2013-07-26

A lenda de Ana ou Barnard ou a sua sombra


Ana iniciou a sua existência num tempo tão primitivo que o arquitecto, apoiado no cotovelo direito, fumava um cigarro oblongo e ainda projectava galáxias e certas almas, apanhando-o distraído, transgrediam a espécie a que ele as destinara no primeiro caderno de esquissos. Ana era o princípio de uma mulher, mas não estava convencida de ser mais do que o princípio de uma outra coisa qualquer menos ela própria. Apanhando o mestre adormecido, fumava-lhe a última beata da noite e espreitava-lhe o caderno em curso. Na página trinta e três do caderno de galáxias havia um desenho de uma nebulosa que no espírito de Ana era a mancha da sua sombra, que por sua vez era igual ao desenho que surpreendera há dois ou três fumos no caderno de animais e a que o arquitecto chamara cavalo. Ana, por existir, largava a galope pela matéria negra da planície onde tudo seria escrito e isso repetiu-se a cada fumo, o indiscreto galope-à-beira-mar que um repentista cearense vai rasgar em decassílabos na gramínea unversal.
Ana foi um cavalo chamado Barnard durante a primeira parte da eternidade e escreveu nos cadernos e fumou as últimas beatas do arquitecto.
Quando o mestre quis organizar a criação, não entendeu pelos apontamentos se Ana era uma galáxia, uma nebulosa, um cavalo ou uma mulher. Então chamou-a e perguntou-lho, mas Ana largou a galope pela matéria negra da planície onde tudo seria criado e o arquitecto decidiu pela sorte que Ana seria aquilo que sempre a projectara para ser e não sabia: uma mulher.
E no princípio de tudo Ana foi outra coisa menos ela própria.
É por isso que cada vez que uma Ana nasce ou morre, ou apenas fraqueja das pernas e se prostra de cansaço, um ponto da nebulosa Barnard 33 é acrescentado na constelação de Oríon e neste ponto da eternidade já se divisa no céu, a mil e quinhentos anos luz de distância, uma cabeça de cavalo que ficará completa no próximo milhão de fumos por cada Ana que vier ou partir ou apenas fraquejar e um repentista do ceará trautear de alma o decassílabo de um galope-à-beira-mar.

PG-M 2013

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