2013-05-21

O que são campeões (longas notas sobre o que é ser homem através do desporto à sombra dos atletas que começam)

Aqui se falará de campeões.
De todos os campeões na óptica da pirâmide invertida, que na realidade é uma pirâmide direita, porque os nossos pequenos são a base larga de qualquer sistema humano. Aqui se tentará tocar na essência do desporto através de uma história aparentemente concreta, mas que na realidade é apenas um modelo. Quase vinte anos. Quase vinte anos a jogar voleibol para chegar a pai e ver o filho perder na negra a final do campeonato nacional de voleibol de infantis, há umas horas. Um sofrimento que se esplanou no tempo e veio dos dias anteriores aos três da fase final e se prolongou até este momento, em que parece que o corpo do filho nos regressa depois de dias de pavilhões intensos, muito intensos, muito largos, muito amplos, muito luminosos, com muita gente boa a afinar gargantas e a bater bombos, com faixas e camisolas - em que havia uma que se destacava, e já lá vamos.

Neste fim-de-semana de Maio de 2013, jogou-se em Esmoriz, de sexta a domingo, a fase final do campeonato nacional de voleibol, no escalão 12-13 anos. Vou deixar de fora destas notas os que se classificaram de quinto a oitavo (Esmoriz, Ginásio Vilacondense, Colégio Frei Gil e CV Oeiras) apenas por razões de ordem prática: muitos deles também teriam belas histórias para nos contar, com destaque para o Esmoriz, a terra onde o voleibol se vive com paixão e saúde, sem sobranceria, e que organiza torneios e fases finais sempre de forma exemplar. Há trinta anos o meu pai treinou este clube e fez, além de campeões, o sentimento que ainda alimento por esta terra - um destes dias vi esses maduros, com muita saudade, jogar contra a equipa de seniores actual: saudade das sardinhadas de verão no pátio lá de casa, quer ganhássemos, quer perdêssemos.
Saudades também dos tempos de rádio em Esmoriz, na RVE, 93.1 MHz, onde fui locutor no princípio da década de noventa:).

