2013-04-12

Jornalista-bli mini-moli

Sou pivô de um canal noticioso e faz agora dez anos que moro naquela rua da margem sul. Farto-me de levar cordilheiras de papéis para casa, para estudar os vários temas e os vários convidados, ler livros, recortes, opiniões, recensões, críticas, comentários de amor e de ódio.
No início desta semana - logo pela manhã - o meu vizinho da frente, que nunca me tinha dirigido a palavra, vendo-me com mais uma cordilheira de papéis nos braços, perguntou, quase em estilo arrumador:
 - Doutora, esses julgamentos? Cada vez mais, hein? A vida está pr'ós advogados, hein? Hein?
E eu, atrapalhada, com o resumo do livro intragável de um líder político de extremo-centro a escorrer-me pela perna direita, a chave do carro pendurada no mindinho, a mala do portátil entrepernas e o apanhado das declarações de um ministro entre dentes, tentei dizer
- Ê'n'xou'dvogada!!!
Mas ele, mais interessado nas suas determinações do que na minha figura, levantou o braço e despediu-se, Olhe, boa sorte de qualquer maneira, que sempre tem aquele Marinho para dar no corpo a quem precisa. Saudações do vizinho Turkey*!
Turkey? Mas quem é se chama Turkey?
Depois do almoço fui, vou sempre, tomar café ao Tomás das conquilhas, onde sou muito bem tratada, precisamente como se não fosse ninguém, mas hoje um novo elemento fixou-me com o sobrolho franzido e, entre pentear a careca e puxar, sem espelho orientador, os pêlos brancos do bigode grisalho, apontou-me um dedo grosso de ponta roída e acusou-me, vermelho:
  - Isabel Silva! Isabel Silva da TVI? Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah, malandra, ah! ah! ah!
Eu, com o espanto de ser trocada por outra, cuspi o café e sujei a blusa branca e, preocupada e sem tempo para me mudar, não conseguir desmentir o homem. Mas ele continuou a anunciar-me aos nóveis amigos como "esta gaja é do caraças. Eu sou taxista ali no Oriente, e a gaja aparece-nos lá com uns naperons a dizer assim. E antes de dizer o que dizia, ria-se alto, muito alto. Ah Ah Ah. Ai o caraças. Nunca o homem, ainda mais vermelho e entalado, usou um Eh para se rir. Ah Ah Ah, perante a atitude compassiva do Tomás, que encolhia os ombros para me dizer sem palavras, Tá bêbado. Com um naperon - continuava ele -, ouuuuuuve, pá, a dizer. Ah ah ah. Um naperon bordado a dizer. Ah Ah Ah. "La-la-la-o-ca-ra-lho". Ah ah ah.
  - Ei, ei, ei, ei, ei. - censurou o Tomás - Olh'aí, ó Nippers*. Mais respeito.
Nippers? Mas quem é que se chama Nippers?
Segui para a estação já atrasada, a nódoa de café parecia o mapa de Manhattan, chamei o faz-tudo e pedi-lhe que trouxesse uma tijela de água morna com bicarbonato de sódio. Não temos. E não podia dar um saltinho à drogaria ou à farmácia para comprar qualquer coisa que tirasse isto? Oh, Mahattan, que interessante, disse ele, desconversando. Podia fazer-me esse favor, podia?
 - Preferia não fazer.*
Olhei-o com ódio e reservei para mais tarde. Agora tinha de ver os mails. Centenas de mails. Dezenas de mails de patrocinadores a alertar para o incumprimento dos tempos. Relatórios de audiências e sugestões para aumentar o tempo dedicado ao futebol. Grunhos-hetero-supostamente-intelectuais a tentar impressionar-me, pais de família a elogiar-me a beleza, e amigos, tantos amigos. Um nojo. A atitude do faz-tudo começou a roer-me por dentro, e por roer lembrei-me do bêbado de pontas roídas chamado Nippers e do vizinho obtuso chamado Turkey.
Ninguém se chama Nippers.
Ninguém se chama Turkey.
Voltei a chamar o faz-tudo. Que não.
  - Preferia mesmo não fazer, Isabel. - e saiu porta fora antes de eu lhe poder dizer o que quer que fosse. Praguejei e entre dentes, já sem morder as declarações do ministro, declarei não me chamar Isabel. Isabel é a tua tia. Mas porque é que toda a gente me chama Isabel hoje? Como é que se chamava aquela "colega" com que o bêbado do Tomás das conquilhas me confundiu? Isabel Silva, era isso. Mas quem é o raio dessa Isabel Silva? Googlei-a. Uma baixinha bonitinha que faz as reportagens de campo do programa do Goucha e da Cristina. Como é que me podem confundir com ela? Eu sou uma mulher alta e pi-vô de no-tí-cias. Vi algumas reportagens da menina e reparei num carregado acento nortenho. Liguei a um amigo do Porto para saber se ele a conhecia e o que