2013-06-10

E afinal o cruzamento das existências

Que não são existências de merceeiro nem contáveis a balanço. Onde é que eu meti o papel onde tinha apontado o nome dos miúdos? Vamos lá registando o que ouço enquanto escrevo isto. Daft Punk. Al Green. Mozart. Portanto,

existências são vidas, não litros de feijão branco


Rapazes e raparigas de quinze e dezasseis anos na EB2+3 de Valadares, Gaia.
Al Green outra vez. How can you mend a broken heart.
Filipe, Ana Rita, Catarina, Mónica, Rúben-sem-assento-stôr, Luís, Miguel, Renato, André. Mais, muitos mais. Lembro-me de muitas caras. Neste artigo vão importar pouco, porque vos quero falar de uma espécie de trauma universal da educação, que é a comunicação entre adultos que levam mais de vinte anos de maioridade e crianças adolescentes no século XXI.
Daft Punk outra vez.
Já tínhamos perdido o direito a tocar nas nossas crianças mais pequenas, agora estamos a perder o direito de comunicar com as mais velhas. Num tempo de comunicação, é nossa responsabilidade não cortar o cordel ou deixar que se corte. É-nos imperdoável a solidão adolescente. Não nos perdoamos se deixamos de agir perante sinais evidentes, e no entanto abandonamos muitos deles à sua sorte porque achamos que não devemos correr o risco de comunicar. Vamos a escolas como escritores e dizemos, com propriedade, que aprendemos mais com eles do que eles connosco, e no entanto impomos socialmente um corte mal os encantamos.
Porque não sabemos comunicar? Porque não queremos? Porque não falamos a mesma linguagem?
Snow Patrol. Chasing Cars. Al Green. Love and Happiness.
Não, porque estes jovens seres fascinantes que nos olham com um misto de indiferença e curiosidade já têm, quase todos, aparência de homenzinhos e mulherzinhas, alguns até são bonitos, sacrilégio, e o ar está viciado pelo estigma do abuso do mais forte pelo mais fraco. Os professores procuram-nos e, quando nos trabalham bem, têm de gerir o arrebatamento dos seus alunos. So what? Quando eu vou às escolas, penso apenas que devo dar aos miúdos a oportunidade que nunca tive: encontrar um escritor. Flagrante o caso da Ana Rita, que já leva duzentas páginas do primeiro romance escritas e a quem eu pedi para não ter pressa, e principalmente para não colocar a publicação no centro do sonho. Como alguns de nós escreviam aos seus escritores favoritos as velhas cartas de envelope e selo, agora eles escrevem-nos cartas digitais, ou nós a eles. Se uma criança consegue sair do seu pequeno quadrado azul e comunicar com o seu escritor, vai mais longe do que a maioria dos seus colegas. Se consegue sustentar um discurso que interesse ao seu novo "amigo" e interlocutor o suficiente para responder, avança na existência.
No meu caso não é, nunca é, comunicação de uma só via, e eu venho sempre marcado por um ou outro que me desconcerta, me toca, me espanta, me faz orgulhoso por ter conseguido falar-lhe para dentro. Desses não me quero perder nunca. A maturidade do que muitos escrevem, e não falo de sobredotados como o Rúben-sem-assento-stôr (ele sabe que eu estou a brincar e porquê, entendemo-nos mais do que bem na mesa do "congresso", ele foi o leitor de serviço, bebeu da minha água e desviou o meu copo, aguentou-se como um herói:), dizia, a maturidade do que muitos escrevem na sequência das sessões é quase sempre desconcertante, e por isso mesmo nunca me falta vontade de saber deles, de saber a direcção que seguem, de saber se valeu a pena ter tido a presunção de lhes dar conselhos, se ficamos dentro da alma de algum para sempre. Yael Naim.
A minha experiência de escola tem menos de dois anos, como escritor, e mais de quinze como advogado, e asseguro-vos de que me ficaram inscritos a fogo, já, uma dúzia de nomes que eu não quero perder de vista e, se perder, vou ter pena e saudade. Aliás, nomes do princípio das palestras como advogado já se licenciaram e são hoje meus amigos. O caso do Bairro do Aleixo, que eu não vou contar aqui, marcar-me-á para sempre.
Morricone.
Ao olhar uma plateia de jovens eu não posso ficar indiferente a olhos que gritam, a corpos que, entre velarem-se e espreitarem como que a suplicar que os vejam sem os chamarem, querem, não só ser incluídos, como, mais, muito mais do que isso, protagonizar uma verdadeira mudança interna. Querem mostrar o que valem, por uma vez, fora do circuito de mediocridade em que muitas vezes se deixam enredar. Ou nós os enredámos.

