2013-05-05

Oprheu e a mãe branca (ou quaquer outro nome da luz, mesmo que seja preta)


Vais ver, mãe, que vai ser um arqueólogo a descobrir que o Orpheu do avô é toda a nossa existência em demanda antes de tempo. Já te perguntaste sobre a obsessão? Com tanto para descobrir em Paris, arriscando um encontro com Pessoa, Sá Carneiro, Picasso, Souza Cardoso, Modigliani, todos tanto, porque é que o avô se fechou naquela cave bafienta no setenta e tal da Rue Vercin e modelou aquele gigante como se estivesse a modelar a própria carne e a de todos os seus filhos? Aquele olhar ausente, tão subido que parecia ter dado a volta desde o inferno, pelo céu que lhe é adjunto. Já te sentaste na escadaria do pavilhão meio esquecido do outro lado do jardim das Belas Artes do Porto e olhaste para o Orpheu do avô? Não? Faz isso e há uma coisa que te vai parecer evidente: o avô deu à estátua todo o nosso sofrimento. Já não tens de o suster em ti, só o medo, um medo breve, e depois deixa que o Orpheu te ampare os golpes e te sorva as lágrimas e que enquanto beba te deixe os sorrisos que lhe foram vedados. Não vês? Ficou tudo lá, o passado, o presente e o futuro de todas as nossas dores. Por isso te deves deixar elevada, mãe, e branca (ou qualquer  outro nome da luz, mesmo que seja preta).

PG-M 2013

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