2013-05-14

Le MEC

Não sei bem explicar o que neste homem me faz bem, me fez sempre bem. Não é um dado adquirido, não é aquela quase obrigatoriedade de dizer-bem-de-MEC, aquela pulsão "cool" de o elogiar publicamente, trazendo a sua glória sobre mim. Não gosto ou deixo de gostar de forma adquirida. Se tenho de gostar acriticamente de um amigo ou de um inimigo, prefiro não falar dele. Se falo dele, gosto ou desgosto criticamente. Digo mal apenas se me sentir defraudado. Se não esperava mais, calo-me educadamente. O Miguel Esteves Cardoso tem o traço de todos os homens bons que conheci, todos ao mesmo tempo, e mesmo assim não tem tempo. Nem nada. Nunca esperei menos dele. Tenho pena de que não seja meu amigo, apesar de ser a única figura pública que diz que quem sente que o conhece o conhece mesmo. Que diz não e sim de forma voraz. Que ataca qualquer pergunta como um bebé com fome de mundo. O conhecimento do interlocutor e das coisas que o interlocutor lhe traz ou permite descobrir. Profundamente humilde e sábio. Aquele ar trapalhão é a forma alegre da sabedoria, que ele diz ser intrinsecamente triste. Deve ser o único sábio alegre sobre a terra. Que não importa ser sábio, que a vidinha é bem mais importante, que não se devia ler tanto, mas viver mais, que não falta leitura aos portugueses, não senhor, porque os portugueses vão lendo nas salas de espera dos médicos, quando falam para o ar de forma imperceptível sobre as suas alfaces (confesso que quando ouvi isto estive para chorar). Vão lendo a própria vida. Que aspira ao sossego. Ao silêncio com a Maria João. Agora tenho a certeza: o Miguel Esteves Cardoso vai nascer todos os dias para o resto da vida. E nunca morrerá.
 
PG-M 2013
fonte da (belíssima) foto: Grupo Impala, Nova Gente

6 comentários:

Isto e aquilo disse...

Muito bonito Pedro! E verdadeiro.
Eu ouvi o Miguel ao vivo há muito pouco tempo, no S. Jorge e acho que é tal e qual como dizes. :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, Isabel. Não consta que ele tenha vindo ao norte, excepto tocar no seu "Como e linda a puta da vida" logo à saída do prelo:).

Virginia disse...

Tinha acabado de ler a entrevista da RTP que o meu filho me mandou e abri o blogue ( o meu) onde encontrei a tua entrada. Achei-a mesmo propositada e também ela sábia...dum modo diferente.
O MEC veio à Almeida Garrett apresentar o livro, mas infelizmente estava nos Açores e não pude ir ver.

Abº

Pedro Guilherme-Moreira disse...

como é que tu lês uma entrevista da RTP? Beijos e obrigado, PG-M

Virginia disse...

Boa piada.

Tinha acabado de "ouvir" a entrevista....isto é deformação de quem passa a vida a ler:)).

O MEC tem um modo inglês de encarar a vida que me encanta, apesar de por vezes me enervar com o seu "não sei quê" lisboeta.

EU sou lisboeta....:))

Faty Laouini disse...

É verdade, um sábio alegre. Tb vi a entrevista e gostei. Sem elitismos nem reconceitos, noções simples de quem sabe o que é sofrer e cresce com isso.