Eu chamo-lhes os meus meninos e arrepio-me por eles, comovo-me com eles, sinto-me respeitado e útil, sinto até mais: que consigo uma comunicação transversal em termos etários, de tal forma que não há clivagem ou escassez de conhecimento em múltiplos sectores, e eles fazem-me melhor pessoa porque me tiram desse olimpo forçado e me obrigam a percebê-los de perto. Shostakovich.
Talvez eu quisesse ser o professor deles. Talvez parte da vida tenha sido conduzida com a imagem do Robin Williams n'"O clube dos poetas mortos" em cima de uma secretária a gritar Walt Whitman, "Oh Captain, my captain!".
Daft Punk. Carpe Diem.
Catarina - e o corpo inquieto - escolhe a coxia. É a eleita de Valadares. E os olhos cheios de perguntas e coisas para dizer. Mal se senta tem a postura crítica e veemente de quem sabe o que quer, mas está escondida a pedir para ser descoberta. Rapidamente lhe descubro a vocação artística. Não importa se escrita, se encenada. Quando estão a colher os meus links, Catarina deixa escapar que ela própria tem um blogue. Afronta o escritor, avançando a hipótese de ser mais a preocupação de marketing e vendas do que literatura. Gosto disso. É castigada com a oferta de um exemplar d'"A manhã do mundo", devidamente autografado. Depois faz as perguntas mais avançadas da sessão. Não é surpresa que os menos comprometidos consigam chegar mais longe: permite ao escritor descrever, lá das profundezas da própria existência, o processo endógeno de escrita. Como poucas vezes o fez. Para Catarina faz sentido. Catarina tem escrito pouco e, naturalmente, equilibra os seus quinze para dezasseis anos com o breviário do adolescente, mas entretanto diz-se que nenhum de nós acaba ali, naquela sessão, quem quiser pode seguir os outros enquanto eles, e/ou o grande irmão, quiserem. O escritor acha sempre que é humildade e educação ler e apreciar o que lhe é dado a ler. Pois Catarina continuou para lá da tarde de 6 de Junho de 2013. Queria eu ter escrito aos quinze anos como Catarina escreve. Que é muito e bem, fora a praga moderna do pretérito perfeito, que se treina com mais e mais leitura. O mestre deve aprender-se a si próprio pelo estilo e pelo trilho de quem o segue como quer e quando quer.
No final, passa Lana del Rey, Vídeo Games.
Que é ouvido por mestre e discípula.
Se na idade de Catarina eu soubesse que ouvia o mesmo que o escritor por quem tinha fascínio, o tempo tornava-se relativo com dispensa de físicas quânticas. A vida nunca deixaria de fazer sentido e haveria sempre a oportunidade de perguntar, num dia pior, por qual vereda segue o caminho adequado.
E afinal estamos todos aqui ao mesmo tempo, e essa oportunidade não deve ser toldada pelo medo e pela hipótese da maldade, porque a bondade é mais contudente e clara, os que começam como os que continuam como os que acabam e que, à luz de uma palavra em estado puro do bisneto que sabe ler o olho claro do bisavô moribundo, dão no começo da vida o seu sentido ao que a está para acabar.

E afinal o cruzamento das existências.

PG-M 2013

5 comentários:

Catarina Pereira disse...

Oh meu deeeeus, adorei!! Muito obrigada mais uma vez e excelente escolha musical :) Vou mostrar ao resto o texto, eles vão adorar também!! Obrigada mais uma vez :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado a vocês, Catarina, especialmente a ti, por seres a ponte de comunicação.

Isto e aquilo disse...

Ó Pedro é tão comovente isto tudo. E percebo-te tão bem... :)
Eu sei que estamos longe, mas acho que um dia ia gostar que viesses também à minha escola, falar com os meus alunos.

Beijinho

Virginia disse...

Pedro,


que saudades este texto me deixou do tempo em que havia alguma osmose entre mim e os meus alunos. Sabia que o inglês se metia entre nós por vezes, não nos deixando comunicar tão fluentemente quanto desejaria, mas houve sempre caras e nomes - adolescentes - que me deram uma autêntica lição de criatividade, de competência, de sonho e realidade.
Tenho mesmo saudades de alguns alunos - desde 1971 até 2008, ano em que deixei a Escola. Nunca mais lá voltei, à vezes encontro-os, gostava de não perder a memória deles...ainda guardei alguns trabalhos.


Este texto é lindo.

Obrigada!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

é muito curioso como às vezes andamos sozinhos nas nossas lutas. A luta da escola, não sendo a minha de todos os dias, é obviamente de todos nós. O que sempre faltou nos jovens adultos foi encantamento e arrebatamento onde sobra medo e dúvida pelo futuro. Eu vou a todo o lado, Isabel. Confesso que o único lugar que me tem falhado, por ser muito longe, é a prisão de Pinheiro da Cruz:). Mas escolas nunca recuso, sob pretexto algum. Há é condições ideais - quando o nosso livro é contrato ou, pelo menos, bem lido - e menos ideiais. Mas é sempre bom:).