2013-05-09

Mais de três polegadas de solidão

Não falo da solidão branca, que é desejada até pelos mais velhos de nós, que depois morrem naturalmente sozinhos com o único descuido de não terem preparado a morte, e depois são devassados por correntes noticiosas que só se lembram dos outros, dos da solidão negra, dos que não querem nem podem estar sozinhos. A solidão negra moderna ganhou uma ilusão de anulação: os ecrãs. Mas, tal como as multidões que nos deixam mais sozinhos do que a casa vazia, os ecrãs tiram a muita gente, não só a ideia, mas a probabilidade, de convivência humana. Todos nós, que vivemos neles, percebemos que o corpo fica cansado de não ser visto nem tocado. Quando usamos transportes públicos de forma ocasional, ficamos fascinados por ver pessoas. Pessoas que os suportam todos os dias. Algumas, por isso, fogem para dentro de ecrãs mal saem de casa. Não olham para o topo dos edifícios, para a rua, para o rio, para nós. Nós que um dia tomamos a decisão de ir tomar um café real com um amigo real, mas percebemos que os "amigos" estão ocupados. Essa ocupação pode ser a incapacidade de trocar o ecrã pela pele, porque tempo há, há sempre tempo, nem que seja para meter na cabeça que o temos para fatalidades e que não têm de sobrevir fatalidades para nos enxergamos. E enxergarmos o outro . Hoje o engano do cantinho quente da nossa cabeça faz-nos fugir do colectivo. Nunca tanta gente sofreu de solidão negra que parece branca. Ainda por cima é uma solidão que só aparentemente se quer, que faz chegar dias em que se pensa e sente que os amigos virtuais não querem saber de nós e se bate com portas que não existem. Importar-se com os outros ainda não deixou de ser o acto voluntário de mudar para outra pele. Em qualquer ambiente, analógico ou digital. E se estamos encerrados nas nossas cabeças nem sequer para a nossa pele mudamos, quanto mais para a dos outros. É preciso sair. Comecemos pelos próprios espelhos, antes que sejamos todos um colectivo de ilusões. Ou palhaços sem plateia.

PG-M 2013

8 comentários:

Isto e aquilo disse...

Concordo tanto consigo Pedro!
E o Pedro diz sempre tudo tão bem... ;)

Beijinho
Isabel

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Isabel. E pro favor não me trates por você. promise? :)

Guida Ricardo disse...

... e os cafés virtuais são tão sensaborões ...

Parabéns pela escrita Pedro.

Virginia disse...


A solidão negra não é desejada por muitos, mas a única possível nos dias que correm. Mesmo com a família, as dificuldades são muitas, devido a cada um viver a sua solidão negra para si e achar que chega em termos de convívio.
Nunca fui muito social, mas o simples facto de ter iniciado um tratamento que me obriga a estar com o terapeuta durante hora e meia ao vivo, faz-me acreditar que é possível olhar alguém nos olhos, dialogarmos sobre temas que nos interessam, "perder" tempo sem ter de teclar ou ler o que a outra pessoa pensa....

Mas a solidão negra veio para ficar e preenche os vazios que a própria sociedade se encarregou de cavar. Pessoas independentes são pessoas sós, o que não quer dizer que sejam infelizes. O ecran é belo por vezes....

Abraço

Isto e aquilo disse...

Sim ,claro, peço desculpa. É que na blogosfera trato toda a gente por você. Tu és a única excepção, porque me começaste logo a tratar assim... ;)

Prometido!
Beijinho

Pedro Guilherme-Moreira disse...

eu não estou nesse sítio, Isabel. Estou cá pelo Porto, visitável e de portas abertas.:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado Guida:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

é, Virgínia, e quando é bom a solidão fica branca:).