2013-04-07

E se algum céu (literário)

 
Vamos lá: um "menino" da Rosário (Pedreira) a falar de outro "menino" da Rosário, a lusa caça-talentos da "aurora de róseos dedos" do século XXI? Um concorrente ao Prémio Leya 2012 (sim, sim, os cem mil davam-me jeito) a falar do vencedor do mesmo? Mas tu acreditas mesmo nesse prémio, Pedro? Ou acreditas porque "és" da Leya? Nova literatura portuguesa? Pfff, o que é isso? Tudo isto, ou tanto disso, é dito à boca pequena e em surdina, ou então por atacado por um(a) ou outro(a) "corajoso(a)". Mas dessas necessidades básicas nem todos sofremos.
Vamos lá, então: esta é a "narrativa" a que tenho de responder cada vez que falo de livros? Não. Não é. Não pode. Afinal, quem ama (bons) livros está sempre do mesmo lado. Qualquer escritor vale zero antes da página dois. Não há génios apriorísticos nem vultos. Há fantasmas. E há, certamente, no pequeno (pequeníssimo) meio literário português, excesso de cagança e decesso de pujança. E nas páginas dos jornais e nas imagens das televisões há excesso de cátedras e decesso de catedráticos. Sentencia-se ou resume-se o autor e a autoria, assim como os seus produtos, para que o povo "estúpido" entenda rapidamente e não desmobilize. Tudo é "notável", "o maior da sua geração", "alvo de criticas entusiasmadas", "livro do ano". Então, para que não pareça sentença ou cátedra, aqui vai a minha rápida opinião, e não se fala mais nisso: os novos autores portugueses estão estacionados num bom nível qualitativo, mas falta rasgo e coragem (principalmente para não publicar tudo e para publicar o que é diferente) a autores e editores, e não, não aceito que isso seja constantemente motivado na crise, até porque houve crises bem maiores na História. Há, claro que há, (muitos) empregos em risco, mas no tempo dos maiores vultos havia tudo o que há hoje e muito mais e muito pior. Acaso alguém já se deu ao trabalho de ler o prefácio que Cervantes faz ao seu Quixote? Pois que leia, que veja como é de hoje. Como de hoje é o tique de fazer dos que estão mortos super-homens e dos vivos parvos. Ao tempo em que saíram, poucas foram as obras-primas consensuais, quase todas foram violentamente atacadas. E basta abri-las e lê-las sem preconceitos para perceber que os super-homens também falharam (muitos classicistas estão de acordo que, por exemplo, Homero não deu o seu melhor na "Odisseia" e que a "Ilíada" - se for dele - é bem melhor); Proust foi vexado; Joyce - que tomou contacto com a "Odisseia" numa versão para jovens muito parecida com a que o nosso Frederico Lourenço publicou cá na Cotovia - foi, até muito tempo depois da sua morte, considerado um escritor maldito, uma ovelha negra no seu próprio país, que hoje dedica um feriado ao seu "Bloomsday" e teve o "Ulysses" banido de solo americano até que uma só corajosa mulher resolveu afrontar a censura americana).
 
Dito isto, se eu disser que qualquer abordagem literária só tem sentido e utilidade (se aqui não incluirmos o lado lúdico das polémicas) se a humildade e a subjectividade da abordagem estiverem em destaque, estou obviamente a dizer que quem aborda obras literárias pelo lado da cátedra tem de a ter, à cátedra, porque, não a tendo, deve sempre deixar a nota de que não foi investido da luminária do julgador que redige sentenças. Neste nosso país, neste nosso tempo, já não há muitas cátedras a escrever sobre literatura. E porque não há deve importar-nos, cada vez mais, a ´"víscera", o sentimento daquele que nos fala de uma obra, pois é isso que o distingue de todos os outros.
 
Eu nunca, quase nunca, escrevo sobre livros. Escrevo livros, não escrevo sobre livros. Sei de menos para isso. E se um dia souber o suficiente, o meu amor pela literatura vai sempre opor-se a que eu escreva sobre livros. Não uso comparativos porque isso seria sempre apoucar o (muito e os muitos) que não conheço. Dizer "o melhor" é, para mim, impossível na literatura.
 
Mas eu quero dizer alguma coisa sobre o novo livro do meu colega de Pedreira e de Leya, Nuno Camarneiro, que me ganhou o Prémio Leya 2012, a que também concorri (porque preciso), e cujo valor (o do Nuno, não o do prémio), para mim, nada tem a ver  - nunca terá - com concurso nenhum. Já não tinha quando saiu "No meu peito não cabem pássaros", logo, logo, a seguir ao meu "A manhã do mundo", e que me deixou sempre a impressão de que estávamos juntos nisto. O que eu - só eu - procuro em qualquer livro é una apneia, uma que seja, e alguns (mesmo alguns dos "melhores" à força) não me dão nenhuma. Por isso as procurarmos nos consagrados e testados. Mas não devemos descansar nesses pré-conceitos, por superlativos que sejam. Escrevem-se apneias hoje. O livro do Nuno deu-me várias. Não vos sei dizer onde se situa o Nuno no "espectro" da "nova literatura portuguesa" - nem sei eu, nem ninguém, porque isso não se pode saber sem que passem, pelo menos, umas boas décadas (a "História" é tempo, e nenhum iluminado contemporâneo pode tirar-lhe isso); o que se pode saber hoje, isso pode, são as apneias.
 
Estas são as apneias que o Nuno me deixou com o seu livro "Debaixo de algum céu":
 
Como leitor, na minha cabeça ficou o inverno de um prédio na Praia da Barra - quando o Nuno me disse que vivia lá, sempre o imaginei a traçar no teclado o inverno de quem vive numa praia (eu também vivo numa, sei bem a urgência que, de quando em vez, nos surge em invernos nada urgentes, a de retratar as pessoas que passam ou que estão) - perto de Aveiro, embora possa ser qualquer prédio de qualquer povo de praia a alguns quilómetros de qualquer cidade média.
 
E parei brevemente de respirar perante o terceiro direito e a história da ausência - um dia perceberão porque é que eu fiquei no terceiro direito mais tempo do que o devido. O amor que Bernardino faz. Os beijos pequenos dados pela Joana. O toque de Margarida nos livros do marido holandês, sem os ler. As três pessoas na praia. O gato louro daquela Margarida que tem lugares só seus. O segredo de um Moço no menos um. Os livros do padre Daniel. A oliveira inclinada para onde foge Constança. As queixas de Manuela - o chocolate. O anjo da guarda. Ouro e homens, não há nada que não se perca, nada que não se encontre, no adeus de Moço ao doutor Adriano. A carta que comove David. O cheiro a horas lentas e corpos quietos do domingo do prédio. O limpa-para-brisas que falta dentro da cabeça de Adriano. O tempo é uma mercê porque corre sem a Joana. Margarida a reapossar-se da casa e do silêncio depois das visitas. O ovo de raia. A "check list" de Bernardino. Os cães da praia, que eu sempre temi. A morte a multiplicar-se por dentro. O sino-saimão que nos tem de putas e casamentos.
 
E não é pouco nem é tudo. Voltem  lá por mim.
 
PG-M 2013

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