2013-07-02

Lore & Saskia e o não dito


Parece que grassa para aí uma "corrente" irritada com a relevância dada ao não dito na arte, e neste artigo penso na literatura e no cinema. Mas o não dito, para o observador atento, quando acompanhado de pistas tão subtis quanto relevantes e simbólicas, como as que Cate Shortland (realizadora australiana - o filme é uma produção alemã e australiana, mas não há nada de australiano no filme além do dinheiro e da realizadora) deixa em "Lore", pode tornar-se bem mais avassalador do que o dito a mais, porque no não dito somos nós que nos implicamos. No filme, no livro, o preenchimento feito pelo observador releva-se uma experiência sempre poderosa. E neste filme vemos uma espécie de suspensão da beleza sem que nunca se abdique da luz e da cor, sendo que a beleza nos é devolvida de dentro para fora. Com o não dito trabalha a (quase estreante) actriz de vinte anos Saskia Rosendahl, que, assim mesmo, sem mais, compõe uma personagem que é quase um automático inesquecível. A forma como usa a espessura e a pressão dos lábios, que vão perdendo a matéria com que estavam pintados mas mantêm a dignidade, o corpo, que é tão frágil quanto forte, tão magro quanto sensual, e principalmente a doçura áspera de um olhar doente da "perfeição" de Hitler, em que Lorelei é educada sem ondas até ao dia em que a guerra acaba e o pai queima documentos e eutanasia o cão e gradualmente Lore vai descobrindo, proferindo as palavras oficiais do discurso nazi, mas contendo no olhar a certeza do que aprende: que afinal os assassinos eram eles. E Lore transporta essa dualidade mesmo contra o seu salvador ou amparo Thomas, por quem se apaixona num silêncio negro de sofrimento e fome na fuga da Alemanha ocupada pelos aliados, com uma visita faltal à parte russa, onde se faz tiro ao alvo a alemães "puros". Thomas percebe sempre que a bondade e a pureza de Lore se sobrepõem às palavras. Eu sou dos que discorda que está tudo dito e contado sobre o holocausto, tanto que até preparo um livro há anos para contar mais uma historia que não pode ficar por contar e ainda há muitas histórias por contar. Talvez cinco milhões e picos. O holocausto não é sequer um paradigma da maldade, é a evidência da nossa capacidade para ultrapassar os  limites, o que quer dizer que o contemos em nós. O mal. Lore é, apesar de uma adolescente arrogante, uma criança inocente e perdida num abismo que sempre lhe pareceu o modelo perfeito da felicidade, ainda que se saiba que, por mais que os oficiais nazis protegessem as suas famílias, o cheiro da carne humana queimada sempre passou as paredes dessas casas, de forma figurada ou real, não interessa, assim como nas terras onde essas atrocidades foram cometidas se infiltrou, não o choro, nem sequer o medo, mas o húmus humano, que afinal é representado numa província de lama que Lore e os irmãos têm de atravessar antes de chegar à casa da avó, que supostamente os colocará a salvo. Mas há todo um filme não dito (claro) que começa precisamente com os créditos finais. Obviamente imperdível. Saskia merece todos os prémios que já teve e até os que não teve. Vão vê-la e digam-me que não tenho razão.


PG-M 2013

3 comentários:

Virginia disse...

Já vi o filme há 15 dias e fiz a minha crítica no meu blogue ( cores em movimento).

Foi um dos melhores filmes que vi este ano, se não o melhor. Triste até ao fim, mas com uma pureza e sensibilidade impressionantes.

A tua crítica compreende-se melhor depois de ver o filme, creio eu:)))

Abº

Pedro Guilherme-Moreira disse...

eu escrevo sempre assumindo que as pessoas lerão as sinopses dos filmes. De mim só podem pescar o que eu pressinto como a essência. Às vezes apenas a minha, outras a dos outros, outras a das coisas feitas pelos outros.

Virginia disse...

Por acaso nunca leio as sinopses. Mata todo o suspense, que considero essencial para ver a sério. É como ler um romance, se se souber o fim, qual o interesse que nos move?

Mas gosto de ler criticas pessoais depois de ver os filmes....