2013-07-11

A explicação da mulher que apaga as outras


Na escola ela, alta, elegante, deslocava-se ao meu lado como se não tivesse peso, mas tinha, porque era tudo para mim.
Já eu era mesmo pesado e atava os pés ao andar mas era leve para ela, leve e transparente, não era nada, mesmo nada, e, no meio da minha estupidez, sempre tive a esperteza para  aprisionar a esperança de que um dia - por exaustão -  ela se apaixonaria mim - o meu pai, obeso como eu, avisou-me no leito da morte, tinha eu treze anos, a adolescência vai ser o mais duro deserto da tua vida, nenhuma adolescente algum dia se apaixonou ou apaixonará pelo lado de dentro de um rapaz.
Quando ela trazia o vestido preto e as pernas dela por trás eram tão perfeitas que eu era assombrado sempre pela mesma imagem antes de me aproximar e lhe dizer olá, eu de joelhos abraçado à cinta fina dela a chorar de raiva com as mãos sobre um joelhinho e ela, vá lá, só um beijinho no esquerdo, mas tira a mão, tá?, e eu a aproximar-me a morder os lábios e a dizer olá, e ela
- Estás tão vermelho, Johnny.
e eu três vezes, e as três vezes a gaguejar, é o calor, Rita, é o calor, é o  calor.
- Calor em Dezembro?
- É o ar condicionado, Rita, o ar condicionado, o ar condicionado.
Ela torcia os lábios, eu mordia os meus e continuava o serviço público que ela nunca me agradecia.
Amparar-lhe a solidão.

Quando as amigas da Rita perceberam que se apagavam atrás dela e ninguém as via, afastaram-se. E se ela se chegava nos intervalos tudo o que fazia e dizia era mais bonito e mais bem encenado, e a Rita deixou de as ver e então chegaram-se as inimigas que a queriam mimetizar, mas mesmo as inimigas se apagavam pouco depois, e ao princípio, quando a Rita tomou formas de mulher, os homens vinham todos como ímanes, mas começaram a ter um padrão previsível e isso cansava a Rita e cansava os homens, que sabiam que junto à Rita eram sempre muitos e que tê-la a ela significava perder todas as outras, e com o crescimento vai-se também a pureza e subitamente a Rita, que era boa de coração, era a culpada de tudo, era culpada de ser boa aluna, bonita, alta, elegante, e havia celebrações boçais quando perdia a fotogenia num momento espontâneo. Os homens, certos de que a Rita não os queria e para impressionar as amigas e as inimigas, perderam a circunstância e a pouca delicadeza que tinham, não lhe exaltavam a beleza mas apenas a cópula, todas as cópulas potenciais, e se ela lhes falava era puta, e se não falava também.

A Rita ficou sozinha, execepto o gordo.
Mas como o gordo não era ninguém,
a Rita ficou mesmo sozinha.

Quando a Rita encontrou o amor da sua vida, mais pequeno e menos bonito do que se esperaria numa Rita, e que à custa de tanto mentir (és como uma irmã para mim, não tenho nada de sexual contigo) a conquistou e um dia foi beijado e desviou a cara e afastou-a, ele tinha planeado isto ao espelho durante anos, um dia, se acontecer, afasto-me e levo a situação ao limite de ela pensar que eu não a quero e aí a solidão já será tão esmagadora que pode acontecer que a Rita me venha a amar, isto pensava o pequenito, não o gordo, que o gordo a Rita só reencontrará daqui a pouco, quando um dia o amor da vida dela a conquistou, a Rita foi mãe duas vezes e ficou gorda e deixou de apagar as outras.

A Rita, quando tinha tempo entre os dois rebentos, sorria ao espelho por ter deixado de apagar as outras e assim ter acesso a amigas novas, não velhas, porque o desprezo misturado com felicidade das amigas e inimigas no jantar dos quinze anos de turma a empurrou para o ginásio para recuperar a forma e voltaram os homens como ímanes a dizer sempre as mesmas coisas no mesmo padrão que raramente é elegante, e embora isso seja o assumido ridículo do masculino, nem a Rita, nem nenhuma mulher, aguentam mais do que alguns. Depois cansam-se.

