2013-04-20

Nós, palhaços

Às vezes, estúpido, penso que a manhã trará por si algum rasgo, alguma inspiração. Como tantos, começo a procurá-lo ligando a tv, lendo o jornal, olhando para as caras no caminho do tribunal. Muitas vezes, demasiadas vezes, nada ressalta. Quando está este sol, um certo sorriso de acolhimento colectivo ameniza esse desencanto. Mas finalmente chega o café do meio da manhã e eu pego no livro, há semp...re um livro, reparo em quem não tem um, como olha o vazio, como mesmo com o sol na cara o olhar regressa. Observo isto há anos. Não mudou com a crise. E então entro pelas secretarias e pelas agências e escritórios a disparatar, a ver se alguém levanta os olhos, já mal uso gravata, e se uso apouco-me perante os mais modestos, uso o vernáculo, trago-os de dentro das peles grossas, dispo-os das mágoas para ficarmos todos a rir do nosso ridículo. Depois vou correr à hora do almoço e ainda fico mais insuportável. Nos dias de tempestade, venho da chuva para secar quem puder pelo caminho. E tiro sempre meia-hora para abanar gente em facebooks e emails. Há quase meio ano que uma situação passageira me traz incapaz de tanta palhaçada - algo irrelevante, mas ainda assim suficiente para não me pintar nem fazer o número. Felizmente estou uns quilos mais gordo e uns anos mais velho e percebo ao espelho que só me resta a alternativa do circo. Tenho de me voltar a pintar e cortejar o mundo inteiro com o meu ridículo. Uma só gargalhada e algumas horas do dia ficam suportáveis. Muitas e a vida toda, que são dois dias, fica leve para o público do palhaço. Ao longe, vejo em cada televisão ligada em cafés o programa do Goucha, vejo a loura da Malveira a disparatar e os olhares vazios a transbordar de riso. A vida precisa dos que aceitam ser palhaços. Amanhã ainda vou carregar mais na base. E no livro, sempre o livro.

PG-M 2013
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