2013-04-23

Revolta na estante



Tenho aqui milhares de livros amuados a dizer que hoje é o dia.
Querem sair, ver mundo, em vez de mostrar.
Estão fartos de estante e prateleira. Alguns de segunda fila dizem que é como se estivessem mortos. Os da prateleira inclinada do ikea, onde tenho as primas, explicaram-me que estão enjoados daquela posição atípica e do excesso de mérito. Que os misture com coisas leves e com mais nervo. A verdade é que a indignação cresce e eu começo a correr perigo. Que é injusto que sejam quase sempre os mesmos a sair. Na casa de banho, o "Vida e destino" e a "Odisseia" olham-me com desprezo. Este último consulta o relógio, por ser livro de biblioteca e saber que o prazo de empréstimo está quase no fim. Já não é a primeira vez que tento fazer a vontade a um e me caem todos em cima. Disse-lhes que não podem sair todos, mas prometi que roubava um hoje para trazer agitação à casa. O último que roubei foi uma edição bonita da Madame Bovary, que nesse dia viajou de comboio e a que no regresso uma amiga juntou um da Julieta Monginho. Calei-os. Estava determinado a roubar um "Livro do desassossego" que li na adolescência, mas depois lembrei-me que as últimas edições o duplicaram, e que o mais certo era ele ser desprezado por todo o acervo. Os livros de Direito, esses, estão mortos e já ninguém os rouba. BD, disse uma edição da Bíblia que sempre estranhou estar na secção de livros de poesia. Tens pouca BD, já chega de tanto palavreado sem cor. Eu vim com aquela treta de a cor ser das palavras e tive uma grande vaia dos dezoito volumes do Houaiss, que cliché, experimenta vestir sempre de cinzento e convencer os outros que até tens um interior bonito. Dizem que no natal em que arrumei na estante uma belíssima edição de "The Tale of Peter Rabbit" - facsimilada da original, mas pop up - houve comoção na estante virada a sul. Ninguém se queixa nessa estante, onde estão outros dicionários e uma edição brasileira de "...e o vento levou" de 1940. E eu concordei. Hoje roubo-lhes BD. Calaram-se. Dei-lhes os parabéns pelo dia e ouvi vários "pfff".

PG-M 2013

PS: não percam o vídeo supra, não hoje, que é o dia

2 comentários:

Virginia disse...

Texto fabuloso, Pedro, que já partilhei no FB.

E o meu Humpty Dumpty, um dos meus heróis preferidos em cima do piano. Video que já conhecia, mas que adorei rever.

Não há dúvida que escritor é escritor...mesmo que os livros o chateiem com as suas exigências perfeitamente escusadas. Mais vale estar na estante, que nu sótão cheio de ratos...

Abraço

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, Virgínia. Por saber que é exigente, fico feliz. Grato.