2013-07-18

As minhas meta-merdices para-praísticas

Eu nunca ando de branco, até porque desfavorece tipos realmente grandes e eu sou um tipo realmente grande, talvez se descontarmos o herói Finn do Flann, e vocês, se andam atentos, já sabem que ando a banhos com o Flann. É que o Finn tem sorrisos do tamanho de milheirais, ombros que encaixados num desfiladeiro podem deter um exército e eu não chego a tanto. Só não sou um dos manipansos do Pessoa porque não sou baixo, mas gostava de ser um manipanso metafísico por uma manhã - no verão não é assim tão difícil. Uma vez por ano combino uns calções claros com uma camisola clara e sinto-me o Gabo num fato de verão a calcorrear Arataca. À noite tenho levado três livros debaixo do braço, peço um café comprido e leio um pedaço de cada um. De manhã, para a praia, levo outro, que ataco logo num bar de praia com os pés na areia e depois continuo sob o guarda-sol enquanto não são horas do banho. Costumo nadar em águas diáfanas em direcção a bóias amarelas distantes até o sol sair do meio do céu e enquanto nado livre tanto acho palermas os tipos que passam por mim em gaivotas de plástico a pedais que exigem um esforço descomunal para se atingir o ponto em que que valeu a pena o preço como digiro livros. Retiro um prazer bestial de boiar com o corpo quase todo fora de água, o céu azul é um paroxismo dessa treta da fusão com a natureza, que às vezes, em certos acidentes, acontece mesmo. Para poder ter mais livros e como não tenho muito dinheiro, li um nomeado do prémio Goncourt que me ofereceram nos anos em dois dias para o poder trocar por dois livros muito melhores e em saldo. Se o livro fosse bom, não me separava dele nem me acelerava. Não era, e pôs-me a pensar outra vez nos prémios literários, provavelmente por eu próprio ter sido um dos sete finalistas de um e não encontrar nisso qualquer mérito particular que não o facto de poder vender essa marca em conjunto com o pacote da minha fotografia e das minhas declarações bombásticas e das críticas simpáticas de gente realmente importante, rezando embora que ninguém se lembre de me atacar com os epítetos assassinos identificados pelo Aramburu, "o melhor da sua geração", porque nenhum ser vivo, excepto talvez o pescador Tonico de Armação, pode saber o que é a minha geração e muito menos obter pontos de comparação antes que morramos todos. Por falar do pescador Tonico de Armação, ele está todas as noites a comer com um amigo no café para onde me retiro a ler os tais três livros aos pedaços. Come tarde, sempre depois das dez da noite, costuma falar alto, raramente de generalidades, tem a pele curtida do ponteio e todas as marcas de um homem que trabalha muito e lê pouco, mas hoje notei um silêncio atrás de mim, o Tonico e o amigo detinham-se de cada vez que eu trocava de livro e esse silêncio tanto podia ser desprezo como espanto. E enquanto o Tonico comentava com a empregada Tânia o desgoverno do mundo eu lia sobre ele no Livro do Desassosego, não sei se se lembram daquela parte em que o Soares perora sobre realidade e metafísica, sobre ele próprio e o Moreira e o patrão Vasques, que afinal coloca lado a lado consigo, apesar de no ofício do pensamento se diferenciar. Pensa ele, o Soares, que fora Guedes, como há dias aqui foi mencionado. Depois passo para os ensaios do Orwell e andava a ler Flann à noite mas vai passar para as manhãs, tanto me vinha rindo dos episódios do Furriskey, principalmente daquele em que uma senhora tem um bebé de terceira idade que lhe morre com semanas, eu ri-me sozinho com o Flann a aprofundar a temática da arrumação de uma casa quando uma mãe tem um filho idoso, não, não é nenhum síndrome, é mesmo gozo do Flann sobre coboiadas irlandesas, a sociedade ainda se há-de levantar contra o facto - hoje (ainda) incontornável - de os bebés nascerem de tenra idade. O ensaio do Orwell é um meticuloso estudo sobre como os livros, afinal, custam tão pouco à face de vícios banais. Noto fascínio e estranheza dos pescadores perante a imagem de um tipo com ar de turista carregado de livros - os turistas só carregam um de cada vez. Quando regresso do café, caminhando pela ligeira rampa da rua Rosa dos Ventos, penso sempre se sou menos do que o pescador Tonico, porque tenho a certeza de que ele não é menos do que eu. Pode até acontecer que ele seja um grande leitor, mas um pescador sabe sempre parecer um pescador, mesmo que leia. Se cogito sobre a minha menoridade é porque fiz recentemente obras em casa e pode dizer-se que surpreendi a minha mulher por ter arregaçado as mangas. No final dessa semana extenuante, a cabeça parecia ter-se mudando para outra divisão do mundo, passou a ser sensível a todos os parafusos reais. Eu reclamava, meu deus, meu deus, estou a ser acometido da doença da bricolage, acordo com ânsias de ir ao LeRoy ver ferragens. Cada vez que resolvi um parafuso senti-me superior ao eu que lê, pode até dizer-se que o desprezava um bocadinho. E quando o leio na cara das empregadas do bar de praia ou do café da noite ou do pescador Tonico, mas principalmente quando regresso à noite, vitorioso, pela Rua do Rosa dos Ventos, venho é com pena de o Pessoa nunca ter conseguido resolver os passos circulares de um ego genial, como ele sofre, coitado, cheio de vontade de falar disso com o pescador Tonico, que o perceberia como guarda-livros e até a beleza do que ele diz que é sonhar a chegada do outono trabalhando na rua dos douradores e o conforto de quando se tem de acender a luz no escritório, tenho a certeza de que o pescador Tonico se riria tanto como eu do porco do Kelly a encher de muco praças e jardins de Dublin e sei, pelo olhar puro e em bruto dos miúdos das escolas, que a literatura cabe tanto nessas caras limpas e nesses olhos claros como em mãos calejadas e em peles curtidas e nos olhares sombrios dos pescadores de Armação, desde que, a uns e a outros, alguém fale, e não necessariamente seja, não necessariamente se confunda na sua existência, como Hemingway fez quando, como e enquanto lhe apeteceu. A literatura é um parafuso do Ikea, vem tudo contadinho, se falta um está tudo f., você é montador da sua própria lucidez pescador Tonico, tem cá maneira de explicar o que dos seus dias banais é superlativo para  todos nós e se no café, à noite, eu virar a minha cadeira para trás e o enfrentar, é possível que a faísca que sai do Flann O'Brien e os círculos do Pessoa e as estantes do Orwell ainda lhe sirvam de casaco para noites agrestes.
PG-M 2013
foto minha

Sem comentários: