2013-03-18

Umbra Klara

A ideia de um Deus ateu não é nova, mas é a que ora se traz ao edifício do discurso.
Falar-se-á de cinema, mas o cinema, este cinema, não se inscreve no vazio. Usa-se a Ave verum corpus, de Mozart (carrega-se a expressão latina do sofrimento do corpo de Cristo que transporta o sofrimento de todos os homens) que encerra o último de três filmes vistos em três dias em grande ecrã, no final de uma semana em que um conclave de ilustres cardeais elegeu um Papa que se quis chamar Francisco e pediu uma igreja pobre para os seus pobres, os pobres que lhe ficaram a latejar na cabeça quando o cardeal brasileiro Hummes o abraçou e beijou pela eleição e lhe pediu para nunca se esquecer deles. Qualquer homem de fé que seja lúcido gosta de ver nos olhos do amigo ateu a emoção (e a comoção) do mundo. E ateus choram, talvez porque percebam a evidência de que sobre a batina branca impende um putativo peso da História, com tudo o que de bom e mau foi aos homens trazido em toda a simbologia cristã - e durante centenas de anos aos papas que lideraram (e deviam ter cedido o corpus a) crentes, não crentes e indiferentes. A "Ave verum corpus" encerra o filme "Robot and Frank", provavelmente o menos notável dos três, mas podia percorrer cada cena do "Ferrugem e Osso" e do filme que verdadeiramente nos traz aqui: "A caça" (Jagten), do dinamarquês Thomas Vinterberg. É, para mim, e apenas para mim, um filme perfeito. Deixou-me tantas vezes à beira da raiva e do choro e do choro pela raiva e da raiva pelo choro, deixou-me sair sem certeza nenhuma, não sei se de olhos secos, talvez de olhos secos e alma derramada. Se ao espelho nos virmos como homens bons, pelo menos tão bons como o Lucas de Mads Mikkelsen, seremos prostrados no curso da película. Lucas é educador de infância numa pequena (e aparentemente feliz) vila dinamarquesa. Por causa de uma sucessão de eventos comuns na vida de todos nós (adolescentes a correr a casa com tablets que mostram imagens pornográficas, sem protecção dos que as não podem entender) que até dói, Klara, um anjo loiro de quatro anos, sentindo-se despeitada pelo seu educador favorito, melhor amigo do pai, que não lhe consente um beijo e uma prenda, mente ou é levada a mentir sobre eventuais actos impróprios que são atribuídos injustamente a Lucas - o homem impoluto por excelência, único na vila que, mesmo debaixo de fogo, persegue princípios. A partir daí, com um rigor e uma completude que impressionam, o aparentemente frio Vinterberg filma o inferno a instalar-se nas nossas vidas. Filma tudo o que podemos pedir, filma todas as perguntas que podemos fazer, filma toda a beleza e toda a maldade, filma tudo o que faríamos e mais: filma como o bem faz peito ao mal, numa missa do galo e numa das cenas mais belas e catárticas a que a minha imperfeição podia assistir num filme que sente como perfeito. E é tão curioso como para Vinterberg a cor da sombra (umbra Klara) e da tristeza é o azul (é comum nos nórdicos o azul ser o cinzento) e o da alegria o laranja. O laranja da colónia de nudistas onde ele próprio cresceu e onde corpos o sentavam ao colo sem que ninguém olhasse de lado. É verdade que um filme perfeito pode ser uma arma para os criminosos sexuais que tentam branquear-se. Mas seremos nós capazes de, como sociedade, e apesar da realidade milenar desses abusadores, permitir que as nossas crianças possam ser de novo mimadas, amadas, tocadas e pegadas ao colo por quem as ama além dos próprios pais? Ou esse tempo acabou definitvamente? E seremos capazes de desatar o novelo social súbito em que toda a histeria enredará os mais insuspeitos cidadãos? É assustador. Somos cada vez mais o nosso lado animal. Um filme obrigatório, claro. E no cinema, para que não possamos virar a cara, sair da sombra azul de Klara - está apenas nos cinemas UCI, em Lisboa e Vila Nova de Gaia, e de forma errática pelo país. Vinterbeg responde, no final, com um tiro, à pergunta sobre se alguém algum dia se poderia livrar do inferno. O Papa Francisco não teria resposta. Ninguém tem. Ave verum corpus. Umbra Klara. Que aqui até Deus parece ateu.

PG-M 2013

2 comentários:

Virginia disse...

Continuo a achar que estas críticas de filmes escritas por si deveriam ser incluídas num jornal que se prezasse.

Só vi Ferrugem e ossos, mas já estou com vontade de ver oa outro...no UCI, o único cinema onde vou hoje em dia.

Quanto ao Ave Verum leva-me ao meu liceu, às aulas de Orfeão, em que o cantei pela primeira vez....

Pedro Guilherme-Moreira disse...

eu também acho, com o já tinha dito, julgo, e essa jorna dava muito jeito:). Mas o que importa é continuar a fazê-las. Só escrevo sobre coisas que me varrem dos pés, traduzindo à letra uma célebre expressão inglesa:). Obrigado, Virgínia. Este é um filme para sempre. Ferrugem e Ossos é só bom:). Marion em francês sempre divina.