Voltando à fase final, dos quatro primeiros, se tivéssemos de fazer um ranking do ano 2012/2013, colocaria a Académica de Espinho em 1º (não perdera, até aqui, um único jogo), o Benfica em 2º (também sem derrotas), o Atlântico da Madalena em 3º (perdeu apenas com a Académica de Espinho) e o Ginásio de Santo Tirso em 4º (perdeu todos os jogos oficiais com a Académica de Espinho e com o Atlântico). No final do campeonato, invertemos este ranking e temos o que se passou: o Ginásio de Santo Tirso foi campeão (ganhou a meia-final à Académica de Espinho, principal favorito, e a final ao Atlântico), o Atlântico vice-campeão (ganhou a meia-final a um excelente Benfica), o Benfica terceiro (ganhou o jogo de apuramento do 3º lugar à Académica) e a Académica de Espinho em 4º. Se formos falar tecnicamente, e esta é a modesta opinião deste escriba, o Benfica é a equipa mais evoluída, graças a um trabalho meticuloso do professor Marco Silva. Tacticamente foi o Ginásio de Santo Tirso: viu-se o trabalho do professor Durval nos mais pequenos detalhes: aquecimento - o mais prolongado de todas as equipas -, direccionamento do serviço, ataque ao espaço vazio, distribuição dinâmica, recepção. O Ginásio tem também o melhor jogador nacional deste escalão, Diogo Alves, que aos treze anos é um exemplo desportivo de trato, trabalho e humildade.
Já o Benfica tem a desvantagem que sempre tiveram os clubes a sul: não tem com quem competir durante a época, mas agora compensa isto com um visionário do voleibol, o professor Jardim, que faz um trabalho quase impossível a coordenar os vários escalões e a formar jogadores, e por isso se sente que o Benfica não é só o campeão nacional de seniores porque compra, mas também porque, com muito esforço, forma. Em rigor, qualquer apaixonado por este desporto em Portugal devia gostar deste Benfica, porque a norte o FC Porto desistiu há muito do voleibol, e só recentemente se lembrou dos seus velhos campeões, entre os quais o médico do futebol, o Professor Puga. Esse esforço esteve patente nas bancadas do pavilhão: os miúdos do Benfica conquistaram a assistência, e mesmo a claque, que, se ao princípio se isolou, quase com medo de ser hostilizada, depois se fundiu com as outras claques, principalmente com a do Atlântico. No Benfica destacamos dois rapazes, sem querer ser injusto com nenhum outro: o João, o número 1, que com a sua pose veemente e actuação aguerrida une a equipa, e o Manel, o número 7, que é um voleibolista puro, perigoso, certinho, bom distribuidor, muitas vezes mortífero atacante.
Nós emprestámos os bombos à claque do Benfica para o apoio no último jogo, eles deixaram-nos os leques que faziam barulho e diziam "Apoie o Benfica rumo ao título. Força Benfica", e foi com esses leques que apoiámos os miúdos do Atlântico na final, com os bombos de regresso. Temos a certeza de que tocámos, e fomos tocados, pela equipa e pelos apoiantes do Benfica, assim como o Benfica ficou no coração de todos. Vamos já chegar à questão Académica de Espinho e o porquê de não terem sido apoiados por outras claques (além da óbvia razão de serem os papa-tudo da época, e por isso os naturais vilões, e o apoio tender sempre para os teoricamente mais fracos), questão que, como verão, é mais uma questão de "Espinho", e que nada se relaciona com os garbosos miúdos da Académica que jogaram esta fase final, nem com o seu treinador, Fabrício, que curiosamente é jogador dos seniores do Altântico, e considerado um dos melhores atacantes nacionais.

Antes disso falta dizer porque é que o Ginásio de Santo Tirso ganhou e porque é que o Atlântico perdeu. Há vários motivos, claro, mas dois principais:  um técnico e um desportivo. O técnico explica-se numa palavra: distribuição. Dizer "Diogo Alves" seria injusto para todos os outros rapazes do Ginásio. Claro que o Diogo faz a diferença, mas vou tentar explicar o porquê da "distribuição" (o acto de passar a bola aos atacantes - e o Atlântico tem-nos bons, Guilherme, Rui, André, João, Nuno): nos escalões minis, imediatamente antes deste, é estimulado o adorno da bola com as mãos (no meu tempo, havia até um exercício em que agarrávamos a bola uns segundos, e só depois a largávamos com os dedos), para que possa haver adaptação ao gesto e mais sustentação de bola no ar, afinal a beleza do voleibol, sendo normalmente perdoados os transportes de bola menos evidentes e o duplo toque (ou a mudança de direcção da bola). Mas o primeiro escalão com jogos completos em court completo é precisamente este, o dos doze/treze anos. Os miúdos estão ainda em adaptação, e há uma certa tolerância da arbitragem (como é justo que haja), tolerância que se estendeu aos jogos desta fase final. Mas essa tolerância acabou precisamente no jogo da final e no do apuramento do 3º. Acabou a tolerância e acabou o bom-senso. Porquê esta ideia peregrina de ser pedagogo no fim? O espectáculo (estes rapazes já têm momentos de espectáculo) e ambas as equipas foram penalizadas, mas os distribuidores do Ginásio estão menos "viciados" na técnica do escalão anterior (um deles é o mesmo Diogo, o outro o Álvaro). O jogo também perdeu fluidez, as jogadas foram interrompidas pelos árbitros e não puderam prosseguir normalmente: isso foi especialmente claro no quarto set, quando os distribuidores do Atlântico - principalmente o massacrado Miguel - já não sabiam como passar a bola e toda a equipa ficou afectada. O trabalho de toda uma época do professor Hugo Leão no Atlântico, ali apoiado presencialmente pelo bem sucedido treinador dos seniores, professor JP (uma atitude muito bonita, esta sim de campeão) acabou por ser posto em causa por uma dupla de árbitros demasiado zelosa. Ter levado o jogo a discussão até ao último ponto da negra, nestas condições, foi já um esforço hercúleo para os distribuidores agora vice-campeões. Por isso está o Atlântico de parabéns: no terceiro set com o Benfica e durante quase toda a final, mostrou a cabeça fria que decide jogos. Na própria negra, depois de um quarto set enervante, e começando em desvantagem psicológica, houve um momento, aos 10-6 para o Atlântico, em que tudo poderia ter sido diferente.
Já a razão desportiva  é precisamente o exemplo de ascenção do Ginásio de Santo Tirso: não havia nada a provar, era preciso apenas ter consciência do próprio valor e não ter medo das camisolas que os tinham vencido durante a época. 
Em resumo, "Acreditar", que era precisamente o que estava escrito nas camisolas da claque do Ginásio. Essa palavra teve o duplo condão de inspirar os jogadores e intimidar os adversários, que iam percebendo que a lógica da época não estava em vigor, e que, afinal, a humildade, a concentração e o trabalho também vencem jogos. Um grande trabalho do professor Durval.