Um dia a Rita encontra o gordo no facebook.
Não, não é um conto de fadas, o gordo ainda era gordo e a Rita voltara a ser deslumbrante. Trocaram palavras amigas, mas só depois dos quarenta anos, numa esplanada de praia e de óculos escuros, ocorreu à Rita que o gordo lhe amapara a solidão. Quando lho quis dizer, ele não quis ouvir. Diz-me no ginásio, se tiveres coragem. Tu andas no ginásio? Há alguns anos, Rita. O gordo ainda era leve e transparente.

No ginásio, entre aulas e sessões com nomes estrangeiros muito saudáveis, reencontraram-se para tomar um café.
O gordo quarentão era mais interessante e bem humorado, pensou a Rita, e disse-lhe tudo do fundo e olhou para dentro dele e ele, engraçado, mimetizou a visão que tinha todas as manhãs aos quinze anos, ajoelhou-se como se se fosse declarar e disse-lhe que se pusesse de pé. Ele, sem deixar de rir, abraçou-a pela cintura. O que é isto?, perguntou a Rita, preparando a gargalhada. Tu dizias, disse o gordo, vá lá, só um beijinho no esquerdo, e eu dava, mas tudo o que viste sempre foi a minha cabeça grande suada e vermelha.

O gordo deu um beijo curto no joelho esquerdo da Rita, ela a gargalhada, afastando-o com ternura.

O pequenito apareceu, o que vem a ser isto?, a Rita apresentou-lho e ele deu-lhe um abraço, temos falado muito de ti, acho que o agradecimento não vem tarde, pois não?

Talvez não.

Agora a Rita pensa que, com cinquenta e tais já não apaga as outras. Mas apaga. Só que isso, com dois filhos adolescentes e um amigo gordo e um marido pequenito, tem o brilho polido que aos quinze anos não cabe no buraco negro.
Na escola ela, alta, elegante, deslocava-se ao meu lado como se não tivesse peso, mas tinha, porque era tudo para mim.

Ainda é. Mas um homem aprende a viver com isso.
E se falar, se escrever, se exorcizar os assombros num cena de amigos quarentões num café de ginásio, se explicar que as mulheres que apagam as outras  nos tomam pelos lábios que se mordem pela contenção, como na arte, sobrevive. Elas também.

PG-M 2013

4 comentários:

helena frontini disse...

Bem, que dizer? Está muito bem escrito. Prende-nos ao monitor. Parabéns.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, Helena. Fala agora o escritor ter merecimento na sua escola:).

helena frontini disse...

Todos os anos fazemos uma Mega Feira do Livro no colégio onde trabalho, já lá vão 20 anos. Conseguimos que por lá passassem grandes escritores para os quais preparamos os miúdos (2º, 3º ciclo e secundário)com a leitura das obras e a preparação da entrevista. Pela generosidade com que dispuseram do seu tempo, recordo João Aguiar (cujo talento considero que nunca foi devidamente reconhecido) e que, da 2ª vez que veio até nós, já estava muito doente; o António Mota (um incrível contador de estórias, no papel e não só...); o Richard Zimler (creio que quando sugeri o nome dele, me chamaram louca, nunca imaginando que ele viria a uma escola perdida numa aldeia; mas também Rui Zink, Maria Teresa Maia Gonzalez, Ana Maria Magalhães, e dezenas de outros... (muitos deles repetentes na causa de se dar a conhecer aos alunos)
E, contrariamente ao que se pensa, vende-se muita nessas feiras, apesar da crise. Mas, sobretudo, lê-se muito. O departamento já está a trabalhar nisso. Eu já dei várias sugestões, vamos ver o que decidirão e o que conseguiremos fazer. Foi lá que o bichinho da Roberta começou a roer (a ela e a milhares de alunos que no dia aberto da feira lá voltam para matar saudades).

Pedro Guilherme-Moreira disse...

por saber disso é que me fiz convidado:). O ser "conhecido" é algo relativo. No meu caso, eu sou sempre próximo. E os miúdos têm matéria de sobra para me conhecerem. Só o blogue do livro, http://amanhadomundo.blogspot.pt, tem a infindável recepção crítica - tive muita sorte. E faço questão de que alguns fiquem comigo sempre, ligados por cordas:). Das muitas escolas que visitáveis, falta-me a vossa e a Inês de Castro, em Gaia, que tem fama de excelêcia na recepção. Sou vosso criado.