- E que tal? (au-au)
-Acho-o um bocado redundante. (auuuu)
- Como assim? (au)
- Basicamente, ele estipula o génio dele no primeiro parágrafo e depois repete sempre a mesma coisa no mesmo formato, vira-se para dentro e é o eu, conclui que é nada e mistura o quotidiano com metafísica. É isto. (auuuuuu)
- É uma tormenta. (au-au-au)
- Pior do que as que nos obrigam a ficar em terra. (auuu)
- Também não é preciso muito para ficarmos em terra (auu).
- Ah, ah, ah, ah! (au-au-au)
- Vou dar uma volta à mansarda do Vista-mar 1. (piu-piu)
- Vou contigo. (piu)
- Tens consciência de que muitos literatos como nós as duas já tentaram desmistificar o Soares e isso soa sempre a dor de corno? (auuuuu)
- Quero lá saber, eu grasno o que penso, não tenho ideia de grasnar nenhuma obra prima. (au-au).
- Mas até gostei daquela entrada sobre o ser preciso cultivar o artificial. (grasn-grasn)
- Não é isso, ele até diz que não se deve cultivar, mas ter presente, para que se possa sentir o natural. (piu-piuuuu)
- Sim, é mais ou menos isso, como é? "Gozo o céu porque  o vejo de um quarto andar de uma rua da baixa". (graasssn)
- E no campo, como tudo é ceú, não podemos ter a mesma percepção. (piu-piu-piu).
-Espera, pousa aqui um bocadinho. (auuuu)
-É, também gostei dessa. Aliás, gosto de quase tudo antes do segundo parágrafo e de ele começar em parafuso a entrar para o eu e a ser nada e levar a metafísica para a rua. Basicamente, veio a resumir nos textos acabados a tempestade da alma e isso está bem. (au-au-au-au-au)
- Como é  bonita a nossa Armação, olha que mar.(piu-piuuuu)
- É muito verdade. Mas o que se passa lá em baixo?(au-au-au-au)
- O grupo está todo excitado à volta do barco do Tonico.(auuuu)
- Excitado não, alterado, nervoso.(au-au-au)
- Está lá a ladra do barco das sete, estás a vê-la?(auuuuu)
- Pois está, armada em boa, a porca, branquinha, toda branquinha.(a-á-a-á-a-á).
-Vamos lá ver o que se passa, pergunta aí à miúda do ninho três que vai a passar por ti.(au)
- Que confusão é aquela lá em baixo? (au-au)
- Oh, é a porcaria da síndrome de estupidifcação do Nemo.(auuuu)
- Porquê? (au)
- O que é que achas? A ladra do barco das sete passou a tarde a ler excertos do livro do desassossego, o grupo está marado e ela vai debicando os restos que ficaram na areia.(au-au-au-au).

As duas gaivotas, a que se juntou a miúda do ninho três, desceram em voo picado, com  a mais afoita a deixar no ar um grasnar que questionava quem fora a porca que lhe andara a ler o livro do desassossego, mas o grupo pulava nervoso e de olhos esbugalhados em torno do dito livro aberto sobre o "Lourdes Maria Eu Sou De Você" com o síndrome de estupidicação do Nemo, repetindo a mesma palavra, o mesmo conceito, vezes sem conta e a ladra do barco das sete ia debicando os restos de comida - comida mesmo - na areia. Os velhos que vão enterrar os guarda-sóis na praia às sete da manhã para não perder o lugar estavam estupefactos: nem as rajadas de vento que lhes levam o spot perfeito se haviam revelado alguma vez tão ingratas como estas gaivotas eruditas. As três gaivotas amigas, incomodadas, voltaram à mansarda do Vista-Mar 1 em busca de novas leituras, enquanto ao longe distinguiam claramente o protesto do repetitivo do grupo, que só acalmou ia a lua cheia a sair do céu e outro dia a entrar: 

- redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redudante!, redudante, redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redundante!, redudante!, redudante! (au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au-au!)

PG-M 2013
fonte da foto

2 comentários:

Virginia disse...

Tenho a impressão de que não são só as gaivotas que andam a beber demais, este texto transpira a álcool:)))

Está um desassossego total!!

Abraço

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Virginia, olha que eu não toco numa gotinha:). Já a adrenalina intelectual anda sempre a mil!:)