Do lado oposto desta atitude está o Espinho voleibolístico - não, repito, os garbosos múdos da Académica nem o seu treinador, Fabrício. Espinho, que é uma cidade belíssima. Também belíssima é a paixão pelo voleibol, mas há um lado bê: gerações de sobranceria endémica, desde o tempo em que todos os espinhenses se tratavam por "sócios" - ser vencedor pode não significar ser um grande campeão. É uma sobranceria que, no futebol, podemos ver nos benfiquistas: parece que este ano muitos se olharam ao espelho e que começa a haver uma certa auto-consciência de que é importante que nos divertamos e que saibamos agradecer e mimar os adversários, porque são eles que abrilhantam as nossas vitórias. Ainda hoje um amigo benfiquista, ciente dessa realidade, me disse que, por mais que tente suavizar a sobranceria de alguns, não consegue. Em Espinho essa sobranceria demorará algumas gerações a ser corrigida. Do que vi nos primeiros escalões (minis, sete a onze anos, por aí)  é melhor nem falar, até porque já o escrevi aqui.

Cultura de vitória a todo o custo será cultura de campeão? Campeão é o que sabe que a glória é efémera e que tudo é relativo: eu nunca fui feliz nos anos em que fui atleta em Espinho (num deles fui também isto: vice-campeão nacional), e fui muito feliz em todos os meus quintos lugares como atleta jovem no Colégio dos Carvalhos. Eu e o meu irmão fomos convocados para a selecção nacional pelo Colégio, não pelos "Espinhos". E foi na selecção que aprendemos o que era lutar por um objectivo comum, coisas que as crianças de hoje têm desde cedo, com o projecto das selecções das Associações de Voleibol regionais. Muito mérito, a norte, dos professores Nuno Valente e Zé Manel, que todos os Domingos e Segundas lá estão, em Matosinhos, para acolher os bons e os menos bons, criando um espírito colectivo e uma amizade que transcendem clubites (aliás, estão vedadas as camisolas dos clubes nesses treinos) - tudo ganha sentido quando os miúdos que conseguem atingir um certo patamar se encontram desta forma. Mas há uma excepção: os iniciados da Académica de Espinho, também principais candidatos ao título deste ano, e onde joga o meu querido sobrinho Simão, estão proibidos pelo seu treinador de por os pés nas selecções da AVP,  e por isso de conviver com os seus pares. É uma opção respeitável, dir-me-ão. Mas também triste. Foi do mesmo lado que ouvi aquela célebre frase dos doentes compulsivos por vitórias, quando o meu filho Guilherme foi perguntado em Espinho pela época desportiva, e disse "fui vice-campeão regional". Resposta: "Isso não é nada. Isso é ser o primeiro dos últimos." Brincadeira certamente, daquelas brincadeiras de bom gosto que se fazem na cara de atletas de treze anos. Agora o Guilherme poderia dizer que foi também o primeiro dos últimos como vice-campeão nacional, que também é nada, claro, como o Benfica foi o segundo dos últimos e os próprios infantis da Académica de Espinho foram os terceiros dos últimos. Mas isso não é ser campeão. O que terá dito esta eminente figura perante a célebre cena da atleta suíça, Gabriela Andersen-Schiess, quando a viu a chegar à meta, quase de rastos, na maratona dos jogos olímpicos de Los Angeles, em 1984, e que levou quase dez minutos a percorrer os últimos duzentos metros, desidratada e com um choque de calor? Fácil: pelas contas dele, basta retirar uma unidade à classificação geral e dizer (como ela foi 37ª em 44), "esta foi a 36ª dos últimos". Por esta bitola a medalha de prata é sempre a primeira dos últimos e a de bronze a segunda. Dos últimos. Mas talvez se engane. Vi em todas as crianças de todas as equipas a fibra de campeão, cada uma dentro dos seus limites, umas amedrontadas para na próxima se superarem, a maioria a superar-se mesmo. É essa a definição de campeão. Só essa, mais nenhuma.

