2013-04-11

Crónica de uma vida dupla


De um escritor esperam sempre alguma coisa sensível, inteligente, e que não ganhe nada (se for bem sucedido, passa a light). De um advogado, hoje, esperam que seja mais burro do que eles, aceite a história desenhada em família e pesquisada na net, e que não leve nada. Portanto, o que me define é nada. Sendo nada, eis como respiro: na aldeia onde vivo, ser advogado é o bastante para ser aparentemente respeitado. Quando eles sabem que escrevo, desconfiam. Fora da aldeia onde vivo, escrever granjeia algum respeito. Se sabem que sou advogado, desconfiam. Outro dia, o tono disse que me tinha visto na televisão e que não sabia que eu escrevia. E ficou a dedicar-me uma expressão entre o vazio e o desprezo, como o resto do café. Depois bateu-me nas costas e falou-me do Marinho Pinto, com um largo sorriso. Demos um gole nas nossas cervejas. De há uns anos a esta parte, é o Marinho que lhes acende o vernáculo, e o povo passou a procurar e a esperar o lado broeiro no advogado. Eu saio do café com o meu ego confuso. Chego a casa, pego no Quixote e não consigo deixar de ver no Sancho o Marinho. "Talvez seja mais alto", penso. O problema é que é impossível reconhecer-me no fidalgo dos moinhos de vento, porque eu sou um Sancho em ponto grande. E então ficam as duas minadas para o dia. A advocacia e a escrita. Depois pego no Homero e leio aquela parte do poema em que ele e os companheiros, que choravam sempre muito e eram uns medrosos, fogem ao gigante de um só olho, Polifemo, que cegam como estratégia, pendurados por baixo de ovelhas. Fico muito tempo a pensar se as ovelhas eram gigantes, mas não eram, e se o Homero alguma vez se tinha pendurado numa. Parece-me claro que nenhuma sairia do sítio, e eu penso que isto ainda é perdoável num miúdo urbano de hoje, para quem as ovelhas são animais míticos, mas não no Homero. Triste, deprimido e sem saída, volto como ambos ao café e bebo mais um copo com o tono. Ponho a barriga para fora e imito o Marinho. Todos riem. E enquanto bebo a segunda cerveja penso na sessão de uma escola, logo à tarde, na veste de escritor. O mais provável é ceder à pressão dos miúdos e acabar num pranto, por colapso nervoso. Se isso acontecer, direi que imito os companheiros de Homero que, obviamente, nunca tiveram hipótese de chegar a Ítaca, ranhosos como eram, e explicarei a minha teoria das ovelhas. Talvez assim me safe porque, na prática, levo esta vida dupla mas não sei quem sou. Olha, agora pareço o Pessoa, mas ele tinha sorte. Não era advogado. Agora vou ali arrumar uns carritos.

PG-M 2013
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