pensava dela. Ele não me atendeu, eu mandei-lhe uma sms a perguntar-lhe se ele conhecia uma Isabel Silva da TVI e se me podia dar uma opinião. Ele respondeu por escrito a dizer que conhecia, mas que preferia não dar. Corri para a casa de banho e lavei a cara com água fria. Isto não está a acontecer. Isto não está a acontecer. Escrevi-lhe um mail e ele repetiu a graça. Resolvi acalmar-me. Isto não leva a nada. Tenho de compreender. As pessoas estão num limite da existência e provavelmente hoje é o dia. Hoje é o dia em que tudo e todos explodem. Mas não eu. Escrevi os meus pivôs, preparei a entrevista do ministro cujas declarações tivera entre dentes à frente do meu vizinho Turkey, entrei em directo. A entrevista correu bem, mas o ministro, no final, em directo, virou-se para mim e disse:
 - Gosto muito do seu trabalho, Isabel. Particularmente nas manhãs, em que um estilo vincado e um maravilhoso sotaque nortenho, aliado a uma competência extrema, faz com que consiga dar um brilho a temas que os próprios condutores do programa não têm pudor de explorar de forma bem mais polémica. A Isabel não toma o povo por burro. É inteligente, brilhante. Vejo sempre a primeira hora do programa antes de sair para o ministério, espero pela minha Maria e deixo-a na mercearia. Gostei particularmente daquele programa há tempos, sobre aquelas meninas que bordam, o "Hardcore Fofo", - o ministro aclarou a voz e deixou escapar uma risada púdica, um ih ih ih que o Nippers nunca estaria perto de imitar, e eu, embora tivesse tentado aplacá-lo, dizer que estava errado, confundido, que eu não era Isabel, não consegui soltar um som sequer, e o ministro continuou - as meninas bordam por assim dizer, "carvalhadas", - vincou bem a palavra - ih ih ih, como era?, "Rala-me o pepino". ih ih ih, oh oh oh. Em directo.
Lívida, despedi-me dos espectadores (aAO) e fechei a emissão. Passei pelo ministro sem uma palavra e fui directamente à telefonista pedir-lhe uma chamada. Esperei a mesma resposta, este era o dia, eu já tinha visto este dia nalgum lado, mas não sabia onde:
  - Eu preferia não fazer.
Procurei os contactos e liguei para a TVI. Pedi para me ligarem à Isabel Silva. Que não estava, mas que se estivesse também não passavam. Comecei a protestar e do outro lado ouvi "La, la, la" e mais "La, la, la". Francamente! Que infantil, minha senhora! Disse aos colegas que não ia tomar um copo com eles, que estava muito irritada e que tinha de ir para casa e era já. Durante o caminho tentei compreender todos os protagonistas do dia, menos eu própria. É sempre assim, todos os dias, todas as noites, com os jornalistas. Pensei, megalómana, que tinha tido o meu atarracado Bloomsday**, e que o venceria na intimidade do meu quarto, lendo o longo e belo solilóquio da Molly Bloom ao espelho, com cinco ou seis respirações, para abrir a veias. Quando ia a entrar em casa, apareceu-me outra vez o vizinho Turkey, encostado ao portão, a friccionar os lóbulos das orelhas e a parte de dento das narinas, novamente eu a carregar as cordilheiras de papel e ele sem oferecer ajuda, também não queria, o tipo é abjeto, que raio de vida a minha, e começa ele, primeiro baixinho, irritante, mas subindo gradualmente de tom, virando as costas e sempre, cada mais alto:
 - La la la, la la la e la la la, advogadas vigaristas, la la la, la la la, la la la.
E eu, claro, qual bordado de hardcore (fofo):
 - La la la, o ca - e expliquei as restantes sílabas muito bem explicadinhas - ra - lho.
 Turkey levou a mão à boca, cobrindo-a com pudor.
  - Vou fazer queixa à sua Ordem.
  - Hades*** fazer, hades!
 E entrei em casa e, quando me preparava para bater violentamente com a porta, ainda o ouvi suspirar:
 "- Oh Bartleby! Oh humanidade!"*

PG-M 2013
foto retirada de hardcorefofo.pt
* do conto de Herman Melville, "Bartleby"
** o dia 16 de Junho (de 1904), em que se passa todo o "Ulysses" de James Joyce, e que é hoje feriado nacional na Irlanda
*** Hades, deus grego dos mortos, como aliás a aqui mencionada Ordem dos jornalistas, à nascença, e flexão moderna e popular do verbo haver no Tomás das conquilhas, que será integrada pelos especialistas no próximo acordo ortográfico, por exaustão - é certamente melhor do que "espetadores";
  

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