2013-05-09

O Porto não perdoará

Quando a Apel anunciou, lá de longe, de Lisboa, que, pela primeira vez em 83 anos, não iria realizar Feira do Livro no Porto, eu achei que tinha de saber mais sobre esta enormidade. Conheci aquele a que chamo, no mínimo, de discurso inábil e sem visão (eu gosto mais de "sarrafeiro", mas pronto, fica inábil) dos políticos locais do Porto, tipo "se não há dinheiro para pão, não há dinheiro para livros" ou "se eles querem vender livros, que paguem eles" (as citações são paradigmas, e não ipsis verbis, e afinal, tantos foram os crimes políticos contra o Porto: lembro-me, assim de repente, da destruição do Palácio de Cristal para receber um mundial de hóquei). Consegui falar rapidamente com políticos hábeis, e percebi que soluções para a feira se realizar não faltavam. E em tempo. Há já movimentos vários para que a feira se realize e haveria sempre a possibilidade de angariar os 75 mil euros (bastava o apoio de uma televisão num Domingo dolente). Mas agora tem de se fazer a pergunta: e se a Apel não quiser? E se a Apel quiser castigar politicamente os políticos do Porto, ainda que houvesse dinheiro e lugar e tempo, como havia? A verdade é que não consta que a Apel tenha respondido positivamente a apelos de quem quer que seja, e já houve muitos, mesmo muitos, e de peso. Agora é porque já não há tempo e é logisticamente complicado, como se não se pudesse adiar a coisa uns dias e pedir mais braços (com os meus podem contar). Talvez porque na Apel haja gente muito importante, como tanta gente neste país, dos mais diversos sectores de actividade, que, sofrendo de um certo complexo de superioridade, considera sempre que o silêncio e o desprezo são uma saída com classe. E lá de longe, de Lisboa - onde continuam apostadíssimos numa grande feira do livro em Lisboa (ainda maior, para se vingarem da fome na invicta), continuam a sair comunicados e decisões em desfavor da feira este ano. Sem perceber que isso é violar a dignidade, não só de uma cidade e dos seus habitantes, mas de todo o norte. E será sempre um tiro no pé. Teremos sempre, para os que ficarem historicamente responsáveis por esta vergonha, uma solução de vocabulário local que, provavelmente, nunca constará dos vossos dicionários. Na Ribeira começa sempre pelo verbo "ir" no imperativo. O Porto, que nunca perdeu, não vos perdoará.

PG-M 2013

2 comentários:

Virginia disse...

Vergonha!

Não acredito que isso vai acontecer. Estava já à espera e tinha uma listinha de livros para comprar.

Já partilhei esta entrada no meu FB, todos devíamos protestar!

Abraço

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Vergonha mesmo.