Agora o meu campeão está sentado ao facebook a receber e dar os parabéns aos adversários, com o cachecol do Atlântico ao pescoço e a medalha de finalista ao peito. Foi, apesar de tudo, uma felicidade, depois de dois meses no estaleiro, com duas lesões chatas que puseram em perigo toda uma época. Durante toda a fase final soube aplaudir e consolar todos os adversários e as suas claques. No fim desta aventura, fora do mundo, quando as buzinas soavam lá fora por mais um tricampeonato do FC Porto em futebol, eu tentava gerir dolorosamente o facto de o meu filho, o meu campeão, não ter conseguido levantar a taça. Sei bem que, a longo termo, seria muito mais difícil gerir as suas expectativas na vida e no próprio desporto se ele começasse por ser campeão e depois não ganhasse mais nada. Sei que os grandes campeões devem primeiro aprender a divertir-se, depois a perder, depois a ganhar e finalmente a divertir-se outra vez, e que isso os prepara para a glória e os serena quando ela não vem.
Mas sabem vocês o que me apaziguou definitivamente, além de sentir que estou a voltar à grande família do voleibol, que abandonara quando encostei as sapatilhas Rucanor laranja de sola fina e as bolas Molten brancas, em 1987? Perceber que nos meios voleibolísticos deixei de dizer que sou um "Pedrosa", filho deste e irmão daquele, colega do Maia e do Brenha, para passar a dizer que sou o tio do Simão da Académica de Espinho e o pai do Guilherme do Atlântico.
Aí estão eles, a apaziguar-nos.
Aí estão os novos campeões.

PG-M 2013
fonte da foto de Gabriela Andersen-Schiess 
restante fotos do próprio

2 comentários:

cheio de truques disse...

Os meus parabéns pelo excelente texto. Educar é a melhor maneira de formar "Campeões", e os verdadeiros, são aqueles que se prestam, que partilham, que confraternizam, que felicitam, que consolam. Hoje são miúdos, amanhã serão graúdos, e as sementes do hoje germinarão no amanhã, e eu tenho a certeza que as suas sementes serão vencedoras, pois escolhe o que semeia e a terra onde o faz. Eu esforço-me por fazer o mesmo e espero que outros pais percebam que existe muito mais para além de "ganhar", sendo o mais importante, o ser humano que se está a formar com o nosso exemplo como espelho. Muito obrigado e bem haja.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Alexandre. Abraço para si e para todos os meninos do Benfica! Voltem sempre!